Na minha Alma há um balouço
Que está sempre a balouçar -
Balouço à beira de um poço,
Bem difícil de montar...
- E um menino de bibe
Sobre ele sempre a brincar...
Se a corda se parte um dia
(E já vai estando esgarçada),
Era uma vez a folia:
Morre a criança afogada...
- Cá por mim não mudo a corda,
Seria grande estopada...
Se o indez morre, deixá-lo...
Mais vale morrer de bibe
Que de casaca... Deixá-lo
Balouçar-se enquanto vive...
- Mudar a corda era fácil...
Tal ideia nunca tive...
Mário de Sá-Carneiro
Paris, Outubro de 1915
"Um título é parte integral de uma história. Porque não? No fim de tudo, a vida não é uma resposta. restam ambiguidades. Resta o espaço para a dúvida." Isaac Asimov, Mensagens do Futuro.
sexta-feira, 22 de julho de 2005
Tudo ou Nada
Nada passa por nós sem nos marcar, como água numa areia de infância ou numa pedra adulta e irregular. O tempo, essa linha, traz e leva pessoas na nossa vida, como um vento louco. Todas elas nos fazem o que somos. Todas nos dão recordações boas ou menos boas. Todas são especiais, à sua maneira.
Um amigo especial ensinou-me a viver um dia de cada vez. Cada dia é uma vida, e devemos encará-lo com toda a seriedade de ser o primeiro e o último.
Li há pouco tempo que a única coisa que podemos mudar é o dia de hoje, visto que o de ontem já acabou e o de amanhã ainda não existe.
Pessoas que marcam porque nos amam, porque nos odeiam, porque nos impressionam. Gestos de afectividade ou incompreensão.
Mês de Julho, calor nos corpos e nas almas. A minha cabeça cheia de ideias, de sonhos, de desejos. Uma criança a meu lado que brinca. Um sobrinho que faz anos. Um pai convalescente. Tudo em circuito que não pode parar, que quase nos sufoca a alma, tantas coisas, tão pouco tempo, tanta água a marcar a que afinal deve ser areia e não rocha porque me sinto doce.
Hoje, estou feliz.
Um amigo especial ensinou-me a viver um dia de cada vez. Cada dia é uma vida, e devemos encará-lo com toda a seriedade de ser o primeiro e o último.
Li há pouco tempo que a única coisa que podemos mudar é o dia de hoje, visto que o de ontem já acabou e o de amanhã ainda não existe.
Pessoas que marcam porque nos amam, porque nos odeiam, porque nos impressionam. Gestos de afectividade ou incompreensão.
Mês de Julho, calor nos corpos e nas almas. A minha cabeça cheia de ideias, de sonhos, de desejos. Uma criança a meu lado que brinca. Um sobrinho que faz anos. Um pai convalescente. Tudo em circuito que não pode parar, que quase nos sufoca a alma, tantas coisas, tão pouco tempo, tanta água a marcar a que afinal deve ser areia e não rocha porque me sinto doce.
Hoje, estou feliz.
terça-feira, 14 de junho de 2005
O Adeus
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquina
sem esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava, porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certezade que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquina
sem esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava, porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certezade que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade
segunda-feira, 30 de maio de 2005
A Concha
A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.
Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.
E telhadosa de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.
A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.
Vitorino Nemésio
Segreguei-a de mim com paciência:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.
Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.
E telhadosa de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.
A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.
Vitorino Nemésio
Ser
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
Ricardo Reis, Odes
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
Ricardo Reis, Odes
segunda-feira, 18 de abril de 2005
Tempo
Tempo não nos basta para as idas e vindas, contactos e trocas. Manter amizades, projectos, vida pessoal e profissional. Tempo falta-nos para as leituras que queremos iniciar e para que saboreamos terapeuticamente de quando em quando. Tempo escasseia para amar e para viver, para olhar para dentro de nós. para partilhar.
Muitas actividades que desenvolvo têm como base paixões, interesses, em áreas diversas. Todas elas, porque paixões são, requerem um investimento emocional fortíssimo. São por mim levadas a sério e vivenciadas como parte de mim. Com distância e com afectividade. É aqui que o tempo é inimigo.
Difícil será chegarmos à sabedoria de gerações anteriores, em que o tempo só era senhor no último respirar. Em que as crianças cresciam no seio das famílias e os colos e histórias da noite eram partilhadas com serenidade em ambiente são. Difícil será encararmos o trabalho como mais que subsistência, levarmos aprendizagens e acrescer conhecimentos, alargar os nossos horizontes de saber e de aspirar a saber.
Lewis Carroll criou o coelho apressado, que uma Alice despreocupada segue, aborrecida, sobrando-lhe tempo para se alienar de uma leitura maçuda que a irmã fazia. Passámos de curiosas Alices a apressados Coelhos Brancos.
***
Hoje parei o meu dia e o meu tempo para conversar - verbo que vai sendo raro e que é conotado com "perder tempo", sobretudo em dias de trabalho. Conversei, pois, com um homem raro e bom, que me falou das suas obras recentes e da sua mãe de 92 anos. Que me transmitiu que trabalhava por objectivos e não tinha vergonha de seguir a pureza dos instintos e das afectividades. Esse homem ensina a sua arte e partilha-a de forma humilde com pessoas portadoras de deficiências marcantes. Área em que o tempo de comunicar se situa noutra dimensão. Aprendi hoje que o tempo não é ditador. Não nos empoeira os olhos nem os desejos. Não nos angustia se não deixarmos. Basta que a disciplina, a vontade, a persistência e a calma prevaleçam sobre o ritmo que nos é imposto.
***
Vidas alternativas que se encontram com vidas diferentes. Aprendizagens feitas em tempos mortos entre tempos de corrida e no fim do dia constato que tive ainda tempo para sobre o dito escrever. Porque pode sempre acontecer que alguém leia e creia em mim e queira tentar seguir amanhã o meridiano que o bom senso ditar. Ou pelo menos, servirá para não me esquecer de um dia maior que os outros. Com mais sol.
Muitas actividades que desenvolvo têm como base paixões, interesses, em áreas diversas. Todas elas, porque paixões são, requerem um investimento emocional fortíssimo. São por mim levadas a sério e vivenciadas como parte de mim. Com distância e com afectividade. É aqui que o tempo é inimigo.
Difícil será chegarmos à sabedoria de gerações anteriores, em que o tempo só era senhor no último respirar. Em que as crianças cresciam no seio das famílias e os colos e histórias da noite eram partilhadas com serenidade em ambiente são. Difícil será encararmos o trabalho como mais que subsistência, levarmos aprendizagens e acrescer conhecimentos, alargar os nossos horizontes de saber e de aspirar a saber.
Lewis Carroll criou o coelho apressado, que uma Alice despreocupada segue, aborrecida, sobrando-lhe tempo para se alienar de uma leitura maçuda que a irmã fazia. Passámos de curiosas Alices a apressados Coelhos Brancos.
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Hoje parei o meu dia e o meu tempo para conversar - verbo que vai sendo raro e que é conotado com "perder tempo", sobretudo em dias de trabalho. Conversei, pois, com um homem raro e bom, que me falou das suas obras recentes e da sua mãe de 92 anos. Que me transmitiu que trabalhava por objectivos e não tinha vergonha de seguir a pureza dos instintos e das afectividades. Esse homem ensina a sua arte e partilha-a de forma humilde com pessoas portadoras de deficiências marcantes. Área em que o tempo de comunicar se situa noutra dimensão. Aprendi hoje que o tempo não é ditador. Não nos empoeira os olhos nem os desejos. Não nos angustia se não deixarmos. Basta que a disciplina, a vontade, a persistência e a calma prevaleçam sobre o ritmo que nos é imposto.
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Vidas alternativas que se encontram com vidas diferentes. Aprendizagens feitas em tempos mortos entre tempos de corrida e no fim do dia constato que tive ainda tempo para sobre o dito escrever. Porque pode sempre acontecer que alguém leia e creia em mim e queira tentar seguir amanhã o meridiano que o bom senso ditar. Ou pelo menos, servirá para não me esquecer de um dia maior que os outros. Com mais sol.
quarta-feira, 2 de março de 2005
Apoteose do Absurdo
"Sigo às vezes em mim , imparcialmente, essas coisas deliciosas e absurdas que eu não posso ver, porque são ilógicas à vista - pontes sem donde nem para onde, estradas sem princípio nem fim, paisagens invertidas - o absurdo, o ilógico, o contraditório, tudo quanto nos desliga e nos afasta do real e do seu séquito disforme de pensamentos práticos e sentimentos humanos e desejos de acção útil e profíqua. O absurdo salva de chegar a pesar de tédio aquele estado de alma que começa por se sentir a doce fúria de sonhar"
Bernardo Soares, O Livro do Desassossego.
Cidadãos de pleno direito
"Citizen Kane", se bem se recordam, foi um notável filme de Orson Wells, em que se assumiu a filosofia da simplicidade. "O Mundo a Seus Pés", na tradução, trata da história pessoal e profissional de um americano, terminando no fecho de um ciclo de carência de identidade e infância. Rosebud, o seu trenó, o seu único brinquedo de um início de vida atribulado e pobre, passou a simbologia do sonho, do revivalismo, da afectividade, contrariando os valores vivenciados na longa metragem pelo magnata, de poder, de prepotência, de ambição desmedida.
Cidadãos do Mundo, únicos, todos nós. Todos tivémos um início mais ou menos afectivo, mais ou menos fácil, com ou sem carências, com ou sem dificuldades pessoais. Na nossa primeira infância reside o segredo da nossa estrutura psicológica, muitas vezes da nossa força.
Trabalho e contacto diariamente com cidadãos de pleno direito, esses sim com o mundo a seus pés, não por prepotência ou ambição, mas por esforço e dignidade. Um dos temas recorrentes que pretendo expôr aqui é a premência da união entre homens nascidos em circunstâncias várias. Porque não somos iguais. Porque somos realmente diferentes e aí reside a nossa individualidade. Só que quando as diferenças são demasiado marcantes e as dificuldades de fluir pela vida, pelo crescimento, pela escolaridade, pela vida pessoal, profissional, ultrapassam as tradicionais, os homens tornam-se incómodos. A diferença não tem uma medida mas todos nos esquecemos disso.
Daí que pense, pessoalmente, que a ambição de ter o mundo a nossos pés, se equilibrada com a afecividade dos nossos trenós de criança, é legítima, e para me permitir fazer esta leitura de um argumento tão comentado apenas posso ambicionar ter tanto equilíbrio e tanta sensatez nos meus julgamentos como os de pessoas que ultrapassaram o tal nível de diferenças socialmente aceitável.
Essas diferenças sentem-se nos comportamentos irreverentes e marcantes. Em movimentos artísticos ou políticos extremos. Em situações de confronto com um eu que podíamos ser e não fomos ou não desejamos ser. E aqui estou a falar de deficiência e direitos humanos.
Homens e Mulheres não são iguais. Uma pessoa que vê utiliza recursos sensoriais diferentes de uma pessoa que não vê. Uma pessoa que não ouve ou uma pessoa com mobilidade reduzida ou com compromisso oral ou cognitivo tem necessariamente que disponibilizar e exercitar recursos do seu organismo que lhe impoem muitas vezes um ritmo de vida diverso.
Incomodar pela diferença? Ser ignorado pela diferença? Conheço pessoas que sentem na pele estes estigmas, diariamente. Legislação existe para abreviar separações sociais a todos os níveis. Mas a verdade é que as nossas escolas continuam a recusar crianças cegas, deficientes motoras, portadoras de trissomia 21. Criticamos os exageros do nazismo e as práticas que ao longo da história marcaram o tratamento especial dado a pessoas com necessidades, não especiais, porque especiais somos todos, mas diferentes da maior rodela do queijo das estatísticas. Mas continuamos a pactuar com os princípios.
Nas escolas, nos empregos, na vida familiar e emocional de cada um de nós, empenhemo-nos em ir ao encontro da diferença marcada em nós próprios. Não nos isolemos num castelo de contos de fadas, em que tudo é standard, fazendo alegremente parte de uma aldeia global que descaracteriza o ser humano e a civilização ocidental actual. Sejamos realmente humanos, indo ao encontro das nossas carências, das nossas dificuldades, das nossas necessidades especiais, assumindo as nossas forças e as nossas fraquezas, o nosso estatuto pessoal e único. Só assim aprenderemos a respeitar o nosso próximo, sejam quais forem as suas características, capacidades, gostos, ideologias. Só assim sairemos de egoístas torres de marfim e nos aproximaremos da pureza dos sonhos de infância, em que a afectividade é um valor que se bebe e se respira, em que reencontramos os nosso trenós, aqueles que nos arrastam encosta acima, pela neve branca, ao encontro dos nossos amigos, cidadãos do mundo.
Cidadãos do Mundo, únicos, todos nós. Todos tivémos um início mais ou menos afectivo, mais ou menos fácil, com ou sem carências, com ou sem dificuldades pessoais. Na nossa primeira infância reside o segredo da nossa estrutura psicológica, muitas vezes da nossa força.
Trabalho e contacto diariamente com cidadãos de pleno direito, esses sim com o mundo a seus pés, não por prepotência ou ambição, mas por esforço e dignidade. Um dos temas recorrentes que pretendo expôr aqui é a premência da união entre homens nascidos em circunstâncias várias. Porque não somos iguais. Porque somos realmente diferentes e aí reside a nossa individualidade. Só que quando as diferenças são demasiado marcantes e as dificuldades de fluir pela vida, pelo crescimento, pela escolaridade, pela vida pessoal, profissional, ultrapassam as tradicionais, os homens tornam-se incómodos. A diferença não tem uma medida mas todos nos esquecemos disso.
Daí que pense, pessoalmente, que a ambição de ter o mundo a nossos pés, se equilibrada com a afecividade dos nossos trenós de criança, é legítima, e para me permitir fazer esta leitura de um argumento tão comentado apenas posso ambicionar ter tanto equilíbrio e tanta sensatez nos meus julgamentos como os de pessoas que ultrapassaram o tal nível de diferenças socialmente aceitável.
Essas diferenças sentem-se nos comportamentos irreverentes e marcantes. Em movimentos artísticos ou políticos extremos. Em situações de confronto com um eu que podíamos ser e não fomos ou não desejamos ser. E aqui estou a falar de deficiência e direitos humanos.
Homens e Mulheres não são iguais. Uma pessoa que vê utiliza recursos sensoriais diferentes de uma pessoa que não vê. Uma pessoa que não ouve ou uma pessoa com mobilidade reduzida ou com compromisso oral ou cognitivo tem necessariamente que disponibilizar e exercitar recursos do seu organismo que lhe impoem muitas vezes um ritmo de vida diverso.
Incomodar pela diferença? Ser ignorado pela diferença? Conheço pessoas que sentem na pele estes estigmas, diariamente. Legislação existe para abreviar separações sociais a todos os níveis. Mas a verdade é que as nossas escolas continuam a recusar crianças cegas, deficientes motoras, portadoras de trissomia 21. Criticamos os exageros do nazismo e as práticas que ao longo da história marcaram o tratamento especial dado a pessoas com necessidades, não especiais, porque especiais somos todos, mas diferentes da maior rodela do queijo das estatísticas. Mas continuamos a pactuar com os princípios.
Nas escolas, nos empregos, na vida familiar e emocional de cada um de nós, empenhemo-nos em ir ao encontro da diferença marcada em nós próprios. Não nos isolemos num castelo de contos de fadas, em que tudo é standard, fazendo alegremente parte de uma aldeia global que descaracteriza o ser humano e a civilização ocidental actual. Sejamos realmente humanos, indo ao encontro das nossas carências, das nossas dificuldades, das nossas necessidades especiais, assumindo as nossas forças e as nossas fraquezas, o nosso estatuto pessoal e único. Só assim aprenderemos a respeitar o nosso próximo, sejam quais forem as suas características, capacidades, gostos, ideologias. Só assim sairemos de egoístas torres de marfim e nos aproximaremos da pureza dos sonhos de infância, em que a afectividade é um valor que se bebe e se respira, em que reencontramos os nosso trenós, aqueles que nos arrastam encosta acima, pela neve branca, ao encontro dos nossos amigos, cidadãos do mundo.
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2005
Rodin e Rilke: (re)criar a inocência
Encontrei hoje, ao procurar bibliografia de trabalho, uma pequena brochura com desenhos de Rodin e textos de Rainer Maria Rilke. Aconselho vivamente a sua leitura. Primeiro, porque se trata de um hino à criatividade e à liberdade de expressão. Igualmente, pela relação fantástica mestre / pupilo que hoje é escarnecida e envergonhada, embaraçada nas clientelas académicas, artísticas ou políticas dos nossos dias pequeninos e comezinhos. Rodin de 64 anos, no auge da sua criatividade, trabalhou com o jovem poeta durante cerca de um ano. Os seus desenhos eróticos são um elogio à beleza do corpo humano e à sensibilidade e sensualidade. Em simultâneo expressam uma inocência tão grande que Rilke produz, por eles inspirado, textos fabulosos sobre a pureza do amor, sobre a magnificência de um acto institucionalizado, preocupante, que deve ser libertado para a sua critiavidade, para a sua dignidade de acto único no encontro do ser humano enquanto criador e objecto de dedicação e inspiração.
***
O Centro Cultural de Belém é ainda dos poucos redutos de Lisboa com uma função hipnótica de descanso, quando se procura a abstracção, quem sabe a concentração, a inspiração, o repouso, no meio de um dia atribulado. Estava frio no Jardim das Oliveiras. Procurei o frio e a solidão, possuída pelo livro belo que me encontrara e descansei no meio dos pardais que brincavam com os meus pensamentos soltos, puxando-os para histórias de infância.
***
Dias há, no nosso urgente meio urbano, na nossa apressada corrida para nenhures, em que são verdadeiras reanimações físicas e emocionais, estas procuras de locais escondidos, de ventres da cidade. Todos os temos. Ninguém colide com ninguém, nestas dimensões paralelas, Avalons escondidos no meio de sons de comboios que passam, de aviões que despenham o nosso desprezo por quem corre mais que o pensamento e a seriedade com que tudo deve ser levado. Conhecem-se pessoas bonitas. Esbarra-se em alguém, outro alguém sorri, crianças gritam, casais abraçam-se no frio apressado do fim da tarde. Todos procuramos algo, todos transparentes.
***
Bonito, o livro, a tarde, o frio. Momentos de Paixão. "De flores e animais e raparigas nasceu uma essência do ser e um extremo de amor e sofrimento e suspensão e bem-aventurança, e basta um aceno de azul.."
***
O Centro Cultural de Belém é ainda dos poucos redutos de Lisboa com uma função hipnótica de descanso, quando se procura a abstracção, quem sabe a concentração, a inspiração, o repouso, no meio de um dia atribulado. Estava frio no Jardim das Oliveiras. Procurei o frio e a solidão, possuída pelo livro belo que me encontrara e descansei no meio dos pardais que brincavam com os meus pensamentos soltos, puxando-os para histórias de infância.
***
Dias há, no nosso urgente meio urbano, na nossa apressada corrida para nenhures, em que são verdadeiras reanimações físicas e emocionais, estas procuras de locais escondidos, de ventres da cidade. Todos os temos. Ninguém colide com ninguém, nestas dimensões paralelas, Avalons escondidos no meio de sons de comboios que passam, de aviões que despenham o nosso desprezo por quem corre mais que o pensamento e a seriedade com que tudo deve ser levado. Conhecem-se pessoas bonitas. Esbarra-se em alguém, outro alguém sorri, crianças gritam, casais abraçam-se no frio apressado do fim da tarde. Todos procuramos algo, todos transparentes.
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Bonito, o livro, a tarde, o frio. Momentos de Paixão. "De flores e animais e raparigas nasceu uma essência do ser e um extremo de amor e sofrimento e suspensão e bem-aventurança, e basta um aceno de azul.."
sábado, 26 de fevereiro de 2005
Uma Faca nos Dentes
"Falámos tanto ou tão pouco que de repente o silêncio que se fez foi essa patada no peito de que guardamos a marca quando agora choramos, quando estendemos as mãos carregadas de dedos mortos, sonhámos tanto que mais de uma vez tivemos de matar, que de uma vez nos estoiraram os olhos sob a pólvora das lágrimas e as tuas mãos voaram estilhaçadas."
António José Forte
Nos pés do mundo
Porque um amigo me mandou hoje um email com o seu novo blog, porque li recentemente um artigo sobre a força desta nova forma de manifesto, poque o mundo precisa de ser sacudido, cada vez mais, cada vez mais oportunamente, incisivamente.
Porque gosto de escrever e de ler, porque comunicar é urgente, para que o mundo não seja algo que queiramos a nossos pés mas nos consciencialize da nossa real dimensão aos pés de um mundo que urge mudar.
Porque me quero encontrar e encontrar pessoas que persigam as boas utopias, as vindas da alma, as que revolucionam a vida e os homens, mesmo com coragem e medo e força e cansaço.
Porque gostava de fazer algo diferente, algo em que acredito, como sonhar em conjunto.
Porque os nossos porquês são muito mais que nossos.
Porque gosto de escrever e de ler, porque comunicar é urgente, para que o mundo não seja algo que queiramos a nossos pés mas nos consciencialize da nossa real dimensão aos pés de um mundo que urge mudar.
Porque me quero encontrar e encontrar pessoas que persigam as boas utopias, as vindas da alma, as que revolucionam a vida e os homens, mesmo com coragem e medo e força e cansaço.
Porque gostava de fazer algo diferente, algo em que acredito, como sonhar em conjunto.
Porque os nossos porquês são muito mais que nossos.
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