domingo, 30 de dezembro de 2007

Imaginar



"Imaginar, primeiro, é ver.
Imaginar é conhecer, portanto agir."

Alexandre O'Neill


Podem ser necessários dois poetas para nos convencer de um futuro. Imagino assim um pranto novo de dias correntes, mudanças de esgar na corda dos relógios suicidas que nos gerem, fugas sem nexo absolutamente nenhum e desesperanças de nos adiarmos. Ver para além de nós e imaginar na realidade a teia que as nossas mãos trabalham contrariadas. Li hoje que um em cada cinco portugueses vive no limiar da pobreza. Num postal. Na fotografia, alguém que designaremos por pobre encostado a uma parede a descansar do cansaço de aturar raciocínios alheios. Calendas da felicidade editadas minuciosamente e distribuídas com o mais alietório dos estados de espírito.

Agir em conformidade, claro, as datas são relevantes e há as resoluções de ano novo, aquele que chega, aquele que apaga, aquele que permite redimir consciências e revolver vidas como se uns dias contados chegassem para reencarnarmos as vontades que nos faltam em coragem.


Imaginar? Soa-me a canção de idealista mártir. Um em cada cinco. No limiar de quê? Recomeçar? Contemos de novo. Pode ser que dia 1 seja de continuidade, por uma vez que vença a persistência. Leio surrealistas, já não vale a pena ler mais nada. Imaginemos um ano que comece neste minuto. Pode ser que se não parta tanto a vida em contagens inúteis e se comece a construir. O infinito que queremos amar discretamente.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Pessoas

Árvore de Natal feita com chapéus dos heterónimos de Fernando Pessoa.
O postal de Natal mais criativo que me chegou à caixa de correio...

Estrelas: Filipe Abranches e a Casa-Museu Fernando Pessoa.

Boas Festas para todos. Com muita paz.

domingo, 23 de dezembro de 2007

Christmas blues

Bolacha de natal em quadro de Munch O Grito
Como os tempos que culturalmente se promoveram a tempos de espera, por muito azul que surja o céu, não se dorme, aguarda-se. Os gritos ecoam dentro de nós, porque nos forçaremos a fazer pontos de situação em dias determinados e não nos dias em que os devíamos fazer? Porque gritaremos sem querer e sem jeito e não suportaremos os gritos alheios - quem sabe bem mais fortes? Porque nos sentiremos bonecos numa dimensão de terror, obrigados a sorrir, obrigados a ser bons, obrigados a corresponder, miúdos de novo, os presentes com fitas sob uma árvore qualquer que almejamos e nós imóveis para não estragar nada nem mesmo nos despentearmos para a foto de família. Dias em que não queremos ser nós a estragar nada. Por isso gritamos tão baixinho e tão salgado que só somos ouvidos por quem também gostaria de ser e de dar, naturalmente, e diariamente, a felicidade que nos prometem por dois dias.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Filmes - desafio

Por inspiração e convite do Miguel, devo manifestar a minha preferência em relação a cinco filmes. Tarefa difícil, sendo o cinema a terceira arte para mim (as duas primeiras são a da escrita e a da composição). Nos últimos tempos tenho precisado muito, mas mesmo muito, dos meus amigos em volta, e aprendido a lidar com sentimentos que me eram estranhos ou simplesmente, teóricos... Pensei, ao receber esta proposta, em filmes que me têm ajudado a manter a alma aberta e o olhar no horizonte. Alguns revi muito recentemente. Desculpem, pois, o cunho pessoal e a variação sobre estes mesmos temas.

As escolhas da Citizen são:

- Um filme sobre desafios e conquistas: Chariots of Fire



- Um filme sobre amizade e poesia: Il Postino



- Um filme sobre a época presente: Nightmare Before Christmas



- Um filme sobre o que não controlamos: Amores Perros



- Um filme sobre amor e honra: Cyrano de Bergerac


segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Rudolfos

imagem de Rudolfo, a rena de nariz vermelho
O nariz vermelho pode ser do frio. Para indicar caminhos não me parece, que não andamos muito orientados. O imaginário é doce e levemente preverso como tudo o que não é genuíno. Sumariamente, carregamos com o trenó, levamos os privilégios de outrém, alombamos com a publicidade à Coca Cola ainda sem versão light e ficamos mais um ano sem emprego. Não dá muita vontade de rir.

Quando eu tinha a idade do meu filho, havia menos Rudolfos. Havia menos destaques. Os Natais eram reuniões de família, com todo o respeito pelas ideologias religiosas ou não de cada um. Os presentes não eram fundamentais, os presépios e as árvores de Natal eram pretextos para muitas pessoas que se amavam construirem algo em conjunto. E bebia-se chocolate quente, com mais amor que açúcar. Partilhava-se.

Olho em volta e vejo Rudolfos a mais, o que me irrita. Criaturas que se querem destacar, narizes levantados, voluntariados de tempo exacto e coincidente com a câmara ligada. O beijo na criança. A desconstrução do valor de dar e de construir memórias.

Ser solidário é estrutural. Não tem época. Fazer voluntariado não é ser modelo para as câmaras. Apaguem os narizes. Comecem por casa. Façam chocolate quente e bolachas em conjunto. Convidem um amigo que esteja só.

Pode-se amar todo o ano. E respeitar tradições inofensivas e memórias doces sem entrar em agressividades comerciais. Serenamente. Sem narizes vermelhos. Sem heroísmos. Ficando ou não na história, mas bem no coração de todos os que queremos abraçar e não cabem num trenó.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Bem ou mal tratados?

Imagem do tratado de Tordesilhas.

Tem variado... Século XXI, Tratado de Lisboa? Hum. Não sou muito mulher de referendos, pelo contrário, acho que quando se vota se deve transmitir confiança e assumir as asneiras ou feitos de quem se escolhe. Mas esta do Tratado... Todos sabemos que o almoço é oferecido por Cavaco Silva no Museu dos Coches. Lindo. Mas para celebrar a assinatura de quê? É público, claro e consensual o seu conteúdo? Corresponde aos votos confiados nos governantes por cada um de nós?

Não falo muito de política por estas bandas, mas quando me chegam aos ouvidos conversas que comparam a União Europeia com os Estados Unidos nomeadamente na minha área de trabalho e os europeus suspiram de alívio por não terem que cumprir normas de acessibilidade para cidadãos portadores de deficiência como padrão de qualidade no trabalho e gestão de qualquer empresa...

Julgo que temos o direito de reflectir sobre o que irá mudar. E propiciar as mudanças em falta. É que este terreno, piso-o há muito tempo. E anda esquecido demais, consciências natalícias apaziguadas com publicações, entrevistas e publicidade discutível. Na prática, somos todos diferentes. Como seremos tratados a partir de agora?

sábado, 8 de dezembro de 2007

Hei!


Obrigado, João...

Rolling down

Agnosia: desconhecimento, dor, perda, recusa, lágrima.

sábado, 1 de dezembro de 2007

Uma coisa em forma de assim

Quando o corpo não obedece e nos entregamos para precocemente nos dissecarem à procura de um mal que pode até ser de alma, quando nos cortam e retalham e ferem e perdemos a identidade de um espaço próprio chamado corpo (nosso?) que usamos para andar por aqui quando a febre não persiste e recordamos os 200 anos das invasões francesas com bandos armados de médicos a retirarem recordações da nossa passagem de três semanas por um hospital.

Quando depois de tudo fica um diagnóstico ainda incerto e o medo persistente, a noção de fragilidade, os sentimentos de vidro - todos somos heróis quando não há outro caminho, certo? - quando pensamos no que sentimos e no que ouvimos, na nossa impotência, na nossa vontade de voltar a um qualquer útero seguro em que ninguém nos toque e nos sintamos amados e não sózinhos, nunca mais sózinhos.

Quando as cicatrizes do corpo começam a fechar - o susto foi grande, ainda tenho espada suspensa - ficam as da alma, muito mais dolorosas

mielograma
hemogramas diários
TAC
pesquisas de suco gástrico
endoscopia transensofágica
biopsia óssea
biopsia linfática cervical

gritos de noite
falta de abraços
medo
solidão
pessoas a morrer ao lado
baratas (o toque de Kafka)
ler muito para sair de mim
ouvir música até à alienação ou até ao exame seguinte

Já estou em casa, aguardo diagnóstico. Fêmea caucasiana de 41 anos (e 44 quilos) aguarda diagnóstico. Podia ser um anúncio inconsequente.

Hoje apeteceu-me escrever.

Diagnóstico - so far - é o de Alexandre O'Neill

Uma coisa em forma de assim

afinal

também pelas suas palavras

Cada pássaro é da cor do seu grito.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Ou consequência?

Fala-se demais no conceito de verdade. Luta-se pela excelência como se em tudo tivéssemos que ser excelentes. Como se todos os livros das bancas tivessem que ter o mesmo carimbo de qualidade, não havendo espaço para a liberdade de escrever mal. Quando fiz o post das fadas reparei que a opinião dos que têm a paciência de me comentar se dividia: a relação com alguns trabalhos de Paula Rego é de amor/ódio. Não de indiferença. Porque apesar de tudo há uma cotação internacional que pesa no cuidado com que a criticamos.

A verdade é que nunca sabemos dizer a verdade, verdadinha, aquela que pensamos no momento, aquela que fere mas é totalmente aproveitável para nosso conhecimento pelos outros. A verdade é que somos condicionados pela necessidade de ter cuidado com os sentimentos alheios (o que serão os sentimentos alheios se nem os nossos conseguimos avaliar?). A verdade, bem verdadeira, é que, como Papagueno ou S. Pedro, mentimos para defender os nossos redutos íntimos de pensamento ou a nossa consciência social. Uma, duas, três vezes, fechados a cadeado ou com a consciência a doer, quando aprenderemos a ouvir os outros?

A verdade é a terrível consequência de não sabermos dizer verdades simples e armarmos em psicólogos, médicos, orientadores matrimoniais, padres, videntes, toda a casta de sabedorias alternativas que por desgaste vão convencendo o pessoal da felicidade que os espera.

Com ela nos cegam e nos impedem de lutar como devemos. Com a verdade. A que sangra, a que dói, a do peito. A que traz consequências. A que vale a pena.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Coisas do mundo do concreto



A CRIANÇA que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as cousas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em algum ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.



(Fadas sentidas por Paula Rêgo e Alberto Caeiro)

domingo, 21 de outubro de 2007

Sombra do vento

"No podía oír su voz o sentir su tacto, pero su luz y su calor ardían en cada rincón de aquella casa y yo, co la fe de los que todavía puedem contar sus años com los dedos de las manos, creía que si cerrava los ojos y le hablaba, ella podría oírme desde onde estuviesse."

Carlos Ruiz Zafon

Closing the Gap


Porque é importante divulgar bons trabalhos e saber onde encontrar recursos, mantermo-nos informados e construir, mais que criticar.

Esta iniciativa terminou ontem e estão já disponíveis online os seus resultados, quer a nível de reunião de investigadores, quer quanto a produção de materiais. Fácil de encontrar e bem indexado o site, vale a pena passar por lá e ter uma ideia do que se faz neste momento em tecnologias de assistência a necessidades especiais e ler algumas comunicações que nos podem sempre vir a lembrar a importância de aproximar distâncias.

Infelizmente nenhuma revista portuguesa que me tenha passado pelas mãos referiu esta iniciativa. Infelizmente continuam a ser publicados artigos sobre tecnologias adaptativas tristemente desactualizados e sem quaisquer referências.

Qualquer dia não compro semanários...

domingo, 14 de outubro de 2007

Geração em sobrecarga

Muito se diz sobre o que se não conhece. Em fase de São Adolescente, sinto-me honrada por ter ao meu lado alguém que começa a ter consciência do mundo, opiniões próprias, autonomia. Talvez seja um caso particular o meu, considerando que sei por experiência directa que não é por estarmos ao lado dos filhos que nada lhes acontece. Daí que lhes confesse, em início de post, que detesto quando me chamam mãe galinha ou quando de forma geral analisam a minha postura em relação ao meu filho. Evito fazer essa análise em relação aos outros. Pode magoar e nem temos a noção da floresta em que nos estamos a meter.

Genericamente, a sociedade, esse bicho que somos nós, exige comportamentos padrão, como quando se trata de lidar com os outros tivéssemos um Hitlerzinho albergado na alma, que pergunta pela nossa boca: "porque não fizeste as minhas escolhas?". Raiando o patético... porque ainda não namoras, porque não te casas, porque te vais casar, porque não tens filhos, porque não adoptas, porque educas desta forma e não de outra, porque, porque, porque, desde as opções mais privadas às que transparecem a público, tudo é dissecado como se devessemos ler de manhã à noite livros de auto-ajuda e passar a vida num psicólogo, cidadãos certamente ininputáveis quando não assumimos as opções maioritariamente consideradas correctas.

Mas disto todos temos consciência, afasto-me da minha ideia inicial que era, de facto, contar uma história. É que por vezes agimos por instinto. E se for o amor a orientar esse instinto, pode ser que resulte, mesmo que não venha nos manuais ou nos conselhos assertivos dos amigos.

Mais que proibir, trata-se de orientar, ou seja, dar opções, dar alternativas, mostrar mais coisas, não que saibamos viver melhor aos 40 que aos 14, mas já percorremos mais caminho. Vi portanto com o meu filho dois filmes considerados pesados para a idade dele, violentos, baseados em histórias reais, na nossa história do século XX. Em casa, que gosto de debater o que vejo. E debati. E chegámos a uma conclusão. Que os jogos que os adolescentes jogam online, em que cortam pacificamente a cabeça aos colegas com que vão ter aulas e almoçar no dia seguinte, são identificados a tempo como ficção, as armas caem por terra quando visionada uma história em que se percebe o que elas nos podem afectar directamente como já afectaram - e continuam - o mundo dos homens. O horror que não passa num olhar para uma notícia de telejornal talvez passe em duas horas de filme sobre pessoas que se não tiveram aqueles nomes tiveram outros e tinham pai, mão, amigos, vida e não acharam nada divertido estar a jogar em real num palco de guerra. Também é bom perceber que muitos nem sabiam porque lá estavam e que dos dois lados havia estruturas humanas boas e más (acredito que existe um bem e um mal, embora a fronteira seja em graus de cinzento).

Não é difícil falar com um adolescente. Não estão em fase de ver contos de fadas como ontem tive o prazer de ver com um amigo. Estão em fase de desafio e de conquistar o mundo. Os contos de fadas são eles, se os deixarmos. Abrir a passagem no muro para que vejam tudo e possam criar as suas próprias estruturas com o máximo de informação. Sem censura. Mas com potencial para que criem os seus próprios padrões éticos. Sempre, em liberdade e diálogo.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Zangam-se as comadres




Hoje não resisto... Por demais, as discussões sobre as alterações aos impostos sobre rendimentos dos cidadãos portadores de deficiência. A meu ver, o nonsense completo. O que deviam ser movimentos de discussão associativa são batalhas pela auto-promoção individual ou mesmo publicidade pessoal ou institucional, o que é grave. Nos blogs, movimentos de apoio. Nas listas, outras batalhas, de retórica, que implicam moderação, o que é muito triste. No fim, ninguém levará a sério movimentos desconexos por muita razão que tenham. E entristece-me pensar que os movimentos associativos no nosso país estão corrompidos, que as iniciativas da sociedade civil nenhum peso exercem. Vivemos na ditadura dos interesses do mais forte. Tipo cadeia alimentar. Em paralelo, quem quer fazer algo, faz à margem da estrada principal e pela ternura. Não conta com os outros nem com o estado. Não acredita já em deveres nem em direitos, entra na via da acção directa. Não é criticável. Criticáveis são as zangas de comadres de quem é inconsciente. Momentos de união precisam-se. Evitem-se as reuniões e debates e promova-se o trabalho de grupo eficiente (sem d) para que os direitos que já são tão poucos consigam ser, se não alargados, pelo menos mantidos. É que quando lutamos, há outros que não podem sequer exprimir a sua opinião e estão dependentes do nosso empenho e sentido de humanidade.

Desgostos:

1. Inconsciência de quem devia estar informado;
2. Existência de um estado de ditadura, de actuação impune e consensual;
3. Incapacidade absoluta de união e organização dos portugueses em movimentos coerentes de intervenção quanto aos seus direitos.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Canto de uma manhã em esperança


Bela
esta manhã sem carência de mito,
E mel sorvido sem blasfémia.

Bela
esta manhã ou outra possível,
esta vida ou outra invenção,
sem, na sombra, fantasmas.

Umidade de areia adere ao pé.
Engulo o mar, que me engole.
Valvas, curvos pensamentos, matizes da luz
azul
completa
sobre formas constituídas.

Bela
a passagem do corpo, sua fusão
no corpo geral do mundo.
Vontade de cantar. Mas tão absoluta
que me calo, repleto.

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 7 de outubro de 2007

Goalball

Informações sobre o jogo por aqui. Confesso que nunca tinha acompanhado uma partida, embora me tenham passado já pelas mãos muitas destas bolas pesadas e sonoras e conheça alguns praticantes desta modalidade. Que tal voltar a investir, nas nossas escolas, na formação de equipas, em vez de continuar a haver recusas de alunos cegos nas aulas de educação física?

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Lembrar




A Revolução republicana, manifestação popular, Palácio da Independência, Joshua Benoliel, 1910, Arquivo Fotográfico Municipal,
AFML - A25802








Sempre gostei mais de pessoas que de datas. Por isso hoje, que é feriado e penso, só, junto à minha janela, sinto pessoas e as datas me esquecem. A paisagem muda com o tempo sempre que olho e a pequena quinta junto à minha casa muda as cores das culturas e o caiado da casa e do portão de lata. Os moínhos de água giram mais com as datas de vento e as pessoas passam vestidas de outra forma. Em 1910 como seria esta zona? A História é das pessoas, as datas são uma espécie de roupa, o que permanece, a paisagem dos passos que mudam, na verdade, o que os cerca e abrem ou fecham trilhos para si mesmos ou para todos. Conforme. Com forma de História este dia que seria igual aos outros se não tivessem nele pessoas mudado rumos como a formiguinha do carreiro. Mais que 5 de Outubro me lembro de uma pessoa pequenina que fazia grandes memórias e é nele que penso hoje desde manhã. Não são os chamados grandes que fazem a História e a História nada mais é que o presente e as memórias que uns homens construíram sobre as acções dos outros. Será? Hoje penso que sim. Por isso penso em Joshua Benoliel.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Vermelho como o céu


Acabada de chegar a informação, de listas de partilha de informação sobre acessibilidade, amabilidade do Diogo, a quem agradeço. Este filme desperta a minha curiosidade enquanto trabalhadora, cidadã e aluna destas matérias dos sentidos e da sua história que é, necessariamente, a da relação dos homens e das suas diferenças e circunstâncias. Também das suas lutas e dos seus direitos. A não perder.

As cores são como o vermelho do céu ao entardecer...

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Quem quiser que sinta

Frio e sinais vermelhos - pára arranca pára arranca - vejo um sol de bibe aos quadrados pela mão de um pai a passar entre obras para as bandas do Lumiar, o final dos retratos do trabalho em Portugal versão eixo Norte-Sul, chegaremos mais depressa onde, ele chegou ao colo a um balde de lixo tão sujo que ficou mais verde e quase a sorrir quando o papel de prata do menino que come chocolates com metafísica lá entrou como uma melodia num ouvido carente de harmonias. A mão ousada regressou ao suporte da mão grande-pequena do pai e nem sei quem levava quem mas ficou um sorriso no passeio e o sinal abriu quando se afastavam com o bibe de quadrados azuis e brancos, céu e nuvens, uma mochila que andava sózinha, um desprendimento de acabar de nascer, uma largueza de horizontes de topo de montanha debaixo das pedras, dentro do trânsito, num passeio alterado, com sinais de cuidado e o descuido leve da liberdade de caminho feito com amor como num passeio entre flores e os sorrisos que se semeiam assim nas primeiras manhãs frias. Quem quiser que sinta o frio que cabe em cada manhã e o sol que pode vir com ele quando damos espaço ao importante.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Correr com sentido!


Correm as crianças, correm os crescidos, correm os dias, gastamos a palavra correr e corremos sempre de menos afinal. Correr com sentido existe e foi de uma criança, de um amigo do coração, que me chegou esta mensagem. Quem quiser correr e saber porquê large as rotinas, os comodismos, as apatias e participe, sabendo bem porquê, na Corrida Sempre Mulher.

O cancro é uma doença que ainda ceifa muitas vidas, sem escolher idade, sem escolher momento ou situação. Com possibilidades de ser prevenido nalguns casos, existindo mesmo já vacina para um cancro de origem viral (colo do útero), continua infelizmente a ser um inimigo a combater, um desafio de informação e prevenção, muito e sobretudo de investigação para a medicina.

Perdi o meu avô e avó paternos com cancro. Perdi a minha melhor amiga com cancro. Perdi a mãe de um grande amigo com cancro. Perdi a filha de uma colega e amiga com cancro. E recentemente, o irmão da minha mãe. Tenho o pai de um grande amigo em fase terminal. Parece um percurso que nos acompanha, escuro e doloroso. Façamos dele um caminho de coragem, de homenagem a quem com um sorriso se prestou a estudos e tratamentos para ajudar situações similares, a quem combate pela informação e pelo estudo esta doença que tem a morte agarrada. Façamos um caminho a correr, por uma vez, com um sentido e com um sorriso de esperança.

Porque é na esperança que se constrói vida.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Anima

O que faz falta, cantava o Zeca. Falava e cantava de objectivos de alma, do que nos move, do que é vital para nos impulsionar do sono pesado do cansaço, do stress e dos - afinal tão pequenos ou sempre tão relativos - problemazinhos dos nossos dias. Também dos grandes.

Penso em palavras que me foram escritas, ditas e abraçadas nos últimos tempos. Sinto que não venho aqui há anos e me perdi nalguma nebulosa onde deixei pessoas queridas, onde estive em risco de perder outras, como num pesadelo de crianças em que os medos são edipianos e tudo assusta como uma trovoada de noite com chuva e barulho e visão turva, quem sabe se as trovoadas partem dos corações e há direito a uma por desgosto.

Perdi alguém, sim, próximo, vivi vidas entre um post e outro, perdi o controle e o ânimo em trabalho e deveres outros acumulados e nem um bocadinho para escrever, nem um bocadinho para respirar e comunicar, como um sufoco de sentimentos que me atasse gritos interiores, vontade de vir, falta de alma para dizer o quê, post em branco este, post em branco, quem souber ler que leia, a falta que me fazem estas letras como pássaros que libertam sorrisos e fazem aparecer, daqui a pouco, o sol que aquece.

O que faz falta é o ânimo de se pensar que é tudo mentira e daqui a pouco todos os que desaparecem das nossas vidas regressam e trazem nas suas mãos os outros que foram antes e os caminhos de nós são feitos em conjunto e nunca mais em separado, temos tão pouco tempo e vamos perdendo pessoas como migalhas, não quero ser a Maria da história, não quero pássaros a comerem o rasto da minha vida, não quero perder mais ninguém, quero todos pequeninos e a sorrir, quero tempo de gargalhadas, quero as crianças todas a nascer de novo e os adultos todos mais crescidos que eu.

No meio termo está a segurança de se olhar para dentro e poder não ter medo desta instabilidade. Porém, o meio termo não existe, como a linha ténue a que chamamos presente. Onde está a nossa alma?

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Flowers


Flowers for Algernon


"Tudo é fácil quando se está brincando com a flor entre os dedos
quando se olham nos olhos as crianças,
quando se visita no leito o amor convalescente.
É bom ser flor, criança, ou ser doente.
Tudo são terras donde brotam esperanças,
pétalas, tranças,
a porta do hospital aberta à nossa frente.

Desde que nasci que todos me enganam,
em casa, na rua, na escola, no emprego, na igreja, no quartel
com fogos de artifício e fatias de pão besuntadas com mel
E o mais grave é que não me enganam com erros nem com falsidades
mas com profundas, autênticas verdades.

E é tudo tão simples quando se rola a flor entre entre os dedos
Os estadistas não sabem,

mas nós, os das flores,

para quem os caminhos do sonho não guardam segredos,
sabemos isso e todas as coisas mais que nos livros não cabem
"


António Gedeão

sábado, 1 de setembro de 2007

Casa preta, casa branca

"Canto uma canção sobre uma batalha preparada,

Antiga e imaginada em dias passados,

Arranjada por homens de prudência e inteligência,

Disposta em oito fileiras."


Abraham Ibn Ezrah (1092-1167)




quarta-feira, 29 de agosto de 2007

domingo, 26 de agosto de 2007

Livres?

Outros antes de nós tentaram o mesmo esforço: dente por dente: não, nunca olhar de soslaio e manter a cabeça escarlate, o vómito nos pulsos por cada noite roubada; nem um minuto para a glória da pele. Despertar de lado: olho por olho: conservar a família em respeito, a esperança à distância de todas as fomes, o corno de cada dia nos intestinos. Aos dezoito anos, aos vinte e oito, a vida posta à prova da raiva e do amor, os olhos postos à prova do nojo. Entrar de costas no festival das letras, abrir passagem a golpes de fígado para a saída do escarro. Se não temos saúde bastante sejamos pelo menos doentes exemplares. Fora do meu reino toda a pobreza, toda a ascese que gane aos artelhos dos que rangem os dentes; no meu reino apenas palavras provisórias, ódio breve e escarlate. Nem um gesto de paciência: o sonho ao nível de todos os perigos. Pelo meu relógio são horas de matar, de chamar o amor para a mesa dos sanguinários. Dente por dente: a boca no coração do sangue: escolher a tempo a nossa morte e amá-la.
António José Forte, Uma Faca nos Dentes



A World Wide Web é, neste momento, o maior repositório de conhecimento humano, quer se goste quer não. Como numa gigantesca e anárquica biblioteca é necessário filtrar informação. A liberdade passa por escolhas, quer do lado do produtor quer do lado do consumidor. Mas aqui entra uma nova personagem, que pensei que já estivesse ultrapassada. Há vários tipos de censura. A auto-censura ou comedimento que podemos ter na escrita, em conteúdos e formas. A censura ética, ou seja, preocupações com meios de difusão de informação - como sejam a usabilidade e acessibilidade - ou tipo de conteúdos que possam ser mais ou menos relevantes, mais ou menos correctos. Também, a censura social: um blog feito para difundir as vantagens do consumo de drogas, os benefícios da guerra ou do consumismo, será lógico? E a pergunta seguinte: será legal? Como se coaduna a liberdade de expressão e de pensamento com os conceitos consagrados na constituição do nosso país? Não são questões pacíficas.

Escrever é fixar ideologia. Publicar em formato papel ou electrónico é divulgar. Mas publicar em formato virtual é entrar numa nebulosa de legislação omissa. O que se presta a abusos de poder por parte dos autores mas também das entidades que só podem actuar em propotência, considerando a enorme ignorância que o nosso estado ainda manifesta perante este novo poder. Por isso há processos a correr neste momento sobre blogs e publicações on-line. Por isso há questões eternas por parte de quem não tem alma para criticar considerando que não cumpre a pouca legislação que se atreve a emitir, desconhecendo a que devia produzir rapidamente (por exemplo, a salvaguarda de arquivos on-line institucionais, que deveriam entrar em depósito legal, como já faz o estado francês, para consulta das memórias nacionais).

Não gosto de censura. Obviamente que são necessárias regras para as comunidades humanas se organizarem, desde sempre. Obviamente que a liberdade não passa por agedir quem passe na rua só porque acordámos mal-dispostos. Mas passa talvez por poder ditar uma opinião sobre um assunto. E mesmo em circunstâncias em que se não concorde com a opinião emanada, julgo que ela deve poder ser publicada, terá apenas o público que com ela se encontrar. O restante, fará a sua avaliação e pelo menos saberá que há quem pense de determinada forma. Chama-se bom senso...

Num pais em que durante tanto tempo se esconderam livros proibidos, em que durante tanto tempo circularam ocultas opiniões diversas da oficial, em que o próprio contacto humano, o direito de reunião, a troca de impressões, era vedado, como permitiremos que voltem a ser activadas grilhetas anti-constitucionais ao pensamento e às novas formas da sua difusão?

Em nada que contrarie os direitos humanos e a constituição e legislação do país pelo qual SOMOS responsáveis, em nada que seja pouco digno para o Homem e o Planeta que habita, se deve exercer censura. Censura é um crime e dos grandes contra a Humanidade. Se a blogosfera serve para algo, que sirva para passar a palavra Liberdade.

Bem-vindos ao meio que assusta, de novo, o poder que não consegue ser exercido. Ou haverá outro motivo para proibir?

terça-feira, 21 de agosto de 2007

A gosto


A gosto se gerem dias quentes de vento e areia que prende nos cabelos. Não é Julho nem Setembro, é o irmão do meio que se chega a nós, depois de uma súbita hipótese de repouso e um tardio retomar de actividade. Todos os direitos e todos os cansaços, nenhuma legitimidade para queixas, todas as corridas sem trânsito parado, onde está o tempo que tanto engana neste estranho mês em que tudo está em espelho nas ondas rasas da madrugada?


Desconhecemos os cafés que fecham e as cadeiras que se encostam à grande cidade que repousa em silêncio de buzinas mudas e folhas de cadernos misturadas com pó de saudade e histórias que não foram, Agosto não é estação, é mês e dos grandes, onde tudo cabe, o que já foi e o que será - como Artur embarcando para Avalon ou Corto na sua Veneza redescoberta - quem parte consegue esquecer onde se situa, quem fica não está em lado nenhum. Nenhum.


Tempo para não mais retomar a necessidade de correr para nenhures, fazendo tudo o que é, em absoluto, dispensável. Devemos a nós mesmo a franca desonestidade de, em Agosto, nos retomarmos. Sem parar nada. Sem medo de planos. Sem medo de regras. Sem medo de nós.


Cidades perdidas com meninos inclinados, insustentável abandono do nada que nos é insuportável e cair nos braços da urbe e do seu estremecer de cria no parto para saber que queremos que nos façam voltar.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Saiba




Saiba: todo mundo foi neném

Einstein, Freud e Platão também

Hitler, Bush e Sadam Hussein

Quem tem grana e quem não tem
Saiba: todo mundo teve infância
Maomé já foi criança
Arquimedes, Buda, Galileu
e também você e eu

Saiba: todo mundo teve medo
Mesmo que seja segredo
Nietzsche e Simone de Beauvoir
Fernandinho Beira-Mar

Saiba: todo mundo vai morrer
Presidente, general ou rei
Anglo-saxão ou muçulmano
Todo e qualquer ser humano

Saiba: todo mundo teve pai
Quem já foi e quem ainda vai
Lao Tsé Moisés Ramsés Pelé
Ghandi, Mike Tyson, Salomé

Saiba: todo mundo teve mãe
Índios, africanos e alemães
Nero, Che Guevara, Pinochet
e também eu e você

Arnaldo Antunes

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Stringfever

Às vezes desesperamos de encontrar algo diferente do comum nos nossos dias. Gosto de diferenças: fazem os indivíduos. Gosto de criatividade: gera cultura. Brincar é bom. Brincar com qualidade ou permitir que se brinque a partir de trabalho de excelência é raro. Conheçam estes senhores:

Esperar

"Esperar era compreender mais tarde os significados do dia anterior."

Morte e Nascimento de Uma Flor


Impaciente e irrequieta como uma criança em descoberta de tudo, corro demais e tropeço em mim. Sementes de pessoas, nunca estamos completos sós, corremos em busca do que não sabemos que nos falta, gritamos palavras belas - como liberdade, amor, rio, papoila, estrela, búzio, sorriso - desenhamos os gritos pensados na areia do desespero antes que a onda venha e inevitavelmente desmorone em lágrimas e espuma o pouco que contribuímos para a construção que queremos grandiosa de uma felicidade que nos faça ser.

Os caminhos são longos e calmos, têm flores nas orlas, cheiram a verão e a esperança, correr para quê, parar e olhar as estrelas que caem esta noite nas almas de quem sonha e amanhã - quem sabe - colher uma onda no peito e ser feliz. Esperar por quem nos pare e ensine que a vida é mãe e sábia, por isso tem dias e estações, regenera e oferece o calor depois do frio. Tudo renasce quando é verdadeiro. Na altura certa. Vale a pena esperar.

domingo, 12 de agosto de 2007

- Há muito tempo

Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.

Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
- Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor

Miguel Torga (1907-1995)

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Our left feet

Comunicar passa por sentir o outro, por esperar, por aguardar reacções e entendê-las. Tive formação teórica e tenho-a na prática pessoal e profissional. Nem sempre é fácil que nos entendamos, na diversidade da raça humana. Parece-me que o segredo estará na tolerância, no amor, em acreditar no outro, em nunca menosprezar nenhum esforço. E sempre que vejo este pedaço do fabuloso filme My Left Foot, as lágrimas contidas - não choro muito e só por motivos seleccionados - saltam como naturais, como natural é a diversidade e grandes são as conquistas de um conjunto que todos somos.

Ode a um caminho

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Ricardo Reis


quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Aquecimento global?


Febre no verão? Não são só as estações que andam trocadas, a febre, perdoem-me, era no Inverno, para ter direito a mimos de mãe e chocolate quente. No verão apanhavam-se búzios, não gripes. Há qualquer coisa de errado no Reino da Dinamarca, melhor tomar os ditos medicamentos e beber muita água. Divirtam-se por mim!


N.B. - este post poderá ser portador de vírus...

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

SOS lezíria





É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Alberto Caeiro


Gostei da vista da noite para o dia. As cegonhas estão calmas, o arroz continua por lá, o telefone está perto, é preciso confiar. Os GPS ainda dizem que estamos fora de rota e a conduzir sobre as águas mas a orientação é a certa como em todos os caminhos que escolhemos. Afinal, são os nossos rios e nesta ponte apetece ter um furo - mal menor e suportável - para ver o verde enquanto se pede ajuda, ou não fossem as pontes elas mesmas as construções que nos levam de uma margem a outra de um mesmo rio sereno que nos conduz.

domingo, 5 de agosto de 2007

Que tudo quer, sempre alcança...

Podem confiar. Estou sã de espírito (tanto quanto...). Por isso mesmo decidi voltar a ter tempo para ler e reler o meu grande amor: histórias infantis. Hoje encontrei pela net The Little Engine That Could. Não prego nem acredito no sonho americano, acho que traduções literais são perigosas e perseguir a felicidade sempre me soou mal, ela chama pelo nosso nome na altura certa. Ser positivo é o lema desta história. Não, não é um livro de auto-ajuda mas fala de auto-confiança. Gosto de subverter sentidos, horários, regras. Gosto de virar o meu mundo e de compôr o meu canteiro pessoal. Como o comboiozinho da história, há dias em que descemos o monte e outros em que o conseguimos subir. Alguns são mais cansativos ou tomam conta de nós e só avançamos um bocadinho. Noutros, pequenas conquistas, passos pequeninos para não tropeçar, que nas bordas do caminho há sempre um malmequer que fala de quem nos apetece e casas caiadas de optimismo para repousar a alma. Quem tudo quer sempre alcança, não vale a pena pedir pouco da vida. Creio em impossíveis, sobretudo creio em mim e em duas características que adormecerão comigo: a vontade e a liberdade de ser eu mesma. Pode alguém ser livre? Pode. Podem confiar.

sábado, 4 de agosto de 2007

Fuga

Vontade de mergulhar, mare adentro, que a paz retira os ruídos.
Vontade de deixar o mundo e ser estrela colada às rochas tão simplesmente como alguém esquecido.
Vontade de ser búzio numa mão, não areia arrastada.
Vontade de fugir em busca de outra praia mais longe e mais longe, talvez a última onde se repouse.
Vontade de procurar malmequeres e estrelas da tarde.
Vontade de me deixar pescar por quem saiba reconstruir redes que se suportem sem magoar.
O que se faz a uma metáfora. Reconhece-se? Hoje sou tudo.
Vontade de ser livre de mim.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Elefante na sala


Está um elefante na sala e todos disfarçam. O mundo tem faces mais podres que uma maçã deixada numa rua de Lisboa a rolar em dia de calor, Agosto recém-chegado. Como estou de férias vi hoje dois noticiários e alguma publicidade pelo meio - interessa-me a publicidade. Não distingui bem os noticiários da publicidade, nos dois casos se vende uma verdade que não corresponde ao meu conceito, o meu alarme tocou, tudo era deslocado. motivações, temas, prioridades. Palavras como morte, guerra, fome, discriminação, violência, prepotência, serão alguma vez passíveis de eufemismo? Voltei a este universo onde se escreve o que se pensa e o que se sente, tenho sono e apetece-me lembrar que as forças se procuram quando menos esperança se tem e que nunca se deve desistir. Aproveitar a pausa e retemperar forças e argumentos. Aproveitar sabedoria e incentivo. Não se esqueçam de me acordar quando a paz chegar. E a verdade, a honestidade, a tolerância, a humanidade. Porque são sonhos legítimos, ou não deveremos desejar o óbvio?

"Vós que lá do vosso império
prometeis um mundo novo,

calai-vos, que pode o povo

qu'rer um mundo novo a sério."


António Aleixo

terça-feira, 31 de julho de 2007

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Pequenas coisas de acordar


Falar do trigo e não dizer

o joio.

Percorrer em voo raso os campos

sem pousar

os pés no chão.

Abrir um fruto e sentir

no ar o cheiro a alfazema.

Pequenas coisas,

dirás, que nada

significam perante

esta outra, maior: dizer

o indizível. Ou esta:

entrar sem bússola

na floresta e não perder

o rumo. Ou essa outra, maior

que todas e cujo

nome por precaução

omites. Que é preciso,

às vezes,

não acordar o silêncio.


Albano Martins

sábado, 28 de julho de 2007

Voltarei?

"Quando eu morrer voltarei para buscar
os instantes que não vivi junto do mar"

Sophia de Mello Breyner

Mas como, Sophia, se mesmo em vida não cheguei a partir e me falta tudo em volta, a mãe a contar-nos com os olhos - um, dois, três, quatro, cinco - e de manhã os queques quentinhos da Sra. Gama - um, dois, três, quatro, cinco - e na praia as Bolas de Berlim em caixa de folha de lata e sempre - um - a areia a cair - sem querer - dois, três, quatro, cinco - em guerra. Ainda bem o senhor António com olhos muito azuis que se esquece de ralhar comigo e tira picos de ouriços de pés de outros meninos que chegam num ápice vindos do futuro. Não sei como desapareceram os bolos com creme a escorrer nas toalhas, levaram com eles os pregos e os baldes, e sobraram - um, dois, três, quatro, cinco - pessoas crescidas a tomar café e a ler o DN na esplanada. Salvaram-se os pés cheios de areia e as algas despentadas pela maré, lua cheia, maré vaza, regresso agora dos instantes, não quero morrer, procurei-os nas pocinhas salgadas de búzios coloridos, tenho sal no corpo e nos olhos, as gaivotas aterraram e são horas de viver mais. Jantaremos penteadinhos de cabelo a escorrer, não sei porquê tantas crianças parecidas connosco, voltaremos em vida a nós mesmos? Até amanhã, senhor António. Voltarei.

terça-feira, 24 de julho de 2007

Notícias da Biosfera!

Um blogger, por sinal fantástico, por sinal adorado por esta cidadã, e cujo pudor me leva a manter anónimo, acaba de se licenciar em Bioquímica... Nem sempre as notícias são más, nem sempre as lágrimas eternas, nem sempre os percursos intermináveis, quando muito cansativos, pesados, arrastados, esforçados. Nada como sorrir em conjunto e dar os parabéns a quem merece. É muito difícil ser o Pyny da forma que é o Pyny, cujo ADN partilho mas não sei desenhar.

O Pyny é um homem convicto das suas ideias e respeitador das dos outros. Assume os seus caminhos sem vergonha de mudar de oriente quando a coerência está com ele. Trabalha sem medo, é humilde (a mais difícil forma de inteligência) e generoso, leal e afectivo. Tem os segundos olhos mais bonitos da blogosfera portuguesa. E a gargalhada que dá mais esperança no mundo inteiro, dando fé a que as gerações nunca se separem mas se unam nas suas causas e nos seus desejos profundos de construir um mundo sempre melhor para todos.

Feliz, feliz, feliz, por escrever coisas boas e saborosas, vitórias muito bem trabalhadas e conquistadas de quem sabe o que quer na vida e caminha pelos seus passos com persistência e convicção. Aguardam-se iogurtes de novos sabores, certamente mais humanos, com bio-abraços em dívida e bio-conversas para pôr em dia. Parabéns, Pyny!

domingo, 15 de julho de 2007

Salpicos


Podem vir de mergulhos toscos embrulhados em coragem e de pézinhos frios, sacudidos ao colo, embrulhados em toalhas de gargalhadas e braços seguros pela fragilidade e pureza de quem se transporta, chinelinhos de plástico coloridos esquecidos pela relva como pincéis que dormem. Também salpicos de lágrimas, dói-dóis que passam com beijos - as vespas não gostam de brincar e ninguém sabe porquê e matrecos só com bolas que não caibam na baliza para nunca ninguém perder, mesmo quando somos todos do Benfica. Os beijos, claro, lambuzados de chocolate e os legumes precisam sempre de ajuda e batota para saírem todos do prato, em salpicos de boa vontade, para o prato de qualquer tia vegetariana que se preze. Salpicam-se os abraços - bons demais - com tinta de sorrisos e o amor escondido ou envergonhado ou temeroso (são tantas as cores do amor) salta quando menos se espera, enquanto os caracóis sobem as paredes mais depressa que os anos a passar.

Cuidemos das nossas crianças, dos nossos professores de vida, dos nossos sorrisos, dos nossos companheiros de armas mais persistentes, dos nossos idealistas mais puros. A revolução terá que passar por aqui: combater os maus-tratos, denunciar os abusos, ser implacáveis com o desleixo e o abandono, cultivar sempre e muito o amor. Partilhar com eles as nossas dúvidas e escutar com seriedade as respostas. Não são extraterrestres nem habitantes dos solos, são gente e partilham o mundo connosco, são cidadãos de pleno direito, só mais frágeis fisicamente e talvez nas emoções por andarem há menos tempo na estrada. Salpicos de um mar de humanidade cheio de vida e vezes a mais com amor em déficit, merecem tudo, igualdade de oportunidades começa por ali, pelo início. Na direcção que quiserem escolher, sempre, com um sorriso.
-
P.S. - Nas passadas duas semanas tive contacto de perto com situações de maus tratos infantis. Só encontro uma explicação para semelhantes situações: doença psiquiátrica grave dos adultos que os praticam e que devem ser imediatamente internados ou maldade que requer extradição da raça humana... Lembro por isso os seguintes recursos: APAV e SOS Criança.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Madrugada

Triste e leda ...

Em que acordei cedo demais e encontrei a vida ainda a dormir para sempre, o mundo frio, os passos na noite, todos os que se tinham ido embora, inconsciente do sol que procuraria e as palavras não são as minhas.

Não sei o que será acordar, provavelmente ser gente e sorrir e ter um ladinho dormente no coração que nos impeça e defenda de pensar em pessoas que sofrem, em muros que se erguem, em barreiras que nos separam.

Talvez ter uma vida normal e precipitarmo-nos para a mais estúpida das rotinas, embarcar num carreiro sem terra nem água e iguais a todos percorrer o dia para o acabar satisfeitos com o que demos à humanidade quando nem a nós nada demos. Nunca damos o suficiente.

Provavelmente o cansaço ganha-nos, não procuramos nem lutamos nem esperamos como devíamos e um dia algo nos sacode e nos tira a vontade de acordar, melhor não dormir em serviço, que fazemos parte de um grupo e de uma vontade maior que a de um só, dois ou três - o infinito - já um ideal quando a força de caminhar no frio não leva a lado nenhum a não ser talvez a nós mesmos mas caminhamos no entanto.

Sem sorrisos ou com tudo junto no peito e os pés em sangue mas caminhemos.

domingo, 8 de julho de 2007

13

"Understand I'll stay
With you every day.
Make you love me more
In every way.
So if you want me
Just like I want you.
You know what to do.
Just call on me..."


imagem: Jim Borgman
letra: Beatles

sábado, 7 de julho de 2007

Grocando

"Mike permaneceu em transe;
havia muito para grocar,
pedaços soltos para serem reunidos
e incluídos no
seu crescimento:
tudo o que ele havia visto, ouvido e sido."

-

Um Estranho Numa Terra Estranha



Robert A. Heinlein faria hoje 100 anos. Dos mais notáveis escritores de ficção científica de projecção que já li, continua a ser uma das minhas referências, escrita atemporal, imaginação notável, simulações assustadoras pela actualidade permanente e leitura singular da mente humana. Também pela observação atenta das relações entre indivíduos: "Political tags are never basic criteria. The human race divides politically into those who want people to be controlled and those who have no such desire. War has never solved anything". Paz, liberdade política, ideológica, sexual, religiosa... basicamente, um anarquista em luta pela coexistência respeitosa da sua raça e que gostava de escrever. Agrada-me demais.

Não tenho pertinência para comentar o seu génio. Apenas agradeço o trabalho que nos deixou. Quem não conhece ainda, leia. Quem já leu, não precisa certamente de sugestão para reler. É demasiado irresistível.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Depressa

Na estrada de terra amarela sentiam-se ainda os pés compactos dos soldados que não teriam talvez passado, o pó levantava pelo caminho árido e sempre na direcção de uma fuga sem destino, caminhante em pânico pelo que atrás ficava e pelo que se não via, que o pó, sempre o pó, fazia chorar e levantava mais se se abrandava, acelerar porquê, se as rodas, basta o que girava até ficar sem sentidos numa direcção qualquer que nunca é a escolhida mas sempre fora do lugar onde. À frente laranjas como num lago gelado, frias e vivas, formosas, brancas por dentro, saborear tudo até ao fim, em movimento, na fuga ainda, não fosse alguém acordar e porque não sabiam as pessoas que as laranjas eram ali tão dentro de nós e tão madrugadoras, caindo em mãos ávidas de sabor amargo como tudo o que acabou de nascer e quer que acabe o medo de morrer que vem pegado. Para trás o nada, campos verdes depois, sem rumo, caminhos abertos, sem pó, o sol que levantava e pintava o céu e cegava o rumo que de qualquer forma não era para ver, ainda não é, ainda bem o sol e o azul. As águas paradas. Os sons que o vento faz quando dorme nos ramos e na superfície das doces águas, embaladas, inconscientes, para se perderem os pensamentos nelas. As pessoas crescidas dormem até tarde ou fazem bebés. De triciclo não se vai muito longe, talvez só até à inconsciência e ao torpor de uma liberdade que quer ser agarrada de uma só vez pelas mãos de um édipo qualquer que abrace forte e não faça muitas perguntas. No sótão, sempre, dorme a garagem azul, de madeira clareada pelos risos, com o pó a jazer lá dentro, as esperanças envelhecem ou somos nós que crescemos. Talvez haja uma garagem azul nalgum ponto do meu percurso. Cansa andar de triciclo e mesmo quem não tem coragem para parar precisa de um porto de abrigo, talvez para sempre, talvez no fim da estrada de terra batida, olhos fechados no pó. O mundo não vale assim tanto a pena, melhor continuar a pedalar, melhor esperar pelo portão que se abre e redimensiona a vontade de ser preso pelos soldados que assustam e calcam sempre a estrada onde ao longe os cães coxos uivam por carinho.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Heavens!


E não é que tinha mesmo?

  • é bom ser mulher (obrigado Alien)


Hoje, a lua cheia alimenta ideais e convicções, Julho já se respira como mês doce que é, entre a calma do calor e o cheiro a mar que dá vida. Fases mais complicadas e mais sobrecarregadas se têm sobreposto a um exercício de escrita que cultivo e a leituras que procuro enquanto meio privilegiado de informação e afecto. Regressa o stress pós-stress, o gosto de um trabalho terminado, sempre ponto de partida para novos saltos. I'm in heaven! Boa noite, bom dia, que bom é poder sorrir com vontade quando nos sentimos vivos...

quarta-feira, 27 de junho de 2007

O trabalho do furão no interior da capoeira

Gosto muito de ler e ultimamente não tenho encontrado o tempo nem o espírito para passar noites a encontrar as realidades certas nas páginas mais inesperadas (o inesperado pode ser o acúcar ou sal das nossas vidas). Sabem aqueles livros que temos na estante e havemos de ler amanhã? Foi ontem (aconselho vivamente o original porque o calão francês traduzido pode chocar e ser descontextualizado): num estado que chega a um sistema de saúde demasiado aperfeiçoado, têm que se criar sistemas de sorteio para eliminar os excessos populacionais. Ok, ficção científica de projecção, "chegaremos lá?" dirão os cépticos, respondo eu: "vamos arriscar?"

Fecho o texto de Jean-Pierre Andrevon e abro o ano de 2007. Parece que já lá estamos. Ano em que pessoas continuam a ser enviadas para guerras cujas causas desconhecem ou são criadas artificialmente e em que temos os pais da pátria a compensar e confortar os destroços de guerra em que fica quem fica, que quem parte não sabe de mais nada. Uma mão lava a outra. Não temos consciência da programação global e dos sistemas em que estamos espartilhados. Gestão aleatória de pessoas e, como no futebol, já se sabe quem vai ganhar e as lesões estão contabilizadas à partida.

Hoje li, portanto, que havia famílias em Espanha a chorar os seus filhos (vem-me à memória a expressão e título Vidas Desperdiçadas, de Zygmunt Baumann, bom de ler para acordar). Lembrei-me das previsões de 1984 e do Admirável Mundo Novo. Para quando o respeito pelos seres humanos enquanto indivíduos e não enquanto massas que se deslocam comandadas por mão anónima, que os ventos da natureza, esses, ninguém sabe para onde sopram?
-
Citizen Mary de luto pelos que choram, pelos que ficam, por todos nós que se não levantarmos a voz a tempo deixaremos que a humanidade se torne uma massa informe para alguém brincar sem saber porquê ou, pior ainda, a rir-se enquanto o castelo de cartas cai.

O problema é que as cartas desta vez somos nós.


segunda-feira, 25 de junho de 2007

E também contava histórias...

"Todo este país é muito triste... Aquele onde eu vivi outrora era menos triste. Ao entardecer eu fiava, sentada à minha janela. A janela dava para o mar e às vezes havia uma ilha ao longe... olhava para o mar e esquecia-me de viver. Assim, sem o relógio, tudo é mais afastado e misterioso. A noite pertence mais a si própria. Quem sabe se nós poderíamos falar assim se soubéssemos a hora que é? Eu não sei contos nenhuns, mas isso não faz mal. Só viver é que faz mal. Cada gesto interrompe um sonho. As mãos não são verdadeiras nem reais. São mistérios que habitam na nossa vida. É sempre longe na minha alma. Talvez porque, quando criança, corri atrás das ondas à beira-mar. Levei a vida pela mão entre rochedos, maré-baixa, quando o mar parece ter cruzado as mãos sobre o peito e ter adormecido como uma estátua de anjo para que nunca mais ninguém olhasse. Eu vivi entre rochedos e espreitava o mar. A orla da minha saia era fresca e salgada batendo nas minhas pernas nuas. Eu era pequena e bárbara. Hoje tenho medo de ter sido. Na vida aquece ser pequeno. À beira-mar somos tristes quando sonhamos. Não podemos ser o que queremos ser, porque o que queremos ser queremo-lo sempre ter sido no passado.

Um dia que eu dei por mim recostada no cimo frio de um rochedo vi ao longe, como uma coisa que eu só pensasse em ver, a passagem vaga de uma vela. Sonhava de um marinheiro que se houvesse perdido numa ilha longínqua. Desde que, naufragado, se salvara, o marinheiro vivia ali. Como ele não tinha meio de voltar à pátria, e cada vez que se lembrava dela sofria, pôs-se a sonhar uma pátria que nunca tivesse tido: pôs-se a fazer ter sido sua uma outra pátria, uma outra espécie de país com outras espécies de paisagens, e outra gente, e outro feitio de passarem pelas ruas e de se debruçarem das janelas. Cada hora ele construía em sonho esta falsa pátria, e ele nunca deixava de sonhar, de dia à sombra curta das grandes palmeiras, que se recortava, orlada de bicos, no chão areento e quente; de noite, estendido na praia, de costas e não reparando nas estrelas. Durante anos e anos, dia a dia, o marinheiro erguia num sonho contínuo a sua nova terra natal... Todos os dias punha uma pedra de sonho nesse edifício impossível. Breve ele ia tendo um país que já tantas vezes havia percorrido. Milhares de horas lembrava-se já de ter passado ao longo de suas costas. Sabia de que cor soíam ser os crepúsculos numa baía do norte, e como era suave entrar, noite alta, e com a alma recostada no murmúrio da água que o navio abria, num grande porto do sul onde ele passara outrora, feliz talvez, das suas mocidades a suposta.

Não se deve falar demasiado. A vida espreita-nos sempre. Toda a hora é materna para os sonhos, mas é preciso não o saber. Ao princípio ele criou as paisagens, depois criou as cidades; criou depois as ruas e as travessas, uma a uma, cinzelando-as na matéria da sua alma - uma a uma as ruas, bairro a bairro, até às muralhas dos cais de onde ele criou depois os portos. Uma a uma as ruas, e a gente que as percorria e que olhava sobre elas das janelas. Passou a conhecer certa gente, como quem a reconhece apenas. Ia-lhes conhecendo as vidas passadas e as conversas, e tudo isto era como quem sonha apenas paisagens e as vai vendo. Depois viajava, recordando, através do país que criara. E assim foi construindo o seu passado. Breve tinha uma outra vida anterior. Tinha já, nessa nova pátria, um lugar onde nascera, os lugares onde passara a juventude, os portos onde embarcara. Ia tendo tido os companheiros da infância e depois os amigos e inimigos da sua idade viril. Tudo era diferente de como ele o tivera - nem o país, nem a gente, nem o seu passado próprio se pareciam com o que haviam sido. Um dia, que chovera muito, e o horizonte estava mais incerto, o marinheiro cansou-se de sonhar. Quis então recordar a sua pátria verdadeira, mas viu que não se lembrava de nada, que ela não existia para ele. Meninice de que se lembrasse, era a na sua pátria de sonho; adolescência que recordasse, era aquela que se criara. Toda a sua vida tinha sido a sua vida que sonhara. E ele viu que não podia ser que outra vida tivesse existido. E da vida que lhe parecia ter sonhado, tudo era real e tinha sido. Nem sequer podia sonhar outro passado, conceber que tivesse tido outro, como todos, um momento, podem crer.

Não sei como era o resto. Há resposta para alguma coisa?"

Fernando Pessoa. O Marinheiro (extractos)

sábado, 23 de junho de 2007

Gratia

Sinónimo de qualidade, criatividade, persistência, irreverência? Seja como for gostei. É sempre bom aprender e deliciarmo-nos com trabalhos novos. Vale a pena espreitar o percurso e as intervenções de Mr. Bansky, art gratia artis...

No País das Maravilhas

Obrigado ao Bairro do Amor, Querubim Peregrino e Und3rblog pela nomeação.

Não sei se há , mas há muitos espaços que admiro pela consistência, criatividade e dinâmica, por exemplo:

A Minha Matilde & Companhia
Cinema Paraíso
Citador
Grilices
Guilhermina Suggia
Momentos&Documentos
Pimenta Negra

A estes e aos outros blogs que trabalham por uma escrita livre, criativa, informativa e crítica, os meus parabéns. Já é uma maravilha o facto de termos possibilidade de expressão alternativa!

Silly Season!

(postal com praia, casal sentado na lua a olhar para a realidade com um telescópio)
"Cultivated leisure is the aim of man."
Oscar Wilde

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Quem?

(obrigado, und3rblog, pela memória)

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Hoje, Citizen Dog

imagem: capa do livro c de cão, banda desenhada de mark o'hare
Não falo da banda desenhada. É que há amigos mesmo fiéis e cidadãos por mérito, mesmo de quatro patas. Infelizmente nem sempre se tem sensibilidade e conhecimentos para dar valor ao profissionalismo. É de justiça, depois de alguns anos de contacto e de alguns dias de trabalho mais intenso, que divulgue o que pelos visto não é do conhecimento comum.
-
Pode-se obviamente ler o texto legal (legal mesmo, somos fantásticos a legislar, o pior é o resto...): DL 74/2007. E parar para pensar. Quantas vezes já passámos por entradas de locais de utilização pública em que à porta se encontra um simpático e desactualizado sinal de proibida a entrada de cães? Pois é. Muitas. Ora esse sinalinho tem uma parte debaixo que os normovisuais parecem não querer ver. E essa parte debaixo deve dizer: "excepto cães-guia ou cães de assistência, de acordo com o DL 74/2007". Porque estão a trabalhar e têm carteira profissional adequada que o comprova. Em situações extremas e para quem não saiba, pode-se chamar uma autoridade e multar a entidade que se recuse a admitir a sua entrada.
-
Os cães-guia são criados e educados em
escolas próprias, como os cães de assistência. São fundamentais para a autonomia dos seus utentes. E são educados para estar em qualquer local, utilizar qualquer transporte, ser - sim - transparentes enquanto estão a trabalhar. Um cão-guia ou de assistência está preparado para nunca atacar um ser humano. Um cão-guia ou de assistência sabe que se tem a "farda" vestida tem um comportamente diferente de quando está em folga ou em repouso. Não é para dar bolachinhas nem para fazer festinhas nem para distrair: não são brinquedos. O que não quer dizer obviamente que não se possam fazer perguntas aos seus donos e pedir licença para lhes tocar. Mas deve-se mesmo pedir licença. Ou alguém faz festinhas num carro sem primeiro ter a delicadeza de se dirigir ao proprietário?
-
Há situações em que deparo com faltas de (in)formação graves. Esta é uma delas. Quem tiver a paciência de ler estas linhas pense duas vezes antes de desrespeitar um percurso, um trabalho, uma dignidade. Porque há humanos menos profissionais...

domingo, 17 de junho de 2007

Vozes de burro...


... não mudam com o tempo.

Que tristeza.

À medida que o meu trabalho avançava ia consciencializando como os nomes podem ser preversos. Encontrei em debates do nosso Arquivo Histórico Parlamentar, no caso específico, nos diários das Cortes e Pares do Reino da Monarquia Constitucional uma estranha forma de utilização da palavra "cego", sempre usada em termos metafóricos, como o incapaz de ver a verdade, o óbvio, o mau leitor de mensagens, o deficiente na percepção de uma realidade. E ao pesquisar aquelas bases de dados eu procurava mesmo debates sobre cegos... Encontrei-os em temerosas designações e seus derivados (desvalidos da fortuna, privados de luz, infelizes que vivem nas trevas). Perdão? Cego é quem não tem a possibilidade de utilização do sentido da visão. Não é um insulto. É uma característica.

No meu trabalho e mesmo em debates recentes, deparei-me com o mesmo problema - também já dei com ele blogosfera fora. O problema de sensibilidades quanto à utilização de determinados termos, normalmente os tecnicamente correctos. E a utilização de caritativas metáforas para quem não as pede. Em troca da deturpação das designações de determinados estados, características ou patologias para discursos violentos e agressivos, fora de contexto e, a maior parte das vezes, inconsequentes.

Trabalhei na SIC durante um ano e conheci o jornalista Mário Crespo, de quem me ficou uma simpática impressão em termos humanos (trabalhar no stress e ser delicado com os colegas júniores é menos fácil e menos comum que se possa pensar). Enquanto jornalista não me sinto capaz de avaliar o seu percurso, mas enquanto cronista surpreendeu-me na semana passada. A sua crónica no Expresso é uma análise fabulosa da onda de discursos imprecisos e ofensivos que criaram raízes na nossa Assembleia da República, sem qualquer reparo. Mário Crespo reparou. Na utilização do termo "autista" vezes a mais e em contextos de agressão. Chama a atenção, e muito bem, para a necessidade de moderação dos discursos parlamentares em situações que deviam ser penalizáveis. Cito: "É monstruoso que representantes eleitos de uma nação, com repetida falta de humanidade, insistam em utilizar como um insulto um termo que é sinónimo de uma imensidade de tragédias pessoais. É extraordinário que sucessivas presidências da Assembleia da República não tenham ainda feito um reparo rectificador e uma vigorosa admoestação a quem ultraja toda uma comunidade que sofre, deixando que o insulto se banalize e passe a ser um mero descritor de falta de lucidez política."

Acrescenta: "Recomendo ao Parlamento inteiro uma visita ao site da Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e Autismo para começarem a dimensionar aquilo que têm estado a dizer."

Obrigado, cidadão Mário Crespo, pela chamada de atenção.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

E agora?


Quino, Que Presente tão Inapresentável...

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Sem dúvida!

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossivel,
Há sem duvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
-
Álvaro de Campos

terça-feira, 12 de junho de 2007

Já é tão amanhã!

coelhinho branco da história de Alice no País das Maravilhas, com relógio
E ninguém deu por nada, sol e sombra - desculpem o meu imaginário ribatejano - que se confundem quando os sapatos ficam esquecidos à meia-noite transparente de dia nenhum e os reencontros adiados em procuras. Também, para quê viver sempre dias iguais? As rotinas matam, uns dias libertamo-nos pela ilusão, outros pelo trabalho, as noites servem para escrever, para ler, para amar (para dormir?), para fumar mais um pouco de stress enquanto não for proibido o fruto de todos os males.
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Ponteiros apontam o que vemos ou que queremos, controlam ou deixam descontrolar. Estou atrasado (bem mais grave no feminino), muito atrasado, para viver. Como numa lengalenga de dissabores, as nossas vidas enchem-se de minutos cada vez mais apertados até nos encontrarmos libertos num abraço sem tempo, num espaço ficcionado (do lado de cá do muro, tudo parece mais rígido, contornemos).
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Em suma, aquela história do primeiro dia do resto das nossas vidas não é mais que uma ironia, mesmo um cinismo, o tempo não existe, o tempo é o que queremos fazer dele, ou o que queremos fazer de nós. Formigas no carreiro? Sem percurso traçado, por favor. Rotinas não seguram, raízes, sim. E essas são eternas.

sábado, 9 de junho de 2007

O senhor Jacinto

Cruzei-me há pouco - não foi numa rua da baixa - com um artesão.
Como trabalho com alguma materialidade um pouco estranha para o comum dos nossos tempos de pressa e poucos olhares à diferença, é difícil tratar da manutenção de alguns objectos de apoio. Neste caso era um relógio falante. Os relógios usados por quem não tem o sentido da visão podem ser de interface táctil (uma tampinha é levantada e há referências para localização da posição relativa dos ponteiros) ou sonoro (um duplo mecanismo que pode ter um output analógico ou digital em números visíveis e sonoro, com quatro botões externos para além do tradicional: botão para ouvir as horas, botão para entrar em modo de acertos e configurações, botão para acertar as horas, e os minutos, sendo estes dois usualmente os responsáveis por acertar também o alarme e mais algumas funções que podem variar consoante os modelos).
Obviamente que é difícil encontrar quem faça a sua manutenção, só o facto de terem um mecanismo duplo se torna complexo, a quantidade de vezes que se recusam sequer a mudar-lhes as pilhas é inacreditável, a quantidade de vezes que lhes invertem o mecanismo de voz é assombrosa. Há profissionais criativos e cada vez mais entrámos na cultura do "não sei nem me interessa" ou do "assim deve estar bem".
E depois há o Senhor Jacinto.
O Senhor Jacinto estudou até à quarta classe, fazendo sempre trabalhos para ajudar os pais. Depois foi entregue a um Mestre ourives, e passado uns aninhos já tinha a paixão dos relógios. Foi muitas vezes contactado, ainda é, por escolas com fama de excelência nesta área, e que desenvolvem, infelizmente, profissionais dos tempos modernos... consumistas - que os profissionais sem tempo têm tempo para aprender toda a vida.
O Senhor Jacinto arranjou o relógio da Senhora Ilda, que andava na carteira da Maria há algum tempo, em alarme de desespero, porque a sua proprietária não vê horas nos relógios onde a gente vê. A Maria confirmou - gata escaldada - que o mecanismo estava na forma correcta e acertou de ouvido o alarme para verificar se estava mesmo tudo bem (o convívio com outras formas de ver o mundo faz-nos interiorizar posturas e sensibilizar comportamentos), o Senhor Jacinto olhou da oficina e saíu: acerta o relógio como os cegos, pois acerto, eu tenho um com o toque do galo, gosto mais da voz espanhola que da brasileira, os tácteis, os antigos da Camisaria Moderna, hoje, menina - obrigado, Senhor Jacinto - ninguém tem respeito por nada, nem por si mesmo. Não há técnica porque não há respeito.
A respeito de relógios então, o Senhor Jacinto dissertou. E eu a lembrar-me do glorioso Jacinto da Cidade e as Serras e a pensar que a aprendizagem deste meu Jacinto tinha sido bem mais rápida. E ele a dissertar farpas que nem Eça e Ramalho. Sabe, ladrões sempre houve, e mentirosos. Mas hoje são burros porque nem por si têm respeito. Não se morde a mão que nos dá de comer, sobretudo se for a nossa. Por isso quando me pergunta porque me interessei também por estes mecanismo, porque fazem parte da minha Arte, claro. Ou se fazem as coisas com respeito porque são elas que nos dão a subsistência ou é melhor estar quieto e deitar tudo fora. E acredite, menina - obrigado mais uma vez, Senhor Jacinto - a maior parte das pessoas deitam-se fora e nem percebem. Como as crianças que nos telejornais só ouvem os políticos a chamar mentiroso uns aos outros. E querem que cresçam a respeitar quem, se nem os pais têm outro diálogo que não o da mão levantada e da falta de paciência.
Ontem ouvi e li duas notícias sobre educação e os muitos comentários foram abaixo deste do Senhor Jacinto: a má utilização da Internet pelas crianças (ou pelos adultos, que nunca há só um lado da questão) e a violência escolar a saltar de novo em jogos mortais. E passa tudo por este respeito que o meu amigo da manhã mencionou (não foi numa rua da baixa mas ele simpatiza comigo e eu simpatizo com ele). Perda de valores, mesmo os individuais. Não parar (os relógios) para pensar. Não reflectir nos mecanismos (os relógios, novamente) que podem estar por trás de uma circunstância. Não pensar (os relógios e a ignorância voluntária de alguns técnicos) que os mecanismos que nos levam a agir de determinada forma podem ser desconhecidos.
Não ter respeito por nós, não ter respeito pelos outros, não dar valor à vida, não dar valor ao profissionalismo, não dar valor ao trabalho, não dar valor à aprendizagem, não dar valor - manchar mesmo gravemente - a liberdade que temos de crescer, de agir e de nos expressar correctamente (e não falo da forma mas do conteúdo).
O Senhor Jacinto a Ministro da Educação. Urgentemente.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Estilhaços ou espaços?

janela de carro partida, abrindo sobre um fundo de paisagem natural verde
De balas, de vidros, de palavras, de memórias, tudo o que nos rodeia é passível de sofrer explosões ou implosões com as devidas - às vezes merecidas - consequências. Por vezes centramo-nos de mais nas explosões e estilhaços do verniz de alguma memória. Inconsequentes nós, não lhes demos mais importância que a que merece o desprezante fluir do tempo, as vãs aragens que afinal não pesam toneladas.
Inconsequentes as acções que partem, importantes as que reconstroem. A diferença entre um murro e um beijo, um pontapé e um sorriso, a palavra errada ou a palavra certa.

Pesamos sempre correctamente os estilhaços das nossas memórias? Não me parece. A maior parte das vezes caem tão rápido e cicatrizam tão depressa quanto a pouquíssima projecção que tiveram. Valorizemos antes os enormes tubos de cola que são as acções de entrega, de partilha, de solidariedade, de amor, de carinho, de atenção, de cuidados delicados, osrestauro de alma e de corpo que só quem é especial consegue.

Estilhaços colam-se? Melhor deitar fora e a janela fica de novo bonita, incólume, íntegra e mais forte. Quem parte tem mais riscos de se magoar que quem é partido. Janelas rasgadas deixam ver melhor o verde-esperança. Há tempo e espaço para tudo. Até para ser feliz.