domingo, 21 de dezembro de 2008

Quadra sem palavras

Era uma quadra sem palavras, recheada de ideais. Depois vieram os homens. A quadra tinha sorrisos e beijos embrulhados em fitas vermelhas, como papoilas nas mãos de gaiatas.

Era a quadra um tempo e nele corriam sonhos. Nevava, talvez, nalgum lugar. Noutro, os amantes beijavam-se, outra vez a primeira. Mais além, um sorriso fugia de um gorro de criança e subia aos ninhos dos pássaros dormidos.

Na parede da casa crescia a hera e nós, como ovelhas de um presépio de Janeiro, corríamos pelo jardim baralhando o tempo e as leis. Nada era mais proibido que crescer e a única bebida chocolate quente.

Longe do mundo, todos podem ser felizes. Longe do mundo, nos mundos pequeninos sem mais que nós crianças aos gritos de dentro por mais um Verão.

Cedo nasceria um menino que só conhecíamos de barro. E em seu respeito corriam os passos mais devagar, como a hera a subir das raízes para o céu.

Em pouco tempo chegariam grandes pessoas, com anos a mais depois de terem sido um bocadinho nós. Mas isso não nos baralhava. Importante era manter na quadra as não-palavras que se sentiam quentes e rimavam com risos.

Mais tarde a estrela e todos já sabem. Embora que só nós a hera e as fitas vermelhas e os pássaros sorrindo, só nós, até hoje.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Anoiteci

Claro que a gripe ajudou, mas o cansaço das gentes em volta é muito, os carros em perseguição e as crianças a sair para férias, a correr, a correr. As aulas, nem por isso, tudo longe de onde devia, eu sem rumo e sem dono, chegou um livro importante (Vivre sans Voir) e quero lê-lo. Nem por isso me apetece jantar, um chá e uma bolacha, acabou o chá que eu gosto mais, a casa está fria, deixei o dossier no carro. Com o acordo ortográfico terei deixado um dossiê? Não sei o que deixei de mim lá fora mas foi muito. Constipada não posso ir aos meus pais e tenho saudades. Vou-me deitar para me levantar noutra aula e não há férias de Natal para os crescidos. Talvez eu não me tenha feito entender quando me inscrevi: não sou uma pessoa crescida. Tenho medo dos filmes como se as pessoas fossem verdadeiras (lembro-me sempre dos conselhos do meu Ricardinho) e no escuro nunca ninguém adormeceu em paz. Por outro lado é no escuro que encontro a serenidade de parte dos meus amigos e oriento-me bem nele, mas é o meu escuro, o escuro familiar, onde tudo tem um sítio e as mãos tocam em todas as cores. Hoje estou com gripe até à alma e as palavras doem. Lembraram-me o meu poeta querido, o nome não saía, a mim lembra-me sempre o nome, António, António, António José Forte. "Hoje é um dia reservado ao veneno e às pequeninas coisas". Pois é. Há dias com gripe. Vou anoitecer de vez, que hoje preciso. Até o disco do Requiem está com problemas. Talvez amanheça num sorriso qualquer ou me desconstipem a alma. Se me é permitido inventar palavras...

domingo, 14 de dezembro de 2008

Pelas ruas

Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.

Ricardo Reis


O Natal vai ser frio, mas embeleza-o já este céu azulão e limpo, acabado de estender. Lisboa cheira a Inverno e as pessoas, se as procurarmos bem, até se encontram. Há uma feira do livro na Gulbenkian e concertos por toda a cidade, os Violinhos andam aí e que bem tocam e melhor sorriem aquelas crianças. Nos cemitérios há flores compostas a par de outras levadas pelo vendaval. Encontram-se muitos cabelos brancos com sorrisos, o que é sempre bonito de ver. Nas farmácias vendem-se xaropes, nas mercearias, chocolate em pó e bolo rei. Perto de casa dos meus pais, o louco de cabelos brancos e grande arba, como um Pai Natal que caíu do trenó, grita pela humanidade. Não cheguei a perceber se o ninho era na árvore ou no candeeiro, mas o pássaro parecia feliz. Amanhã é nova semana e as ruas ficarão quentes com os figurantes do costume e os seus fatos indexados à actualidade. Na televisão, noto que o Benfica perdeu, a Esquerda reuniu e o Alberto João quer invadir o continente. Talvez faça sopa de peixe para o jantar enquanto medito em planos para mudar o mundo. Honestamente, somos sempre um bocadinho mais felizes do que fazemos crer a nós mesmos.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

De génio


Espera-se um milagre para as bandas de Dezembro, entrou hoje, será? As aves devem ter fugido todas com o frio. Parece que a campanha do Banco Alimentar correu bem. O Expresso trouxe uma notícia bela. Leio coisas dispersas e ligo aquecedores, ligo luzes da minha árvore de Natal feita hoje com os adereços do ano passado e do outro e do anterior. Não tenho árvores descartáveis nem sonhos que passem de moda, são sempre os mesmo, mutatis mutandis. Sou filha dos anos 60, peço paz e amor.

O frio gela-me as ideias, não estudo mais hoje, vou ler, ler, ler, que é o princípio triste dos ignorantes conscientes, o que, pensando bem, não é tão mau destino assim. A sonhadora e a cidadã dormem já. A aluna vai sobreviver a esta sibéria lusitana em dia de festejar restauros sem saber onde os restauradores se encontram.

Fumei demais porque vejo flamingos a fazer de renas e ventos frios pintados de azul. Fumei demais. E não há génio que me faça o Benfica ganhar...

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

O Novembro que dormi

Hoje ao passarinhar por uma Lisboa em fuga, entre trânsito histérico em fuga de luzes urbanas para outros mitos de paz, pensei que estes tristes intimismos pré-natalícios me foram vedados no ano anterior. Há muitos anos não sentia a falta do cansaço e das corridas sem sentido desta época, das cores e das árvores com lâmpadas, das ruas com gente a mais e paz a menos, dos cânticos sobre um Rudolfo de nariz vermelho a pingar desgostos de futebol.

Hoje comi uma salada feliz junto a um rio que eu amo e que é evidentemente da minha cidade. Estive ao pé de mim. Voltei a dançar sobre lençóis de água e memórias reflectidas e difusas. Acho que voltei a casa, porque as enfermeiras já não riem no quarto dos fundos e a luz não é de presença. Não me fará falta o chá de camomila e o pacotinho de bolachas Maria amolecidas pela humidade, mesmo à hora dos remédios. Não ficarei a ler a luz do telemóvel debaixo dos lençóis. De alguma forma sinto que a chuva de hoje com a luzes vermelhas e azuis de Lisboa de fim-de-semana-grande e o frio que chama Dezembro e a lareira de casa dos meus pais me chamaram de volta. Em definitivo, voltei para o pé de mim.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Todas as semanas são felizes

Na verdade, as segundas-feiras são iguaizinhas às de quando andava na escola ou às de quando corria de bibe sem horários e lanchava fatias de pão com manteiga e um copo de leite. Agora lancho café e um cigarro triste, se tiver sorte tenho companhia para as lamúrias da tarde, há sempre quem nos moa o juízo, há sempre pessoas erradas, o que nos dá, obviamente, satisfação.

Todas as semanas são felizes, oh, se são! Todas as semanas se começam limpas e livres de agruras, cheias de boas intenções, são os tempos modernos, nem chegamos ao início do ano para as boas resoluções, tem que ser na manhã de segunda, vou fumar menos, vou ser pontual, vou tirar umas horas para ir ao cinema, vou conseguir ir ver aquela exposição antes que fique uma intenção cheia de curiosidade, enterrada junto com as outras, vou almoçar aos meus pais.

Todas as semanas começam brancas, o primeiro jantar da semana, uma sopa de legumes quentinha, o meu filho feliz porque a Barca certa lhe levou o teste, abro uns mails com piadolas sobre o Magalhães, ouço um aluno a dizer que se manifesta porque os jovens deviam poder faltar (e podem, rapazinho, não têm é que faltar com o patrocínio dos encarregados de educação e do Ministério, boa?).

Esta semana será uma semana feliz, certamente. Estudarei os meus temas, pensarei nas minhas questões, assistirei às minhas aulas, lerei os meus livros. Talvez escreva mais um conto. Talvez me conte uma história. Era uma vez uma semana feliz, oh, tão feliz que ela era.

domingo, 16 de novembro de 2008

Podemos?


Precisamos de humor? Certamente. Continuo a acreditar no riso como arma e no sorriso como paliativo. Não sei se adianta lamuriarmo-nos marcharmos, atirarmos ovos. Sei que adianta pensar nos problemas, estar atento, não nos alhearmos. Certamente. Sei que há causas justas. Não falo do que não conheço, do que não vivo, limito-me a respeitar as partes envolvidas e a dignificar as suas lutas. O mundo em que cresci acabou há muito, agora sou eu acabada num mundo novo e estranho. Estranho-o diariamente porque os inesperados são muito. Façamos das nossas curiosidades e das nossas questões lutas pertinentes e justas. Sempre. De qualquer forma, com humor. E posto isto boa semana a todos que vou ver o Zé Carlos.

sábado, 15 de novembro de 2008

Discursos

"À barca, à barca, houlá!
Que temos gentil maré!"

Gil Vicente, Auto da Barca do Inferno



É sábado e não tenho aulas. Leio algumas notícias, umas em papel, outras, virtuosas. Visito os meus pais (gosto do verbo visitar). Conversas soltas aqui e ali. Um almoço tardio. Uma troca de e-mails. Palavras, palavras. As horas compostas de discursos e eu que deixei estragar o relógio com os números caídos. Tanto sentido que me fazia o relógio com os números caídos. Agora, os livros. O João estuda o Auto da Barca do Inferno. Eu penso nos arquivos a visitar e no preenchimento dos quadrados do pensamento esquinado que é o esqueleto, ainda mais embrião que esqueleto, da minha tese. Palavras amontoadas ainda por seleccionar. Visto-me de dúvidas e começo a caminhar.

domingo, 9 de novembro de 2008

Ainda não

ainda não há nada no pulmão direito
ainda não se respira como devia ser
ainda não é por isso que choramos às vezes
e que outras somos heróis a valer

António José Forte


Crianças que vão para a escola com sapatos três números acima do pézito, que vivem em bairros onde as rixas se resolvem à pancada, que têm mães analfabetas e dependentes de comida dada por vizinhos. Meninos que não sabem dizer o nome e contam histórias com brilho nos olhos e mãos que dançam. Professores que os acolhem, que os ensinam a tocar na carinha e sentir o "m" e o "p" e a repetir, tantas vezes que é preciso repetir. Pais que remendam as calças de uns filhos para os outros e fazem flores e casinhas com restos de tecido. Fracos que se oferecem para defender os fortes.

Há espaço para respirar?

Amanhã, os sapatinhos. Quando lhe tirarmos o molde do pé. Pé ("p", abre a boca, separa os lábios depressa, como num sopro rápido, "p", sente, isso, assim, "p" de pé, "p" de pessoa, "p" de pressa de sorrir quando a alma húmida da tua história contada em gestos rubros de um capuchinho e um lobo tão mau, tão mau, como as pessoas que fazem mal aos meninos, mesmo quando, apenas, se esquecem de lhes fazer bem).

"P" de percebam o decreto-lei em anexo. Percebam. Ainda há espaço para aprender.

Pedido


Afinal o Papai Noel passou a chegar bem antes do São Martinho, sendo que este último só serve para comer castanhas aseadas em alumíno aséptico e água-pé de que ninguém já tem memória. Afinal a procura de um livro deriva em fuga por sobrevivência de um espaço comercial feito sala de visitas de famílias em gáudio projectista dos tempos que se aproximam. Afinal já é altura de ser egoísta de novo e de nos maçarmos a procurar presentes - nunca prendas - para os próximos alvos obrigatórios, sem nos termos desfeito dos primeiros. O Natal adora famílias mono-parentais porque há um limbo em que todos devem receber presentes, mesmo os ex. Classificados na onda moderninha de voluntariado, participaremos num ou dois eventos solidários. O São Martinho há-de trazer um sol discreto. Mas a depressão Natalicia instala-se e corre com os sorrisos. Em desconto. Em promoção. Comerciáveis. Renegociáveis. Divisíveis.

Faz-me falta o Natal da minha infância, em que importava sobretudo o colo onde se bebia o chocolate quente e o tempo de chegar era um tempo de paz, sem antecipações absurdas nem multidões histéricas.

Se alguém o encontrar, importa-se de mo devolver?

sábado, 8 de novembro de 2008

Isto da Cultura

Parece-me algo de cansativo e penoso, o clímax da vida intelectual dos nossos dias, a importância inscrita nuns 15 minutos familiares e muito mais anónimos que reconhecemos. Pobres de nós que não sabemos fazer perguntas nem ir ao outro lado, ao lado do quê, ao lado do desconhecido. E voltar a este, já diferente.

Isto da não-inscrição

Faz-me pensar num grafitti gigante com uma pomba da paz que admiramos todos os dias a caminho da vida, aqui em Lilliput. E, por muito que doa, nínguem passa de cobarde, ninguém faz nada para libertar a ave.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Isto do conhecimento

Pode ser um parto doloroso mas que é verdade que é um caminho de discurso, ah, pois é... E não nos ensinam isto, ensinam-nos a ser copistas, ensinam-nos a ser reprodutores de verdades, ando a aprender a escrever aos 42 anos, o que é fantástico, escrever, construir, responder às minhas questões. Para nada, para tudo, para chegar a casa agora depois de cinco horas de aula sem intervalo a somar a um dia trabalhoso e a deixar uma amiga aniversariante pendurada que a coragem não chega a tanto e as costas traíram-me esta semana. Mais canadiana, menos canadiana, vou adormecer nas palavras de Derrida que sempre inquietam o suficiente para se descansar. Amanhã mais oito horas de aulas. Isto do conhecimento é bem mais que um sistema. É uma profissão.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

A chave


Um dia perdemos a chave amarela e nunca mais nos lembramos, deixamos que passem anos, a mesa é alta e cansa-nos a infância, pesa-nos a adultice. Pequenos demais, grandes de menos, a perspectiva deixa de ser a certa. Passamos noites em branco escrevinhando dúvidas, interrogações, predisposições, pensamentando os dias que não foram.

Como numa história, era sempre uma vez em que a prisão nos intimidava demais para não a levarmos a sério. Algum dia, o sorriso perdido, portanto. Somos tão vitorianos...

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

...


"The devil is compromise." Henrik Ibsen
(retratado por Eduard Münch)

Quando a noite dança

Era outrora um conde 
que fez um país,
com sangue de moiro,
com laranjas de oiro,
como a sorte quis.

Há bruxas que dançam
quando a noite dança,
são unhas de nojo,
são bicos de tojo,
no tambor da esperança.

Ventos sem destino
que dizeis às ramas?
Desgraça bramindo
é a nós que chamas.

No país que outrora
um conde teceu
com laranjas de oiro,
com sangue de moiro,
tudo apodreceu.

Anda o sol de costas
e as bruxas dançando
e os ventos do norte
sobre nós espalhando
as tranças de morte.

As estrelas mortas
apagam-se aos molhos:
vem, lume perdido,
florir-nos os olhos.

Ama, estarás ouvindo
a história que vou contando?
Ó ama pátria dormindo
desde quando?

Desde tempos e memórias,
desde lágrimas e histórias,
desde cóleras e glórias,
agora te estou chorando
e tu dormindo
até quando?

As bruxas andam lá fora
e eu chorando
versos do país de outrora.

Dançam bruxas a ganir
de mãos dadas com o vento.
Ama, acorda; sopra o lume;
e não me deixes dormir
na noite do pensamento.

Ó castelos moiros
armas e tesoiros,
quem vos escondeu?
Ó laranjas de oiro,
que vento de agoiro
vos apodreceu?

Há choros, ganidos,
à luz da caverna
onde as bruxas moram,
onde as bruxas dançam
quando os mochos amam
e as pedras choram.

Caravelas, caravelas,
mortas sob as estrelas
como candeias sem luz;
e os padres da inquisição
fazendo dos vossos mastros
os braços da nossa cruz.

As bruxas dançam de roda
entre o visco dos morcegos,
dançam de roda, de rojo,
dançam voando, rasgando
a noite morta do povo
com as unhas, bicos de tojo.

E o tempo murchando
a luz de idos loiros.
Ama, até quando
estaremos chorando
os castelos moiros?

Lá vão naus da Índia,
lá se vão tesoiros.
E as bruxas dançando
e os ventos secando
as laranjas de oiro.

Ama, até quando?

Na noite das bruxas
o lume no fim
e o vento ganindo.

Ama, estarás ouvindo?

O lume no fim
e os homens dispersos.

Ama, tens frio;
cinge-te a mim
e aquece-te ao lume
queimando os meus versos.


Carlos de Oliveira (1921-1981), Xácara das Bruxas Dançando.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

A minha deixa

Tenho um alarme no telemóvel que me dá as deixas, o que é tecnologicamente sedutor. Agora, por exemplo, diz-me para parar com as actualizações ao Desassossego e dirigir-me ao meu observatório sociológico do dia para me vender por dois sorrisos e uma rotina. Toca de novo, são as notícias do fundo da rua, "Alguns movimentos de professores que agendaram uma manifestação para 15 de Novembro, vão reunir-se com os sindicatos na sede da Fenprof, dia 29." Pego no meu livro e nas chaves do carro.

Ordeiramente

Mais uma segunda-feira de ciclos dormentes em que uma multidão de carros, estranhamente familiar, se dirige à Rua dos Douradores
...

Animal aflito


Ai que útil definir, que bem nos definiu Gedeão, que tanto baralhamos o mundo e nos baralhamos no tempo. Hora daqui, hora dali, nem outras oras nos libertam, que vivemos descrentes de nós. Passei o dia a acertar e a desacertar relógios. Relógios-relógios. Relógios com funções de relógios. Relógios de parede. Relógios de pulso. Relógios-anexos. A telefones. A computadores. De tal forma acertei e desacertei que o tempo tomou conta da minha casa e do meu dia e me perdi, guiada e baralhada pela luz da tarde.

Não sei que fazemos de nós com tantas artificialidades conduzidas por automatismos. Não sei porque deixamos que os Grandes Irmãos (não concebo um único, sou uma politeísta das desgraças) nos invadam desta maneira e as tecnologias os retorçam e nos torçam nos humildes esforços de nos mover no pouco espaço de vontade que achamos que nos sobra.

Afinal, nada sobra a não ser um crasso erro. Roubam as nossas produções intelectuais sem backup. Lemos emails de protestos mal humorados sobre quem brinca com as coisas nossas. Rimos com mais uns Gatos, mesmo publicitados mais que a conta, apesar de tudo em crescer de qualidade dentro de um humor que nos habitua seguro. Reconciliaram-nos com as horas, já certas no final do dia, de juntar a família e os amigos para ver e comentar uma pequena emissão televisiva. Há muito tempo que não revivia esta experiência. Louvados sejam mais a sua ironiazinha chegada a tempo e horas de longo Inverno. Sem censura.

domingo, 26 de outubro de 2008

Informação insana

Cerca-nos, claro. Mas parte dela é transparente. Na escolinha, tenho estado a aprender sobre memória. E esquecimento que, então na área de História, é certamente outra história. De resto, comecei a ler um livro em que o herói tem um chip de retenção de informação. Informação sufocante.

Toda a informação, informação seleccionada, informar, in(formar). Precisa-se de sanidade mental. Passamos os dias a esquecer, parte do processo é automático, selectivo, a outra parte é relativamente controlada por nós. Os mecanismos de lembrança, memória ou recordação (que não são sinónimos entre si) podem ser mais Tempo Perdido ou mais Ulisses.

Apre(e)nder.

Depois, há a memória visual. Resultaria, enfileirar crianças na A1 a aprender o alfabeto?

domingo, 19 de outubro de 2008

Atirei-me


Sim, foi por mim que gritei,

Declamei, Atirei frases em volta,

Cego de angústia e de revolta.

José Régio

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Lx-files


A um criativo, ou atente-se num dos meus tags preferidos, de um dos blogs mais encantadores que por aí andam, discreto, discreto, parabéns, hoje, ao autor!

(os tags, leiam os tags, consultem pelos tags, vale a pena voltar a acreditar que há criatividade por esta esfera que vamos preenchendo)

Genial Lx-Files! Um abraço, João Paulo!

sábado, 4 de outubro de 2008

Mensagem


""Havia um menino,
que tinha um chapéu
para pôr na cabeça
por causa do sol.

Em vez de um gatinho
tinha um caracol.

Tinha o caracol
dentro de um chapéu;
fazia-lhe cócegas
no alto da cabeça.
Por isso ele andava
depressa, depressa
p’ra ver se chegava
a casa e tirava
do chapéu, saindo
de lá e caindo
o tal caracol.

Mas era, afinal,
impossível tal,
nem fazia mal
nem vê-lo, nem tê-lo:
porque o caracol
era do cabelo."

Fernando Pessoa

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Queria

A minha mãe a embalar-me e a contar-me a história do Touro Azul. Também que as pessoas fossem mais simples e não um bando de crescidos revoltados ou acomodados. Queria que se acreditasse de novo em magia, porque a magia é precisa. Queria que com cada Magalhães (por sinal, um bom projecto e eu não sou suspeita a dizer isto, poderei escrever sobre isto em horas mais lúcidas) as crianças recebessem uma senha com direito a um colo e uma história da noite em casa e uma professora que lhes cortasse o bifinho na escola enquanto sorri. Queria, por uma vez, um Ministro ou Ministra da Educação que sorrisse com as crianças ou quando fala ou pensa ou trabalha para elas. Queria ter a capacidade simples de chorar quando esfolo um joelho ou me partem um brinquedo ou a bola ficando a dormir num telhado alto e ninguém para a ir buscar. Queria nunca mais ver adultos que se humilhassem e em vez de aprenderem a conversar e a debater as questões que interessam a todos, desconversassem e se agredissem como vi hoje. Não é com ironias que se dá saúde ao pulsar da humanidade.

Queria um abraço quando penso, como a Mafalda, que o mundo está doente e as pessoas mais doentes ainda por dormirem a bom sono em vez de pensar como o podem melhorar. Talvez, quem sabe, com uma história do Touro Azul e um beijinho. Como a minha mãe, que sempre resolveu os problemas do mundo que se lhe foram deparando em vez de agonizar em discussões estéreis sobre os problemas etéreos.

Mas amanhã, talvez, pode ser que o mundo esteja melhorzinho. Talvez que hoje apenas uma virose no Magalhães, coitado. Falta de controle parental, dizem. Embora me soe a falta de magia, apenas. Os sentimentos e os sonhos não se controlam.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Cidade do Outono

Quando as cores têm carinho e os cheiros caem das árvores das memórias e brotam uma música de fundo, inesquecível. É o Outono urgente que nos acorre, o princípio do renascimento da cor e dos sentidos, senão como as caras sorridentes molhadas na manhã, como as mãos a alcançar as folhas que voam sem cair enquanto o coração toca no céu, como as recordações todas tão vivas e os desejos tão acordados, ah, como, esta patética e incontrolável desarrumação da natureza que somos.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Secção NEE na FNAC

Já sabia da novidade mas ainda não tinha encontrado, por acaso, a naturalidade com que a FNAC vende os produtos da sua nova secção. E adorei. Necessidades especiais merecem muita qualidade, muita estética, muita ternura. E muita divulgação, porque não há assim tanta oferta destes produtos, os interessados merecem saber... Quem não conheça, que procure informar-se. É bom conhecer o mundo em que vivemos e os nossos vizinhos que são muitos e diversos.

O denominador comum é que todos gostamos e precisamos de aprender e de brincar. Portas da FNAC aberta a ainda mais meninos, toca a procurar o que nos interessa! Respeitar a diversidade humana na sua riqueza e direitos é uma qualidade de gestão e de humanidade. A FNAC está de parabéns, pelo que tem feito pela cultura e pela aprendizagem no nosso, como em tantos outros países.

Uma palavra de apreço para Nuno Lobo Antunes, que se associa à promoção desta iniciativa, e que dinamiza em Portugal a investigação sobre Síndrome de Asperger, patologia complexa e que afecta seriamente os portadores e os seus próximos, tentando, com a sabedoria e ternura com que o ouvi falar num congresso CERCI em Leiria há um par de ano, dar o seu melhor. E o nosso melhor é sempre muito bonito de se dar quando pode fazer toda a diferença na qualidade de vida de muitos meninos...

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Venda de pessoas?


Pessoas à venda?

E eu que não acho isto nada bem!

Património.

Pessoa(s).

Parece que rima. Porquê desrespeitar as nossas heranças?

Em cascata

É preciso embalar os dias sofridos, deixa-me passar a mão nos teus cabelos enquanto não ganho a coragem de cantar. Deixa-me sonhar com os passeios no mar da madrugada, com a árvore grande do Príncipe Real, com a senhora com o papagaio no ombro na feira. Ouve, ouve comigo - fecha os olhos, amor - o chiar alegre dos baloiços com pares de pézitos medrosos do chão a pedir colo. Sentes o mar das ondas grandes? O mar que gostas mais, o teu mar do Guincho? Passarinhando pela berma da praia como se a não pudéssemos pisar. Em bicos de pés pelas rochas como se mundo pudesse acordar e todos os sonhos ruírem logo, logo.

De mansinho, de mansinho, como canta o menino da voz bela que ama estrelas como nós. Há mais pessoas assim, sabias? Que não levam o mundo demasiado a sério, só um bocadinho, só o bocadinho importante de nós. E depois, há o amor, essa palavra furiosa, fera, que rasga o acontecido e o lança na rua aos gritos como o louco, sabes, aquele que mora na esquina da rua dos meus pais.

Queria ser mais louca ainda para te seguir em cascata, queria que me entendesses os gritos e entendes, queria que me abraçasses e abraças, mas agora, anjo, agora mesmo, como se o teu peito o meu porto e todas as canções.

Agora penso-te, esse ti que eu inventei e existe, existe, os grandes não sabem, mas existes, existem os tis em que as crianças acreditam. E têm caracóis.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Para Regensburgo, com humor

Ontem procurei dar a melhor atenção possível a Maria de Lurdes Rodrigues. Não fui capaz. O cargo é ingrato, é para queimar, mas a senhora não cativa. Tem um eterno ar de infelicidade como se acabasse em cada minuto de ler estatísticas para em seguida as citar, apagar e reiniciar o ciclo. Ontem ouvi também que José Nuno Pinto da Costa vai ser indemnizado pelo Estado Português. O Estado Português? Nós fazemos parte da coisa, certo? Eu cá não indemnizo ninguém que alterna entre mafiagens futebolescas e amores pagos a crédito. Não sei porque será este nome tão conhecido na praça pública, cuidei que era por mérito que as pessoas nos lembravam.

Terrível, o telejornal de ontem, aliás o zapping entre telejornais. Até porque as coisas boas que acontecem no nosso país da educação e que não são da responsabilidade directa da supra-citada senhora não são notícia. Ora neste momento temos umas quantas crianças a caminho do seu segundo dia de escola, alguns mesmo com vontade de trabalhar, contra ventos e tempestades. Temos igualmente alunos do ensino superior a progredir com os seus estudos enquanto trabalham, nada há de mais bonito e mais esforçado que estudar e trabalhar, tenho sério apreço por essa raça autóctone dos trabalhadores-estudantes, a qual integro humildemente desde que me conheço. Trabalhar para ganhar o sustento e para ganhar recursos para se sustentar o eterno processo de aprendizagem. É bonito. Mas não se fala disto.

Li nestes dias um livro, ofereci-o também, é um livrinho-emoção portanto, um objecto que para mim já tem uma historinha, que extravasa o seu conteúdo, por sinal bastante bom. Foi uma recomendação de alguém que sabe das artes de pensar, de uma amiga que muito prezo, que passei a duas pessoas especiais demais para mim, que acabei por procurar para entrar capa e ideias a dentro e que tem feito as delícias das minhas tardes numa leitura de conjunto com o meu filho. Platão e um Ornitorrinco entram num bar...

Penso nas questões de forma e de conteúdo, penso nos preconceitos pseudo-intelectuais sobre livros de grande divulgação e auto-ajuda, penso neste livro se tivesse uma outra capa, com esta sempre escapou, tem ar de livro de pensar, tem ar de livro sério, se tivesse uns bonecos e a capa branca podia ser como aqueles Manuais para Compreender os Homens ou Porque é que as Mulheres não sabem ler mapas ou talvez o Monte Cinco, um livro prodigioso de que só li uma página. Este li-o todinho e estou a reler com atenção. Seguiu um exemplar para Regensburgo, numa mala de estudante, será processado em laboratório e manterá a dignidade da língua portuguesa que, à falta de melhor serve de Pátria, em paisagens danubianas e três meses de muito trabalho.

Esforçados, somos um povo esforçado. Sabemos o que queremos, nunca se deve tomar a nuvem por Juno. A passividade pode ser uma espera. O que sempre é, convenhamos, inteligente.

sábado, 6 de setembro de 2008

O meu nó direito



"É muito difícil abarcar um universo onde as nossas rotinas andam misturadas com os nossos sonhos
e com a tal harmonia do mundo onde espero esteja prevista a nossa alegria." António Alçada Baptista



Serve para ligar duas estruturas de forma suave mas firme. Nó direito ou square knot é uma espécie de salva-vidas prático e acessível. Tem toda uma lógica, ou as lógicas todas que lhe quisermos encontrar, tem, também, que ser compreendido. Compreende uma ou duas cordas, fitas, tiras, estruturas, e une-as sem prender, o nó preferido de quem gosta de harmonia e pretere vínculos. Quase mais laço que nó, na verdade. Mas palavras são palavras, ou haverá grande diferença entre encantar e espantar, a não ser na alma de quem admira ou surpreende? As artes de ser e de estar no mundo são complexas, nós cegos que doem e cortam o ar.

O meu nó direito é verde e foi dado e ensinado num dia de esperança. Só se ensinam artes de sobrevivência (só se aprendem artes de sobrevivência) com a quantidade exacta de luz no verde, a proximidade de paragens afectivas, os fios que nos teceram e os que nos tecerão, na medida exacta de alquimista sábio.

Gosto dos dias em que me aprendo. Hoje aprendi o meu nó direito.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Ruído visual

Tenho estado desde o fim-de-semana a imprimir Braille. Para chegar aos dedos, a informação passa por estádios diversos, como uma esperança de sucesso...

Primeiro tem que ser tratada e adequada aos seus destinatários. Há descrições que podem e devem ser alargadas e específicas, sobretudo as que falarem das impressões visuais ou descreverem imagens anexas ao texto que acompanham. Há palavras a limar, há descrições visuais explicadas por metáforas também visuais que são redundantes e não têm qualquer significado. É apenas um saudável exercício de nos colocarmos no lugar do outro, aquele exercício de sair do nosso espacinho protegido e aprender a comunicar sem ser para nos vermos ou ouvirmos. É um reaprender a ser e a dizer mais completo, sem amarras ou subsídios à comunicação parcial ou em voga.

De resto, nada mais de complicado, excepto estar em linha de produção com três impressoras - uma produz o harmonioso ruído de 80 decibéis (nos dias de boa disposição). E unir texto em braille, imagens relevadas e cor, para que o conjunto - neste caso específico- posso ser do usufruto de grupos de pessoas com várias capacidades e incapacidades ligadas ao sentido da visão.

As palavras são manhosas: uma capacidade é uma potência, uma eficiência é um exercício. Usualmente não me perco pelo dicionário politicamente correcto, gosto de gastar o meu tempo por caminhos mais capazes, uso termos directos e relativamente consensuais quando falo de pessoas, mas sobretudo tento falar de pessoas e não dos seus olhos, pernas, braços. Porque a nossa identidade é composta mas ultrapassada pelas suas características.

Penso no barulho que uma das impressoras faz neste momento em que escrevo, a chamar-me para ir ordenar e encadernar os exemplares, revê-los (deve-se rever o Braille, de repente salta uma gralha, de repente salta uma misturada de códigos).

Ficam bonitos os livros de sentir...

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Quando as palavra são demais


Falam os olhos e as mãos também, e assim os caracóis soltos do cabelo, se for uma criança ou alguém muito puro que nos cai no colo e se cuida porque sim.

Quando não se fala é-se expressivo demais, pode-se chorar ou sorrir ou dar a mão. Com medo ou sem. O medo tempera a ansiedade, a calma chega depois, como um parar de respirar porque não é mais preciso.

A arte do silêncio e o romantismo que dela faz parte foram abandonados há muito. Nos primórdios do cinema, a mensagem era tão nítida que o mundo tinha contornos de tabuleiro de xadrez, exactos, os bons, os maus, o longe e o perto. Em décadas, o som invadiu as telas e as próprias imagens passaram a ser múltiplas e previsíveis.

De vez em quando temos dias surpresa que não sabemos donde chegam. A mensagem vem do espaço ou de perto, a origem não interessa, o mundo fica, de facto melhor. As princesas da cidade também passeiam livros de colorir sem legendas, a princesa Pixar anda a dar cartas.

Dias de rir e sorrir, de parar e silenciar, de recordar tradições, renovar infâncias e amar de manhã ao entardecer do dia, de beijar a lua por um quadradinho da cerca que saltamos quando queremos.

Somos do tamanho do que vemos e não da nossa altura. Em poucas palavras, explicam os poetas que queremos ser.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Hoje, o mar


Espero sempre em Agosto as grandes calmarias quentes, gosto de mar, gosto de quem gosta de mar, desejo sempre o mar verdadeiro, com ondas, com canções de longe, com rugidos que nos agarram. Esta manhã o mar estava feroz onde se esperava calma.

Têm sido uns dias agitados e noticiados, entre éticas e pragmáticas, desesperos e embates, raças e justiças, lembro uma entrevista de António Lobo Antunes à Ler+ do passado Maio, em que explicava porque se sentia incapaz de ser figura pública e falar de acontecimentos que não os seus, que a sua razão era só a do seu trabalho e o resto, opiniões pouco credíveis (citado de cor e mal, mas o sentido, para mim, foi este).

Está citado de cor e mal, mas parece-me bem, que eu não sou contra raças nem credos nem diferenças - até que trabalho diariamente com este último conceito - mas também não sou contra países nem contra desporto, apenas contra as pequenas e grandes hipocrisias do nosso mundo e da nossa sociedade globalizadora de gentes.

Olho para as células criticantes e analiso-as: famílias que gritam entre si em praias sujas, famílias que gritam entre si em centros para comerciar, crianças que se esquecem de olhar o mar e brigam por uma qualquer coisa dispensável à sobrevivência da poesia, crianças que exigem junto ao mar. Gente poderosa, os senhores do mundo, a brincar a um deus enraivecido que não existe a não ser em proveito próprio e comovemo-nos com quê (até a criança que en/cantou na abertura dos Jogos não era a pequenina que vimos, mas uma menos perfeita que ficou atrás de um microfone porque não era uma perfeita demo da sua raça).

Esta subversão do mundo é muito triste e o mar ruge proporcionalmente às nossas irracionalidades, interesses comezinhos, desumanidades. Basicamente o mar ruge ao egoísmo. Para que o ouçam e percebam que os outros se devem sempre ouvir. Sempre.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Para lá do óbvio

Os blogs portugueses são mais do que os que conhecemos. É disso que falo. Da nossa incapacidade para procurarmos mais além. Da nossa omissão em relação aos outros. E das nossas conclusões sobre um geral que não é geral, sobre uma humanidade conveniente.

Os bloggers trazem aos seus espaços as suas impressões e sentires sobre tudo ou sobre os nadas que importam. Leio com agrado muitos blogs, acompanho alguns fóruns de discussão e não gosto de sentir separações vãs. Existem blogs de texto e com um interface simples para ser ouvido por leitores de écran (o software que converte toda a informação acessível que é passível de visualizar no écran para output audio ou para linha braille). Esses blogs estão reunidos num portal que tem informações preciosas para aprendermos a lidar connosco mesmos (ou seja, também com o outro, o que é fundamental, se temos pretensão a humanidade).

Nos blogs do lerparaver fala-se tudo o que se fala nos blogs Blogger ou Wordpress. E é por isso que é importante tê-los em conta quando falamos de blogosfera portuguesa.

Quem não vê, lê com os ouvidos ou com a ponta dos dedos e, apesar dos ainda inúmeros preconceitos, está na vida de forma activa e participante. Não são os sentidos nem a sua ausência que fazem de nós pessoas estruturalmente diferentes. As pessoas são diferentes desde que existem. Felizmente e criativamente diferentes.

Ler para ver.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Cão que ladra!


... não morde, dizem, mas incomoda muito. Ladra o cão por razões várias e, também, por razão nenhuma. Porque lhe apetece, porque não tem mais que fazer. Para chamar a atenção ou o dono. Porque passou outro cão. Porque é de noite e ouviu um barulho.

Ladra-se, então, por medo e por coragem. Porque se quer dizer alguma coisa (mas o ladrar não é idioma, é mais tipo apelo). No caso do cão, apelo à comida ou às festas. No caso do cão sem tino, ladrar é mais tipo vocação, perdeu o tino porque perdeu o Norte. Mas não a voz.

Ladra-se porque se quer refilar ou com saudades que refilem connosco. Todos gostamos de ser orientados. É mais fácil que orientar. E bastante preferível a esperar. No fundo ladramos porque insatisfeitos com a ausência de adversários que nos animem ou com a falta de motivação em nós mesmos, ladramos sempre, sobretudo, porque não encontramos o que procuramos, mesmo que seja a paz que perdemos.

Todos os motivos externos são bons para ladrar. E ladra-se porque se sabe muito bem que não há razão nenhuma para morder.

O cão desta história existe no cantinho de nós, pelo menos de mim. Ouço-o ladrar quando tenho medo ou quando estou perdida, esquecendo-me que parte das vezes em que me perco é porque simplesmente não estou a olhar para onde devo. Ora se olhamos para os pés ou para o umbigo a perspectiva do caminho fica difícil...

Melhor ladrar quando o dono está que quando dorme. Porque as festas também se merecem. E a persistência e a atenção fazem parte de se ser feliz. Pelo menos, são as qualidades que nos encaminham. E para guiar, convém saber ser guia.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Horário de Verão


Hoje é dia de escrever e de me pensar. De fazer planos e de recapitular. Bom conselho encontrei nesta imagem, aproveito a folga de trânsito e o menor movimento de gentes para encontrar o tempo de ler e de estudar que me falta. Também, o de reflectir. Penso nos dias de verão já corridos e no calor vivido como se o sentisse na pele. Penso no verão que é e no curso de Braille que foi, com o som das máquinas forte, forte, ainda nos ouvidos e as mãos a doer. Nos trabalhos que preparo e nas férias que começo na sexta, sem bem as começar.

Nos fins-de-semana. Nos dias de praia com irmãos mais pequeninos que os sobrinhos, em jogos de King com areia e em serões de esplanada com conversa na mesa e algum café a arrefecer. Penso na areia que a Carlota teve medo de tocar no domingo e nas ondas fortes da maré que regressa e que querem sempre que regressemos com elas e nós a querer ficar.

Ouço os telefonemas de saudades dos que ficam, dos que vão, dos que partem, dos que ainda não foram, como se as férias uma estação de comboio de linhas mais loucas que o Chapeleiro de Carroll e nós com as malas cheias de vidas tão trocadas que nem sabemos se queremos voltar a algum lugar já vivido. Depois as máquinas de roupa como aviões a lavar esperanças e sonhos e empadas descongeladas para um jantar afinal cosy de quem não partiu porque escolheu partir-se e ficar junto.

Sempre gostei do verão. Os dias têm a mania de ser grandes e no entanto alguns bem pequeninos e anichadinhos e meigos que não assustam tanto porque até o por do sol sabe sempre a paz e a lar. É bom chegar ao fim de algo e ao início de outro tanto. Porque hão-de as fronteiras do tempo ser tão impositivas? Veremos se este será um dos melhores verões a recordar, um dos marcantes, um dos que ensinam, dos que não esvaziam. Porque tudo é irreversível, até as estações que nunca são iguais e todos sabemos, porque tal nos ensinaram, e nós o aprendemos, que já nada muda como soía.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Ou então sim...



Há blogs que são sorrisos. Uns porque nos fazem meditar, reflectir, ficar felizes porque lemos um texto bonito e sentido ou pragmático e incisivo. Outros porque sim. Há que blogs que sim. Pelas escolhas de música, pelos poemas que divulgam e que não conhecíamos, pelas ternuras que publicam. Ou só por existirem. Alguns, têm pessoas transparentes por trás. Outros, pessoas que identificamos com um rosto e uma personalidade que bate certo com tudo o que de lá nos chega. E com datas. Hoje é o dia de um dos blogs que visito com mais gosto. Porque sim.

Parabéns, Pyny. E boas férias!

quinta-feira, 17 de julho de 2008

(A)palavrar


É o que fazemos por aqui. Apalavramos. Ideias e ideais, opiniões mais ou menos fundamentadas, equilíbrios. Apalavramos projectos e conceitos. Apalavrar é bonito, soa a compromisso, mas pode tornar-se vago. Que ética existe pela blogosfera? Somos todos uma bonita transparência, mais rentável que isto é difícil. Começamos por escrever as nossas verdades, depois alimentamo-nos de palavras calibradas, orientadas, quase pedidas. Ousados, ousamos (ousemos).

Apalavrar deveria ser bonito, soa a casamento ou a acordo de cavalheiros, as palavras, afinal, valem o que valem. Quando se cruzam, está o caldo entornado. Quando se repetem, tornam-se óbvias. Perdeu-se a magia? Ou a palavra?

Não o creio. Há males que perseguem a humanidade, um deles é a arte da fuga. Mas a palavra, senhores, é sagrada, honremo-la. O que escrevemos que seja a nossa verdade. Uma verdade apalavrada, temperada, pessoal, criativa. Mas de palavra, palavra de honra, que o virtual não se destina a temporalidades nem a certezas, mas quem o emite é de carne e osso.

terça-feira, 15 de julho de 2008

?




Nunca sei como é que se pode achar um poente triste.
Só se é por um poente não ter uma madrugada.
Mas se ele é um poente, como é que ele havia de ser uma madrugada?

Alberto Caeiro

domingo, 6 de julho de 2008

Precious

Foi um livro e depois uma cor. O Hobbit tinha consigo um anel e dois nomes, Tolkien e Ralph Bakshi. E uma data: 1978.



Muitos anos depois, os homens da terra média construíram outro filme que não quis ver durante tempo a mais. Nestes dias em que pouco escrevi, em que pouco viajei, encontrei outro Gandalf e outro Frodo, outras paisagens do Shire, outras batalhas de cores menos vermelhas mas não menos belas.

A história, como uma paixão, fala dos homens e das causas, fala de nós e do que de nós lá quisermos rever. Fala de ambição e de humildade, de coragem, de lealdade, de amor. Fala de grandes e pequenos que se unem e desunem, fala de gente diferente e de gente especial e ainda de gente que se esqueceu de ser gente. É, talvez, uma história que fala muito bem da eterna história dos que ousam ser homens.

Com menos vermelho e menos sombras, sem o sobressalto do livro que é, ele mesmo, uma procura, revivi a história do anel poderoso que derrete ao calor do esforço, do idealismo e da coragem.

Precioso é o intangível, obviamente.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Caminhos de cor


Não entendo nada da vida a não ser este ridículo pesar do amor em tudo o que procuro, os caminhos de cor, procuro sempre os caminhos que sei de cor. Nos meus percursos, nas minhas empatias, nas pessoas que conheço ou reencontro, encontro sempre uma Maria longínqua que gostava de ter sido, uma espécie de Maria que foi e ainda será, um espelho fosco dos meus ideais nos outros que vou admirando ao longo da estrada.

São de cor os caminhos e as pessoas que me procuram - ou, provavelmente, as que me encontram. São de cor as músicas que ouço, os filmes que vejo, os livros que leio, como se nada de novo houvesse, realmente, debaixo do sol que me aquece de verdade.

É bom um dia em que me cruzo com seres admiráveis e sem idade, com história tão díspares como galáxias, tão harmoniosos como Stairway to Heaven que ouço enquanto os dedos escrevem por mim e me pensam um bocadinho mais claro, com um bocadinho mais de cor.

É bom um dia em que me recordo, em que sei de cor, os passos dados noutros dias com o mesmo nome, dias de descoberta, de encontros com sentido, com sentidos, com sentires, mais que arco-íris dentro de vidas, mais que verões por chegar, adiados, conhecidos de cor antes de acontecerem, esperados, sofridos, esperançados, caminhos de cor, caminhos de cor, quantas vezes passamos por aqui sem nos vermos?

Sabermo-nos de cor é deixarmo-nos colorir com o coração que bate em nós e nos outros, que descompassa ritmos de crianças que se não envergonham de o ser, é deixarmo-nos amar, é sabermos o não e o sim que combinam com os sonhos que temos desde que respiramos e é encontrar sempre algo perdido, sabido e esquecido e voltado a saber, a sabor, de cor, com o coração.

Dar cada passo como o primeiro e o último, como o início e o desespero de cada tentativa, caminhar de cor, caminhar de cor, saberemos orientar-nos, de verdade, noutra direcção?

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Paratodos


"Não há ventos que não prestem

nem marés que não convenham

nem forças que me molestem

correntes que me detenham."

António Gedeão


Para todos os que puseram a bandeira à janela para os jogos da selecção e escreveram lençóis de tinta ou terabites de comentários a respeito, para todos os que ajudaram a parar o país para reunir força moral para os nossos jogadores, para todos os que ontem se entristeceram, para todos os que assistirão aos jogos olímpicos, para todos os que batalham e desistem, para todos os que não aprendem a lutar com as características que realmente têm e não com as que gostavam de ter, para todos os que alguma vez desanimaram, para todos os que já desistiram um dia, para todos os que não chegaram a tentar, para todos os que não os conhecem, para todos os que não acreditam:


deixem-se guiar.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Ups




"After Jacob had worked for Laban for seven years,
do you know what happened?
Laban fooled him and gave him his ugly daughter Leah.
So to marry Rachel, Jacob was forced to work another seven years.
So, you see, children, the Bible clearly teaches us
you can never trust an employer."

Perchik's lesson in Fiddler on the Roof

Claro





ainda não é por isso que choramos às vezes
e que outras somos heróis a valer


Planeta Tangerina a rimar com António José Forte

Há dias.

domingo, 15 de junho de 2008

Bio-afectos


Ando farta de gente fria a debitar jornalismo escrito e falado. Que é isto de pais biológicos, famílias biológicas? O termo entrou na moda e entrou mal. Os meus pais não se limitaram a conceber-me, acompanharam o meu crescimento, amaram-me (amam-me), apoiaram-me (apoiam-me). Não sei que é isso de pais biológicos, a herança genética existe e pode gerar empatias e simpatias entre os membros de uma família, mas não existe sem afecto. O acto de conceber é - devia ser - um acto de amor. Por isso, quando vejo casais a preparar a chegada dos seus bebés, fico enternecida. Por outro lado, conheço muitos casais que não querem ou não podem ter filhos. E não se amam menos por isso. Conheço ainda casais que adoptaram o(s) seu(s) filho(s). E são família, igualzinha às anteriormente mencionadas.

Tal como não me parece justo que se diga que os pais que adoptam os seus filhos são menos pais que os que os concebem, também me parece discriminatório que se pregue o contrário. Nas revistas cor-de-rosa (e nos programas cor-de-rosa, uma manifestação de interesse sociológico-depressivo que descobri recentemente) são elogiados os VIPs que adoptam, como se parecesse mal não ser exercida uma caridade universal, um amor alargado, um endeusamento da função familiar. Penso em quantas desses crianças não crescem pela mão de baby-sitters, seguranças...

Ser pai é ser pai e ser mãe é ser mãe. Um filho gerado e um filho adoptado são filhos e ponto final. A herança genética indica os nossos progenitores. É uma leitura simples e directa. Não fala de afecto, de preparação, de desejo, de expectativa, de sacrifícios. Por isso, herança genética temos todos, nem todos temos é amor nas memórias de infância. E o amor tanto nos chega do coração dos pais que nos geraram como dos que nos assumiram como filhos.

O que me leva a outra linha de pensamento: a retórica subjacente a estes assuntos é doentia. Como se os pais ditos biológicos tivessem que gramar com as criancinhas que lhes saem na rifa e os pais ditos afectivos tivessem escolhido cuidadosamente quem vão receber em casa e na vida.

Não se escolhem filhos. Não é um namoro, boa? É um amor tão incondicional que ultrapassa critérios. Por isso também não compreendo os problemas que existem em termos de limite de idades para adoptar, problemas em adopções feitas por uma só pessoa ou por pessoas que vivam em uniões de facto que, de facto, a nossa sociedade vitoriana ainda não assuma. Se não se escolhem filhos, muito menos se escolhem pais...

Já passei por um processo de adopção. Desisti no momento em que vi circundada por questões preversas. Não estava a escolher um animal de estimação, não estava a escolher a cor de um carro, não estava a escolher a roupa social que me iria caracterizar, nas idas ao café, de mãozinha dada comigo. Estava a manifestar ao estado português a minha disponibilidade para acolher na minha vida uma criança que não tivesse pais, estava a manifestar a minha disponibilidade para aceitar uma criança com herança genética diferente da minha, como minha filha.

Respeitem-se as estruturas familiares, independentemente da sua origem e constituição. Famílias biológicas, afectivas, biológico-afectivas, biológicas-e-nem-por-isso-
afectivas... Famílias são equipas que moram e se constroem em conjunto. Sem mais definições sobre DNA, orientação sexual, credos ou berços. Com tudo o que de lato e de concreto caiba no conceito.

Família é a moldura da nossa identidade. Respeite-se.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

"Madness with method"

Hamlet, Acto 2, Cena 2.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Corridas

Pelas notícias de hoje, fosse eu criatura de senso e teria passado a manhã a encher o depósito do carro e a dispensa. É certo que tudo está inflaccionado e que a vida não está fácil para a raça dos trabalhadores. Mas será correcto este movimento preverso de desinformação e consequente pânico consumista?

Serei certamente ingénua. Mas não me parece que o reabastecimento de Chocapic e de gasóleo me dê mais conforto ou autonomia, sobretudo não resolve questões económicas nacionais que devem ser pensadas.

Correm hoje, os portugueses, entre praias, bombas de gasolina e supermercados. Nem têm tempo para pensar se são felizes ou se podem remediar problemas nacionais ou supra-nacionais votando mais vezes e sobretudo votando mais esclarecidos. Porque os quadros directivos desta empresa em que nos albergamos são eleitos por nós. E corremos para todos os lados consoante o vento e as notícias frescas, sabendo, esclarecidos, que não é a raça que se celebra hoje, sacudindo as bandeiras nacionais por causa de um campeonato em que queremos ganhar mais que competir, ficcionamos participações e liberdades, activismos e causas.

Faltas? Só se for de senso. A minha raça, se o conceito existe, é a humanidade. Não sou superior nem inferior a ninguém, os meus padrões de avaliação não são comparativos com características físicas ou nacionalismos baratos, centram-se em mim mesma e nos meus valores.

Em tempo de crise trabalha-se mais. Em tempo de prepotência prepara-se a mudança. Não me parece que correr na direcção do nosso umbigo nos salve ou redima de algo. Nao me parece sobretudo que correr nos encaminhe na direcção de soluções que residem em nós mesmos.

Vivemos entre anacronismos e ficções. Quem cuida do nosso presente?

domingo, 1 de junho de 2008

Dia dedicado


"Aos filhos dos homens que nunca foram meninos."

Soeiro Pereira Gomes, Esteiros.
Ilustração da capa de Álvaro Cunhal.

domingo, 25 de maio de 2008

Para a outra margem


O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o tejo não mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o tejo não é o rio que corre pela minha aldeia,
O Tejo tem grande navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

Alberto Caeiro


Na minha aldeia ama-se e quando as nuvens fazem frio destapamos o sol para que as crianças possam brincar melhor. Na minha aldeia é sempre verão. Na minha aldeia há um rio que é mais belo que o Tejo quando não é o Tejo mas muitas vezes é o Tejo e nele nos embalamos pela tarde fora, devagar.

Na minha aldeia não se corre, seguem-se os ponteiros devagar, há tempo para parar e deixar os outros correr, uns correm porque sim, outros nem por isso. As casas tem nome, mesmo que seja um número e as pessoas deixam o nome escrito nas janelas para que todos os lembrem quando foram apanhar o sol ou pintar os barcos que descem o rio até ao outro lado.

A minha aldeia tem dois lados, um lado de dentro e um lado de fora, para que não seja fácil, que os caminhos fáceis cansam e desanimam, quem gosta de levantar a cabeça para sonhar e bater no horizonte ali tão perto? O horizonte quer-se largo e longe, para que se navegue até cansar. Então se páram os trabalhos, num abraço, num cansaço de fim-de-dia a pedir colo, numa cama, numa casa com vidrinhos, talvez uma colcha de rendas, talvez uma flor. A minha aldeia tem um jardim onde as pessoas são flores e sorriem quando se passeia onde já foram.

Hoje, na minha aldeia, a tinta do sol e o rio levaram-me de mim, despida de lágrimas, encharcada em sol e em calor, a um onde em que encontrei o outro lado de um sonho e pintei outro horizonte.

Quem está ao leme não é mais feliz que quem se deixa navegar para a margem de si.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Diz


Diz homem, diz criança, diz estrela.
Repete as sílabas
onde a luz é feliz e se demora.


Eugénio de Andrade

domingo, 18 de maio de 2008

Quero


Quero uma vida em forma de espinha
Num prato azul
Quero uma vida em forma de coisa
No fundo dum sítio sozinho
Quero uma vida em forma de areia nas minhas mãos
Em forma de pão verde ou de cântara
Em forma de sapata mole
Em forma de tanglomanglo
De limpa-chaminés ou de lilás
De terra cheia de calhaus
De cabeleireiro selvagem ou de édredon louco
Quero uma vida em forma de ti
E tenho-a mas ainda não é bastante
Eu nunca estou contente


Boris Vian (1920-1959)

domingo, 11 de maio de 2008

Um caso sério!


Isto de se ser crescido é um caso sério! Perde-se a benesse de brincar e quando brincamos parecemos engravatados a dizer piadas de infâncias desmerecidas. Por outro lado quando falamos sobre brincar a sério ninguém nos dá credito porque já não estamos em idade de brincar, excepto, claro, quando é a brincar. Todos queremos ir - muito mais que os nossos filhos - ver o Indiana Jones, eterno herói. Todos queremos ser heróis e desafiar o mundo e, sobretudo, os maus. Todos queremos ser bons. Na realidade somos professores severos, pais que ralham, filhos que se esquecem, profissionais que se atrasam. Eternos endividados à banca das emoções, vingamo-nos com fato completo e capa aos fins-de-semana quando damos uma corrida pela praia e dois pontapés na bola, julgamo-nos livres, que bons actores somos para nós mesmos.

Um caso sério ser crescido e querer tanto, ainda, brincar. Um caso sério amanhã ser segunda-feira e termos brincado ao fim-de-semana em vez de o viver com a sabedoria que os anos que já caminhámos nos deviam permitir usufruir. Sem medo de decisões e justiças, sem medo de enfrentar consciências, sem medo de sorrir, sem medo de ter opinião. Sem medo de sermos nós quando necessário. Sem medo de brincar a coisas sérias quando nelas acreditamos.

Porque se pode ir de gravata comer um hamburguer ou de calções ter uma reunião, não vestimos a nossa personalidade por medo, as roupas são apenas um invólucro, não uma defesa. Porque se pode cantar no duche mas também na rua, porque se pode e deve abraçar e beijar as pessoas que nos rodeiam, porque se pode correr e ser alegre.

Um caso sério querer dar destino a resmas de ternura, querer ser apaixonado, querer o mundo e ter que se ficar pelo GoogleEarth, olhar a lua de longe e ninguém levar a sério nada do tudo que queremos.

Por isso, também, às vezes, nos podemos zangar. E não é a brincar, é a sério. É muito a sério assumirmos o que somos e o que sentimos, sermos coerentes connosco e fiéis a nós mesmos, não termos medo e sobretudo viver sem ter que parecer, não apenas parecer viver ou viver a parecer que sim.

Um caso sério, sermos nós.

sábado, 10 de maio de 2008

Famosos anónimos


Um projecto fabuloso.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Reflexão tardia

Fotografia de Hellen Keller em 1888 (NFB)


Chego tardia a um encontro de reflexão proposto pelo Miguel, grande amigo e grande dinamizador da blogosfera. Pede-me o Miguel seis palavras que tenham um significado especial. Pelos meus interesses pessoais e pelos meus afectos, porque tudo o que é causa é o nosso âmbito querido para questionar, lembro seis palavras de Hellen Keller:

O que procuro está em mim.

O que é uma longa procura e nos faz pensar que há muitos Principezinhos por este mundo, valorizando os invisíveis cheios de significado, elevando os sentidos à sua justa medida e sobrevalorizando-lhes o sentir interior. Nas suas palavras, também, nada há de mais terrível que poder olhar e não ver. Ou ainda, melhor caminhar na sombra com um amigo que sózinha na luz.

Tudo é relativo. Tudo é passível de interiorização. Tudo pode e deve ser questionado. Todas as nossas capacidades estimadas. E todos os nossos esforços conduzidos na direcção de nós, enquanto membros de direito da família Humanidade.

Não adianta correr para chegarmos a nós...

terça-feira, 29 de abril de 2008

*Peter*


"Of course, it also shows that Peter is ever so old, but he is really always the same age, so that does not matter in the least. His age is one week, and though he was born so long ago he has never had a birthday, nor is there the slightest chance of his ever having one."

J. M. Barrie, The Little White Bird, 1902.

domingo, 27 de abril de 2008

O voo das abelhas nos dias rápidos demais















Tantos dias sem escrever, tantos dias com os movimentos parados, olho o voo das abelhas em torno da minha janela, lembro o cidadão Muybridge, um artista, que se dedicou a parar as acções, analisar os tropeços e inconsequências das coisas banais e de outras que importam fixando-as atentamente, sabendo olhar e ver e mostrar.

Outros escreveram nestes dias, outros cidadãos, Kátia Catulo, bom trabalho, saber ouvir.

Dias de recordar o que é escrever e não poder ser lido, dias de recordar o que é compor e não poder cantar. Merecia bem mais empenho a cerimónia de dia 25 na RTP 1. Mas chegou-me ouvir a Pedra Filosofal (en)cantada por Manuel Freire e sentir que valia a pena.

Para lá do visível são as sensações, dias cheios, dias férteis, ressaca de coisas a mais, ressaca de mim, olho o livro de outros passeios sem ser o de Kátia, olho a capa que guarda a narrativa do cego Holman.

Nos dias que guardam muitos dias, dias a mais, o tempo nunca é de menos para sentir a persistência dos homens.

sábado, 19 de abril de 2008

Prender


Comecei um post, depois de pensar em vários, divago demais, pesam-me os últimos dias, embora esta tarde morna a ameaçar arco-íris me console. O dia meio doce e meio amargo, vontade de abraçar quem não está, vontade de me despreocupar de mim. O jantar cá em casa é frango, refeição que estica em canja e arroz acrescentado para mais cinco, e vou ser aparentemente arrastada para a Cinemateca, Betty Boop ainda a seduzir. É uma tarde que tarda em palavras e se as não escrevo escapam-se-me, melhor fixá-las. Sorrio com Calvin e penso nos caminhos kafkianos da minha semana, nesta liberdade falsa de não ter que fazer, na explicação de francês, na estrutura do curso, na arrumação de um armário, nas notícias que tardo receber, no carro que virou a matrícula e é o mesmo, na identidade do bilhete, neste bilhete que escrevo por aqui para me lembrar que sou, sem me perder numa gaveta ou numa rotunda, vou ao cinema depois de jantar, esperam por mim, tomarei café numa esplanada com chuva, dormirei a sonhar com bonecos que dançam, dançarei até segunda-feira, criançarei pela semana fora, melhor deixarmo-nos levar pelas coisas e pelas palavras, como folhas, como se líquidos, como se a vida nos escorresse de uma alma que ainda não conhecemos e esperar num cantinho de nós que soltem o arco-íris e nos deixem, de um suspiro só, ser felizes.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Descansar


"Sabes? Eu sei de um modo de descansar quando quiseres... O teu planeta é tão pequeno, que podes, com três passos, dar-lhe a volta. Basta andares lentamente, bem lentamente, de modo a ficares sempre ao sol. Quando quiseres descansar, caminharás... e o dia durará quanto queiras."

Antoine de Saint-Éxupéry, O Principezinho.

Fragmento 117

"A maioria da gente enferma de não saber dizer o que vê e o que pensa. Dizem que não há nada mais difícil do que definir em palavras uma espiral: é preciso, dizem, fazer no ar, com a mão sem literatura, o gesto, ascendemente enrolado em ordem, com que aquela figura abstracta das molas ou de certas escadas se manifesta aos olhos. Mas, desde que nos lembremos que dizer é renovar, definiremos sem dificuldade uma espiral: é um círculo que sobe sem nunca conseguir acabar-se. A maioria da gente, sei bem, não ousaria definir assim, porque supõe que definir é dizer o que os outros querem que se diga, que não o que é preciso dizer para definir. Direi melhor: uma espiral é um circulo virtual que se desdobra a subir sem nunca se realizar: Mas não, a definição ainda é abstracta. Buscarei o concreto, e tudo será visto: uma espiral é uma cobra sem cobra enroscada verticalmente em coisa nenhuma.

Toda a literatura consiste num esforço para tornar a vida real. Como todos sabem, ainda quando agem sem saber, a vida é absolutamente irreal, na sua realidade directa; os campos, as cidades, as ideias, sao coisas absolutamente fictícias, filhas da nossa complexa sensação de nós mesmos. Sâo intransmissíveis todas as impressões salvo se as tornarmos literárias. As crianças são muito literárias porque dizem como sentem e não como deve sentir quem sente segundo outra pessoa. Uma criança, que uma vez ouvi, disse, querendo dizer que estava à beira de chorar, não «Tenho vontade de chorar», que é como diria um adulto, isto é, um estúpido, senão isto: «Tenho vontade de lágrimas». E esta frase, absolutamente literária, a ponto de que seria afectada num poeta célebre, se ele a pudesse dizer, refere absolutamente a presença quente das lágrimas a romper das pálpebras conscientes da amargura líquida. «Tenho vontade de lágrimas»! Aquela criança pequena definiu bem a sua espiral."

Bernardo Soares

terça-feira, 8 de abril de 2008

Onde estás?

E murmura para si:
Nada sabem das coisas do fogo.
Os dons mais profundos do
homem murcham dentro deles.
Deverei amá-Ios?


Herberto Hélder



Isto de se morrer de repente é estranho de mais, onde estás, Paulo? Fiquei um bocadinho zangada com a vida, tu não deixarias, farias o teu sorriso tímido e engasgar-te-ias entre o tratar-me por tu ou por você, eu refilaria contigo logo de seguida (então!). Julgo que me não deixarias zangar com a vida, que me dirias para continuar no caminho e fazer o meu melhor deste percurso cheio de curvas e alguns abismos. Fiquei um bocadinho zangada com a vida que te trouxe por perto e que me fazia sorrir de manhã com uma rosa no messenger ou um arco-íris e aqueles bonecos animados que tu escolhias com o tempo de quem tem tempo para pensar nos outros e no que os faz sorrir. No tempo de quem tem tempo para ter cuidado.

Procuro as tuas folhas, os quatro textos que me deste quando almoçámos, quando num dia de sol passeámos e falámos de coisas importantes e de outras sem importância nenhuma, no dia em que me perdi por Setúbal e te liguei do estádio do Vitória e me foste indicando o caminho por telemóvel com uma paciência inédita (nunca exigir o que não podemos, dar de nós o nosso melhor, encontramo-nos a meio caminho).

No dia em que te enterneceste com o JP, no dia em que bebemos coca-cola de lata com uma palhinha e eu segurava no carro o teu corpo que se desfazia com os solavancos, um corpo que era teu e que tu vias de longe, a cadeira que tinha um tabuleiro que eu não sabia arranjar e tu ensinavas, o teu corpo tão leve como uma pena, tão leve como um bebé muito leve (lembraste-me, sabes, a leveza, a cor, acho que sabias e nunca te contei, acho que leste as minhas feridas de guerra).

Os teus textos, o teu amor pela escrita, as folhas - trazes, Maria? - encaixadas num livro pelo teu companheiro de quarto sem voz, só ternura, tapando a cara, olhando com olhos de longe, com olhos de medo, depois mais perto, depois a mão e um sorriso cheio do amor que precisava, um sorriso como um abraço, uns olhos muito claros, de ver um mundo que nós não temos o privilégio de ver. O livro era Os Passos em Volta, de Helberto Hélder, capa cor-de-laranja - também gosto muito, como não? - as outras folhas eram histórias, um caso de apoio que tinhas prestado a um companheiro de casa, um texto sobre a condição de deficiente, dois textos sobre a escrita, procuro-os sem cessar entre os papéis sobre a minha mesa e teimam em não aparecer e preciso tanto deles para ouvir a tua voz.

A voz que mantiveste bonita, a voz calma - podes-me arrumar o corpo? - de sábio, de pai de uma tribo, a voz que entrava no jogo da fantasia ou no pragmatismo da acção e porque dói tanto pensar agora no telefonema que fiz para o teu nome, Paulo Rilhó - Paulo Rilhó - que a tua mãe atendeu e eu sem crer que era a tua mãe, onde estavas, e eu ontem no carro com chuva, depois de dias sem rosas no messenger e sem arco-íris, depois de preocupada com um telefonema de um amigo comum. A voz não era a tua, nunca compreendi como mantiveste a voz pura e clara como a escrita, mas ainda bem. A voz não era a tua, já não a tinhas, já não a tens.

Agora não sei onde estás e preciso tanto de te falar da entrevista de emprego do Luís, do computador da Inês, da feira deste fim-de-semana, temos os contactos com as associações e tens que me ajudar a preparar uma das aulas, lembras-te? Sem voz, Paulo, como vamos fazer, meu querido? Como vamos preparar a reunião de Maio, com todos os do grupo? E a carta para as Fundações? Como irei buscar a tua cadeira vazia para dobrar no meu carro e passear até ao Tejo, em dias de azul, sem a voz entre almofadas negras, sem a voz, sem as mãos pequeninas - pões-me a direita sobre a esquerda, por favor, Maria? - e o livro ao lado, as fotografias que tirámos, tu a indicar, eu a carregar no botão.

Como vou fazer para dizer a todos os que te amam que a tua voz foi com o teu corpo para o mundo das memórias e o livro de Herberto Hélder ficou fechado, com os teus textos a marcar as páginas? Como vou sorrir de manhã sem as rosas no messenger e os projectos na alma?

Talvez o teu corpo liberto agora, a voz sussurra-me perto que estás, as mãos mexem-se de novo e acho que me abraças porque a vontade de chorar passou e me apetece beber coca-cola numa esplanada junto ao Tejo e fazer planos de mudar o mundo.

Para mais perto das pessoas belas.