domingo, 24 de abril de 2016

A publicar desde fevereiro de 2005.

Foi quando comecei o meu blog. Acabo de o reler na íntegra e, como tal, reler dez anos da minha vida. Acompanhou-me quando trabalhava nas minhas duas teses, quando não tinha sono e me preocupava, quando o mundo funcionava mal e agora não funciona muito melhor, afinal. Foi o meu afago no ombro quando as coisas corriam menos mal, quando a vida parecia tomar rumos que me apeteciam. E afinal os rumos já estavam todos decididos e eram outros por muito que eu gritasse e gritei bastante. Quando não estava a olhar iam-me tirando pessoas, outras partiam, outras nunca chegaram, realmente, a estar. 
Com que se fica, de dez anos de escrita pública? Com um sabor a incógnito, com um dever de me reexplicar o que aconteceu em todos os dias de escrita, por que foram aquelas as palavras tomadas e não outras, porque foram aqueles os sorrisos ou as lágrimas ou o medo. Tudo o que faz uma década, soubesse eu em fevereiro de 2005 o que sei hoje e não teria escrito uma linha, teria aproveitado o tempo de outra forma, teria guardado dentro de mim, egoísta, tudo o que vivi, teria apanhado cada segundo com uma rede e escondido tudo de todos para que nada faltasse dez anos depois.
Claro que o sol é o mesmo e hoje o céu está azul. Acabarei agora a minha escrita? Faço 50 anos daqui a semanas. A frase que me ocorre é a que já não tenho idade para estas coisas. Já enfrentei a vida vezes a mais, umas vezes ganhei, outras perdi. Estou enfraquecida, frágil, quebrada. Ao mesmo tempo tenho tantas coisas pelas quais posso e devo dar graças. 
As memórias, essas, passeiam por mim de vez em quando, quase todos os dias, umas aquecem, outras nem por isso. Mas acompanham o ritmo de uns passos cada vez mais medrosos, cada vez mais curtos. Tantas palavras por dizer e escrever. Vou beber um chá e pegar no meu livro. Tenho 49 anos e chamo-me Maria. Tive um blog.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Da raça, da traça, da raiz.

Do que somos feitos. Das raízes que nos lançam para o alto e afinal não chegamos acima como devíamos. Da traça dos arquitectos que nos conceberam, o nosso desenho original, virtudes e pecados. Raça das datas que nos vincam as frontes, que nos escorrem água por dentro, raízes num deserto sem futuro porque não era sós que queríamos continuar a traçar os caminhos. De qualquer forma faz de conta que daqui a bocadinho vou ter consigo para lhe dar os parabéns, Pai.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Dos blogs às redes sociais

Houve uma era dos blogs. Como historiadora, gosto de datar os processos, embora a sincronia não me confunda. Passei serões a escrever, ler e comentar textos, num processo produtivo e quase intimista que me marcou bastante, para o melhor e para o pior (tempo perdido, noites mal dormidas, olhos cansados). Quem não passou pelo fenómeno de alimentar um ou mais blogs e sobretudo de entretecer os seus pensamentos com desconhecidos com cuja escrita se identificava que levante o braço. Os portugueses escrevem e até, na sua maior parte, não escrevem mal de todo. Também não são deprovidos de espírito crítico.
Depois vieram fases piores da minha vida, ausências, tristezas, desilusões, cansaços, e quando acordei desse longo sono estava doente e os blogs tinham murchado. 
Do outro lado da pradaria nasciam as redes sociais via, sobretudo, Facebook, primeiro versão juvenil, depois versão extensa, alargado pela ascenção e queda de Farmville, um jogo que pôs muitos avós a jogar com netos às quintinhas virtuais. E tudo isso foi bom. 
Neste momento há um equilíbrio entre as minhas pesquisas no Facebook pelo estado de espírito ou novidades dos meus amigos, alguns jogos engraçados para descomprimir, algumas leituras mais sérias de grupos de trabalho e os outros fenómenos paralelos mais especializados: o Instagram, para fotografia, e Academia,edu - entre outros - para meios académicos partilharem as suas produções.
Isto da Internet tem destas coisas. Parte-se para comunicar, regressa-se com excesso de informação. E no entanto a opção é nossa e aprendemos isso na era dos blogs. Cada espaço que consideramos pessoal,  a sala internautica de cada um de nós, cada pegada que deixamos, cada rasto, são privados pela produção e pela vontade mas são de todos porque é tudo gratuito e tem aquelas condiçõezinhas que ninguém lê quando abre as contas... 
Privacidade precisa-se sempre, respeito também. Julgo que da era dos blogs para as circunstâncias de um mundo hiper-especializado e partilhado, nós, os adultos do início do século XXI, aprendemos essa primeira lição.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Saudades do futuro...

Passam anos, alguns anos, por exemplo, nove anos. Onde estava, o que fazia, o que pensava. Como pensaria que seria daí a nove anos? Provavelmente saí de casa de ganga e t-shirt, tomei um café, vivi o meu dia. Tinha um filho pequeno, estava separada, trabalhava e estudava. Tinha saúde e conduzia. Tudo muda, tudo passa, tudo dói, tudo marca. Os dias que compoem um conjunto qualquer de anos recentes são uma violenta catapulta para a diferença. Ganham-se pessoas, perdem-se, infelizmente, pessoas a mais, nem que fosse só um amigo com que tomámos um café junto ao rio num dia de sol. Todas as pessoas são tão importantes como o carinho que por elas temos. Nós mesmos, mudamos, mais bocado menos bocado. Entristecemos, envelhecemos, o cabelo embranquece, os olhos afundam onde eram brilho. Tudo sobra porque a vida é muita e tudo escasseia porque passa rápido. O que seremos daqui a cinco anos mais? Como borboletas em histórias de ficção, esperamos sobretudo voar ainda, voar sempre.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Verão

Verão como ontem foi o primeiro de muitos dias de praia, embora não possa apanhar sol, sempre há esplanadas, verão. Verão como sem café e sem cigarros se pode estar numa esplanada a ler calmamente, de chapéu para tapar a cicatriz, com a descontração possível de um gesto velho armado em novidade, verão. Verão como o medo passa com o afagar do mar nos meus pés em quase hora de jantar, como o medo passa dos males e da solidão, como a solidão foge pelas ondas dentro, como o mar acompanha os passos retomados com tanta gente em torno e eu sem os ver, sem os ver. Verão como consigo. Verão como em cada dia uma vida, verão como em cada onda um universo, verão como consigo não sei quê que me sabe a conquista, verão como em cada Verão um eu diferente, mais anos, mais e menos sorrisos, os passos mais lentos, mais cuidados, toda a vida é um despedir do mundo, não veem?

terça-feira, 19 de maio de 2015

Quando nos falta

Quando nos falta um sorriso ou um abraço, quando nos faltam princípios, quando nos falta o esperado do outro com que nos cruzamos, na fila, no café, no trabalho, quando nos falta a humanidade que é básica para o tratamento das feridas quotidianas e que dói mais quanto mais nos falta de perto. Quando nos falta o perto pensamos no que nos falta de verdade. E temos saudades.

domingo, 17 de maio de 2015

Viver perto do mar

Em desfado, em demanda de outras eras, de outras sortes, uma gaivota grita na minha janela recados de um além ou de um porvir porventura esquecidos ou fantasiosos. O mar, essa força, essa potencia, que nos leva o pensamento gelado para uma corrida defensiva de um quotidiano fácil. O mar, que recua se avançarmos ou que nos pode arrastar se lhe virarmos as costas em desrespeito, que o destino fada os incautos a desgraças certas e mesmo os cautelosos não estão livres dessa prisão do imprevisível. Grita a gaivota e foge ou regressa, conforme eu lhe diga adeus ou a acolha como uma dor maternal aceite pelo processo de estar que compete aos vivos. Ouço-a e estou grata pela maioridade das minhas memórias e pelo mar que me puxa e pelas gaivotas que me fazem levantar a cabeça. Mesmo, sobretudo, hoje.

terça-feira, 12 de maio de 2015




Acaba um ano e começa outro por voltas da meia-noite de hoje. Apetece-me o campo e os seus cheiros de primavera intensa. Apetecem-me colos que já não tenho. Tenho que rever um texto e não me apetece trabalhar, nem a mim nem a certas bases de dados que estão em baixo porque talvez eu as tenha contagiado, com o calor, o sol nos olhos da manhã, o entardecer dos meus 48 anos hoje com o real entardecer que começa agora, o meu cansaço de 48 anos a procurar sempre as mesmas belezas e os mesmos sorrisos e faltarem porque a vida não é como se quer. Que fiz eu em 48 anos? Que não terei feito? Que me faltará fazer? Estou demasiado consciente a escrever, escrevo melhor cansada, do esgotamento para as palavras. O calor é assim, fora de tempo, como tantas coisas que nos cercam. Não é fácil saltar o muro, não é fácil desistir de bocados à medida que a idade que vamos fazendo dói porque nos vamos ou nos vão consciencializando disso. Talvez doa realmente fazer anos porque temos que assumir aquele ar introspectivo enquanto olhamos as velas queimadas pelo esfumado do olhar (já) longo e pensamos que na estrada ficou tanto e talvez ainda (um talvez inseguro) tanto caminho a percorrer sem saber porquê ou como. Um cansaço. Sempre na memória "o tempo em que festejavam o dia dos meus anos eu era feliz e ninguém estava morto". Pois é.

A Concha

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhadosa de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.

A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

                                      Vitorino Nemésio

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Altos em baixos...

Em dias de boas notícias seriam os altos a predominar, sorrisos e tal, suspiros de alívio e festejos. Porém os pensamentos em catadupa que consciencializam o que queremos e o que se escusava : a permanência das tristezas e das melancolias. Nostalgias não porque arrependimento mata e acabámos de sobreviver a mais uma dose. Mas que dose, esta vida de três pequenos dias. Afinal devia bastar olhar o sol até encandear o pensamento e na luz encontrar o calor que falta quando faltam (a)braços.

terça-feira, 5 de maio de 2015

A escrita e a fala


Em dias normais uso as duas formas de comunicação mais óbvias, mais vulgares. Escrevo e falo demais porque sou comunicativa ou quando estou nervosa (e.g. aguardando o resultado de um exame). Não gosto quando quero comunicar uma coisa e é percebida outra. Não gosto, também, de querer comunicar de uma das formas e só me ser permitida outra. 

Claro, nem sempre somos como queremos ser. Eu quero falar, quero dizer de mim, quero explicar, sempre senti essa necessidade desde criança. Quando um bloco de pedra nos impede de emitir qualquer ideia, quando qualquer som nele bate e regressa a doer, a comunicação morre porque nos dói sem sequer ter chegado ou sido apreendida pelo destinatário. 

Aguardo exames e doo, não dos exames, mas da falta de coerência de um mundo em que a voz escrita ou falada de que falam os escritores da semiótica falha como uma flor que nós vemos e os outros temem como um qualquer tumor estranho que ali anda, incomodamente, toco de vela que ainda não se apagou.

Na realidade, só a limpidez do discurso cura as dúvidas e tira os medos. Mas há dias que nos sobrecarregam tanto com nuvens que nem isso nos é dado.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Papoilas e árvores

As papoilas, claro, muito mais frágeis e no entanto o que cortamos são árvores. As papoilas, inúteis de tão belas e as árvores cheias de potência de sombra, resina, frutos, madeira e com o tempo contado para as desendeusarmos. Nas papoilas talvez bichos pequeninos, nas árvores até os homens podem morar. E no entanto, a fragilidade perene, as semelhanças da dor e da cor de sangue e de vida, as nossas histórias que podiam incluir uma de amor entre duas espécies vegetais se fossemos cientistas que não somos e por isso podemos, apenas, ficar um bocadinho tristes todos os dias em que se perdem as qualidades complementares e inúteis que constituem os sentimentos dos nossos pequenos mundos.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Lago






Contemplo o lago mudo
Que uma brisa estremece.
Não sei se penso em tudo
Ou se tudo me esquece.

O lago nada me diz,
Não sinto a brisa mexê-lo
Não sei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo.

Trêmulos vincos risonhos
Na água adormecida.
Por que fiz eu dos sonhos
A minha única vida?

Fernando Pessoa

Lígia

Numa semana em que me queixo interiormente do que me vão descobrir pelas entranhas dentro, estranho uma ausência de coragem e incentivo na pessoa de uma grande amiga e colega de faculdade. A Lígia era um sorriso onde todos desanimavam. Onde qualquer um teria desanimado. Depois da minha primeira operação teve uma conversa fantástica comigo, realista, animadora, cheia de sabedoria. Falou-me do mês em que tinha parado tudo só para estar com o neto e passear e nadar e aproveitar as pequenas-grandes coisas que a vida, apesar de tudo, nos dispõe. Gostava de ter a tua força, minha amiga, não só para as coisas físicas como para a palavra separação, cujo significado não me entra. Tu eras professora e continuo a mastigar as tuas lições sem ter a capacidade de as entender na totalidade. Hoje, sabes muito mais que eu. Foste muito mais que muita gente. Mas gostaria de te ter tido ao lado mais um pouquinho do caminho...

sexta-feira, 27 de março de 2015

As doenças

Além do ternurento poema de António Lobo Antunes sobre o homem constipado, temos as doenças correntes que nos vão espreitando ao longo da estrada. Umas do corpo, outras da alma, algumas cansam, outras deixam-nos cansados, derrotados. Os tumores, esses anónimos gigantes que nos espreitam das paisagens mais primaveris, depois de pensarmos que tinha acabado o combate, eis-nos a levantar e a lutar de novo ou a parar porque incrédulos. Desastres, tristezas, só a morte. Enquanto combatemos estamos - mais ou menos - de pé. Mas incrédulos porque o tempo nos leva depressa de mais e aos bocadinhos e temos que lutar muito para que não nos leve a alma. Também Lobo Antunes documenta bastante gentilmente o seu percurso como doente oncológico. Todos somos príncipes, diz. Todos eram príncipes. Talvez sejamos espelho do príncipe que vemos e respeitamos no outro que talvez sofra um bocadinho mais, que talvez esteja um bocadinho mais expectante, que talvez, só talvez, parta um dia nas asas desse moínho que é, de facto, um gigante imbatível.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Trabalho

Há vários tipos de trabalho. Não considero trabalho o que faço. É mais uma construção, vagarosa, um processo, um caminho, um abrir de sulcos no meu próprio ventre. Tudo o que tenho construído, se algo está de pé, sai do meu próprio coração e erradica sobretudo da escrita associada à observação. Para o melhor e para o pior. Porque é a mim que me observo, não como Narciso, mas num lamento de mais não alcançar com as palavras que demoram a crescer e, muitas, morrem antes de ver a luz do dia.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Ponto por ponto

Acabo de transcrever um pequeno texto para Braille. Assustadoramente fácil, mesmo num dia frio em que as mãos gelam sobre as pequenas teclas da máquina - sim, foi escrito em máquina. 
Interrogo-me a quem terá pertencido esta máquina... Há objectos do quotidiano que transitam de geração, outros entre amigos ou entre a docilidade de relações amorosas, ofertas, doações, heranças. E depois há objectos sem história conhecida que nos caem no colo e nos preenchem projectos.
Esta máquina Braille é alemã, provavelmente dos anos 20 do século 20 (gosto de escrever números iguais, saltei o romano propositadamente). Leipzig tinha editoras e tinha um grande asilo para cegos. Logo, fabricava instrumentos de trabalho e de ensino. Faz sentido. Mas como foi feito o seu percurso para Portugal? Quem a vendeu, encomendou, usou? Quem, finalmente, a despejou na feira em que a encontrei, sózinha e escura para quem passava, pedaço descarnado de ferro com sete teclas, e brilhante e luminosa para mim, que tanto precisava dela? Foi o chamado bom encontro e quem a vendia teve a simpatia de descontar no preço o trabalho que lhe daria carregar o objecto pesado e inútil novamente para casa ou para o armazém. Quem usa máquinas Braille? Como se pode criar uma relação de empatia, de camaradagem com um adereço de trabalho sem história conhecida, cheio de história muda, que agora se dedica a fazer histórias, quem sabe, para uma criança cega vir a ler um dia?

domingo, 15 de junho de 2014

O primeiro mundial do resto da minha vida

Tenho memórias de muitos campeonatos do mundo de futebol, ou não tivesse eu já 48 anos. Provavalmente assisti a muitos jogos ainda bebé e ouvi muitos e bons comentários, bem observados e justos, porque os meus irmãos e o meu Pai sabiam ver jogos e sabiam comentar.
Tenho para mim, desde essas memórias inconscientes que o momento do grito é mesmo o do golo. No futebol não se tenta, faz-se. E é só o que se faz que se conta. É uma bela metáfora, este jogo tão britânico e tão corrompido de tudo em que os homens se empenham: também por aqui há dinheiro a mais e a menos, sobrando que da arte que devia preparar o concreto, pouco ressalta.
Gostei do empenho, até ao final, da eufórica Holanda. Gostei muito da luta e arte de futebol ao primeiro toque e poder de drible da Inglaterra que continua a ser um potentado junto dos outros meninos, por muito que sejam amiguinhos de Michel Platini. Gosto de inesperados, de valores, de surpresas que depois parecem óbias.
Gosto, e muito, da estética do futebol, gosto que seja um desporto muito fotografável, gosto que seja belo, que nele se apliquem as mais complexas leis da física aplicada, da cerveja e da pintura na cara. 
Mas cuidado: o futebol não é pão e circo. É um desporto com história, que se pode jogar na praia como num estádio construído pelo luxo supostamente comunista de Dilma. A soberba do Planalto e da FIFA são apenas o que sobra de uns dias de jogos belos de ver. Quem ficar, dirá.

terça-feira, 18 de março de 2014

Crisis, what crisis?

Temperados os meus dias com algumas situações pessoais que me fizeram viver durante quatro anos numa realidade quase paralela, acordo para telejornais e twitters de arrepiar de incoerência. Consulto pessoas amigas, lúcidas, conscientes. Apercebo-me da semelhança de todos os regimes em todas as épocas. Da constância de uma maioria inqualificada para ter opinião para além do rebanho. De uma maioria que se rende a uma minoria impositiva, sem ter a preocupação de se questionar, sejam quais forem as suas ideologias políticas, religiosas, sexuais, parentais, académicas... Sim, o futebol continua a ter as costas largas para quem é acusado de se evadir dos problemas reais (o mundo pára, realmente, quando joga o Benfica... e ainda bem) mas as notícias exacerbadas e as lágrimas descomprometidas de qualquer situação que, em minha consciência, julgaria privadas, como se justificam senão como alternativa a uma vida de revistas cor-de-rosa que não parece bem neste momento de suposta crise financeira geral, como manobras de diversão de uma situação política e financeira de gravidade real? Decorre metade desta crise da falta de informação que se revela nas taxas de abstenção das eleições mais recentes? Estará o acto democrático transferido do voto para o grito de rua e do conhecimento para o encolher de ombros?
É muito aborrecido constatar que o mundo é demasiado parado e que as pessoas não evoluem assim tanto. É muito incómodo traçar prioridades e ser justo nos julgamentos das situações. É dificílimo ter bom senso. Ou seja, em quatro anos, pouco ou nada mudou. E em quarenta?

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Ilustrar o quotidiano


Trabalhando a Ilustração Portuguesa, revejo, em cem anos, que a instabilidade e a curiosidade continuam os grandes atractivos sociais para a comunicação escrita. Ora neva, ora há greve de comboios, ora temos nevoeiro em Lisboa, ora se casam políticos, Júlio Dantas editoriala e o povo - que é um pouco mais igual a si mesmo do que julga - lê.
Madame Brouillard adivinhou. O passado, o presente e o futuro confundem-se em processos sistémicos que nos afundam na certeza da prescrição que nos empurra marcialmente entre os arquivos de nós e a história que pensamos ser dos outros.