sábado, 6 de setembro de 2008

O meu nó direito



"É muito difícil abarcar um universo onde as nossas rotinas andam misturadas com os nossos sonhos
e com a tal harmonia do mundo onde espero esteja prevista a nossa alegria." António Alçada Baptista



Serve para ligar duas estruturas de forma suave mas firme. Nó direito ou square knot é uma espécie de salva-vidas prático e acessível. Tem toda uma lógica, ou as lógicas todas que lhe quisermos encontrar, tem, também, que ser compreendido. Compreende uma ou duas cordas, fitas, tiras, estruturas, e une-as sem prender, o nó preferido de quem gosta de harmonia e pretere vínculos. Quase mais laço que nó, na verdade. Mas palavras são palavras, ou haverá grande diferença entre encantar e espantar, a não ser na alma de quem admira ou surpreende? As artes de ser e de estar no mundo são complexas, nós cegos que doem e cortam o ar.

O meu nó direito é verde e foi dado e ensinado num dia de esperança. Só se ensinam artes de sobrevivência (só se aprendem artes de sobrevivência) com a quantidade exacta de luz no verde, a proximidade de paragens afectivas, os fios que nos teceram e os que nos tecerão, na medida exacta de alquimista sábio.

Gosto dos dias em que me aprendo. Hoje aprendi o meu nó direito.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Ruído visual

Tenho estado desde o fim-de-semana a imprimir Braille. Para chegar aos dedos, a informação passa por estádios diversos, como uma esperança de sucesso...

Primeiro tem que ser tratada e adequada aos seus destinatários. Há descrições que podem e devem ser alargadas e específicas, sobretudo as que falarem das impressões visuais ou descreverem imagens anexas ao texto que acompanham. Há palavras a limar, há descrições visuais explicadas por metáforas também visuais que são redundantes e não têm qualquer significado. É apenas um saudável exercício de nos colocarmos no lugar do outro, aquele exercício de sair do nosso espacinho protegido e aprender a comunicar sem ser para nos vermos ou ouvirmos. É um reaprender a ser e a dizer mais completo, sem amarras ou subsídios à comunicação parcial ou em voga.

De resto, nada mais de complicado, excepto estar em linha de produção com três impressoras - uma produz o harmonioso ruído de 80 decibéis (nos dias de boa disposição). E unir texto em braille, imagens relevadas e cor, para que o conjunto - neste caso específico- posso ser do usufruto de grupos de pessoas com várias capacidades e incapacidades ligadas ao sentido da visão.

As palavras são manhosas: uma capacidade é uma potência, uma eficiência é um exercício. Usualmente não me perco pelo dicionário politicamente correcto, gosto de gastar o meu tempo por caminhos mais capazes, uso termos directos e relativamente consensuais quando falo de pessoas, mas sobretudo tento falar de pessoas e não dos seus olhos, pernas, braços. Porque a nossa identidade é composta mas ultrapassada pelas suas características.

Penso no barulho que uma das impressoras faz neste momento em que escrevo, a chamar-me para ir ordenar e encadernar os exemplares, revê-los (deve-se rever o Braille, de repente salta uma gralha, de repente salta uma misturada de códigos).

Ficam bonitos os livros de sentir...

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Quando as palavra são demais


Falam os olhos e as mãos também, e assim os caracóis soltos do cabelo, se for uma criança ou alguém muito puro que nos cai no colo e se cuida porque sim.

Quando não se fala é-se expressivo demais, pode-se chorar ou sorrir ou dar a mão. Com medo ou sem. O medo tempera a ansiedade, a calma chega depois, como um parar de respirar porque não é mais preciso.

A arte do silêncio e o romantismo que dela faz parte foram abandonados há muito. Nos primórdios do cinema, a mensagem era tão nítida que o mundo tinha contornos de tabuleiro de xadrez, exactos, os bons, os maus, o longe e o perto. Em décadas, o som invadiu as telas e as próprias imagens passaram a ser múltiplas e previsíveis.

De vez em quando temos dias surpresa que não sabemos donde chegam. A mensagem vem do espaço ou de perto, a origem não interessa, o mundo fica, de facto melhor. As princesas da cidade também passeiam livros de colorir sem legendas, a princesa Pixar anda a dar cartas.

Dias de rir e sorrir, de parar e silenciar, de recordar tradições, renovar infâncias e amar de manhã ao entardecer do dia, de beijar a lua por um quadradinho da cerca que saltamos quando queremos.

Somos do tamanho do que vemos e não da nossa altura. Em poucas palavras, explicam os poetas que queremos ser.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Hoje, o mar


Espero sempre em Agosto as grandes calmarias quentes, gosto de mar, gosto de quem gosta de mar, desejo sempre o mar verdadeiro, com ondas, com canções de longe, com rugidos que nos agarram. Esta manhã o mar estava feroz onde se esperava calma.

Têm sido uns dias agitados e noticiados, entre éticas e pragmáticas, desesperos e embates, raças e justiças, lembro uma entrevista de António Lobo Antunes à Ler+ do passado Maio, em que explicava porque se sentia incapaz de ser figura pública e falar de acontecimentos que não os seus, que a sua razão era só a do seu trabalho e o resto, opiniões pouco credíveis (citado de cor e mal, mas o sentido, para mim, foi este).

Está citado de cor e mal, mas parece-me bem, que eu não sou contra raças nem credos nem diferenças - até que trabalho diariamente com este último conceito - mas também não sou contra países nem contra desporto, apenas contra as pequenas e grandes hipocrisias do nosso mundo e da nossa sociedade globalizadora de gentes.

Olho para as células criticantes e analiso-as: famílias que gritam entre si em praias sujas, famílias que gritam entre si em centros para comerciar, crianças que se esquecem de olhar o mar e brigam por uma qualquer coisa dispensável à sobrevivência da poesia, crianças que exigem junto ao mar. Gente poderosa, os senhores do mundo, a brincar a um deus enraivecido que não existe a não ser em proveito próprio e comovemo-nos com quê (até a criança que en/cantou na abertura dos Jogos não era a pequenina que vimos, mas uma menos perfeita que ficou atrás de um microfone porque não era uma perfeita demo da sua raça).

Esta subversão do mundo é muito triste e o mar ruge proporcionalmente às nossas irracionalidades, interesses comezinhos, desumanidades. Basicamente o mar ruge ao egoísmo. Para que o ouçam e percebam que os outros se devem sempre ouvir. Sempre.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Para lá do óbvio

Os blogs portugueses são mais do que os que conhecemos. É disso que falo. Da nossa incapacidade para procurarmos mais além. Da nossa omissão em relação aos outros. E das nossas conclusões sobre um geral que não é geral, sobre uma humanidade conveniente.

Os bloggers trazem aos seus espaços as suas impressões e sentires sobre tudo ou sobre os nadas que importam. Leio com agrado muitos blogs, acompanho alguns fóruns de discussão e não gosto de sentir separações vãs. Existem blogs de texto e com um interface simples para ser ouvido por leitores de écran (o software que converte toda a informação acessível que é passível de visualizar no écran para output audio ou para linha braille). Esses blogs estão reunidos num portal que tem informações preciosas para aprendermos a lidar connosco mesmos (ou seja, também com o outro, o que é fundamental, se temos pretensão a humanidade).

Nos blogs do lerparaver fala-se tudo o que se fala nos blogs Blogger ou Wordpress. E é por isso que é importante tê-los em conta quando falamos de blogosfera portuguesa.

Quem não vê, lê com os ouvidos ou com a ponta dos dedos e, apesar dos ainda inúmeros preconceitos, está na vida de forma activa e participante. Não são os sentidos nem a sua ausência que fazem de nós pessoas estruturalmente diferentes. As pessoas são diferentes desde que existem. Felizmente e criativamente diferentes.

Ler para ver.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Cão que ladra!


... não morde, dizem, mas incomoda muito. Ladra o cão por razões várias e, também, por razão nenhuma. Porque lhe apetece, porque não tem mais que fazer. Para chamar a atenção ou o dono. Porque passou outro cão. Porque é de noite e ouviu um barulho.

Ladra-se, então, por medo e por coragem. Porque se quer dizer alguma coisa (mas o ladrar não é idioma, é mais tipo apelo). No caso do cão, apelo à comida ou às festas. No caso do cão sem tino, ladrar é mais tipo vocação, perdeu o tino porque perdeu o Norte. Mas não a voz.

Ladra-se porque se quer refilar ou com saudades que refilem connosco. Todos gostamos de ser orientados. É mais fácil que orientar. E bastante preferível a esperar. No fundo ladramos porque insatisfeitos com a ausência de adversários que nos animem ou com a falta de motivação em nós mesmos, ladramos sempre, sobretudo, porque não encontramos o que procuramos, mesmo que seja a paz que perdemos.

Todos os motivos externos são bons para ladrar. E ladra-se porque se sabe muito bem que não há razão nenhuma para morder.

O cão desta história existe no cantinho de nós, pelo menos de mim. Ouço-o ladrar quando tenho medo ou quando estou perdida, esquecendo-me que parte das vezes em que me perco é porque simplesmente não estou a olhar para onde devo. Ora se olhamos para os pés ou para o umbigo a perspectiva do caminho fica difícil...

Melhor ladrar quando o dono está que quando dorme. Porque as festas também se merecem. E a persistência e a atenção fazem parte de se ser feliz. Pelo menos, são as qualidades que nos encaminham. E para guiar, convém saber ser guia.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Horário de Verão


Hoje é dia de escrever e de me pensar. De fazer planos e de recapitular. Bom conselho encontrei nesta imagem, aproveito a folga de trânsito e o menor movimento de gentes para encontrar o tempo de ler e de estudar que me falta. Também, o de reflectir. Penso nos dias de verão já corridos e no calor vivido como se o sentisse na pele. Penso no verão que é e no curso de Braille que foi, com o som das máquinas forte, forte, ainda nos ouvidos e as mãos a doer. Nos trabalhos que preparo e nas férias que começo na sexta, sem bem as começar.

Nos fins-de-semana. Nos dias de praia com irmãos mais pequeninos que os sobrinhos, em jogos de King com areia e em serões de esplanada com conversa na mesa e algum café a arrefecer. Penso na areia que a Carlota teve medo de tocar no domingo e nas ondas fortes da maré que regressa e que querem sempre que regressemos com elas e nós a querer ficar.

Ouço os telefonemas de saudades dos que ficam, dos que vão, dos que partem, dos que ainda não foram, como se as férias uma estação de comboio de linhas mais loucas que o Chapeleiro de Carroll e nós com as malas cheias de vidas tão trocadas que nem sabemos se queremos voltar a algum lugar já vivido. Depois as máquinas de roupa como aviões a lavar esperanças e sonhos e empadas descongeladas para um jantar afinal cosy de quem não partiu porque escolheu partir-se e ficar junto.

Sempre gostei do verão. Os dias têm a mania de ser grandes e no entanto alguns bem pequeninos e anichadinhos e meigos que não assustam tanto porque até o por do sol sabe sempre a paz e a lar. É bom chegar ao fim de algo e ao início de outro tanto. Porque hão-de as fronteiras do tempo ser tão impositivas? Veremos se este será um dos melhores verões a recordar, um dos marcantes, um dos que ensinam, dos que não esvaziam. Porque tudo é irreversível, até as estações que nunca são iguais e todos sabemos, porque tal nos ensinaram, e nós o aprendemos, que já nada muda como soía.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Ou então sim...



Há blogs que são sorrisos. Uns porque nos fazem meditar, reflectir, ficar felizes porque lemos um texto bonito e sentido ou pragmático e incisivo. Outros porque sim. Há que blogs que sim. Pelas escolhas de música, pelos poemas que divulgam e que não conhecíamos, pelas ternuras que publicam. Ou só por existirem. Alguns, têm pessoas transparentes por trás. Outros, pessoas que identificamos com um rosto e uma personalidade que bate certo com tudo o que de lá nos chega. E com datas. Hoje é o dia de um dos blogs que visito com mais gosto. Porque sim.

Parabéns, Pyny. E boas férias!

quinta-feira, 17 de julho de 2008

(A)palavrar


É o que fazemos por aqui. Apalavramos. Ideias e ideais, opiniões mais ou menos fundamentadas, equilíbrios. Apalavramos projectos e conceitos. Apalavrar é bonito, soa a compromisso, mas pode tornar-se vago. Que ética existe pela blogosfera? Somos todos uma bonita transparência, mais rentável que isto é difícil. Começamos por escrever as nossas verdades, depois alimentamo-nos de palavras calibradas, orientadas, quase pedidas. Ousados, ousamos (ousemos).

Apalavrar deveria ser bonito, soa a casamento ou a acordo de cavalheiros, as palavras, afinal, valem o que valem. Quando se cruzam, está o caldo entornado. Quando se repetem, tornam-se óbvias. Perdeu-se a magia? Ou a palavra?

Não o creio. Há males que perseguem a humanidade, um deles é a arte da fuga. Mas a palavra, senhores, é sagrada, honremo-la. O que escrevemos que seja a nossa verdade. Uma verdade apalavrada, temperada, pessoal, criativa. Mas de palavra, palavra de honra, que o virtual não se destina a temporalidades nem a certezas, mas quem o emite é de carne e osso.

terça-feira, 15 de julho de 2008

?




Nunca sei como é que se pode achar um poente triste.
Só se é por um poente não ter uma madrugada.
Mas se ele é um poente, como é que ele havia de ser uma madrugada?

Alberto Caeiro

domingo, 6 de julho de 2008

Precious

Foi um livro e depois uma cor. O Hobbit tinha consigo um anel e dois nomes, Tolkien e Ralph Bakshi. E uma data: 1978.



Muitos anos depois, os homens da terra média construíram outro filme que não quis ver durante tempo a mais. Nestes dias em que pouco escrevi, em que pouco viajei, encontrei outro Gandalf e outro Frodo, outras paisagens do Shire, outras batalhas de cores menos vermelhas mas não menos belas.

A história, como uma paixão, fala dos homens e das causas, fala de nós e do que de nós lá quisermos rever. Fala de ambição e de humildade, de coragem, de lealdade, de amor. Fala de grandes e pequenos que se unem e desunem, fala de gente diferente e de gente especial e ainda de gente que se esqueceu de ser gente. É, talvez, uma história que fala muito bem da eterna história dos que ousam ser homens.

Com menos vermelho e menos sombras, sem o sobressalto do livro que é, ele mesmo, uma procura, revivi a história do anel poderoso que derrete ao calor do esforço, do idealismo e da coragem.

Precioso é o intangível, obviamente.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Caminhos de cor


Não entendo nada da vida a não ser este ridículo pesar do amor em tudo o que procuro, os caminhos de cor, procuro sempre os caminhos que sei de cor. Nos meus percursos, nas minhas empatias, nas pessoas que conheço ou reencontro, encontro sempre uma Maria longínqua que gostava de ter sido, uma espécie de Maria que foi e ainda será, um espelho fosco dos meus ideais nos outros que vou admirando ao longo da estrada.

São de cor os caminhos e as pessoas que me procuram - ou, provavelmente, as que me encontram. São de cor as músicas que ouço, os filmes que vejo, os livros que leio, como se nada de novo houvesse, realmente, debaixo do sol que me aquece de verdade.

É bom um dia em que me cruzo com seres admiráveis e sem idade, com história tão díspares como galáxias, tão harmoniosos como Stairway to Heaven que ouço enquanto os dedos escrevem por mim e me pensam um bocadinho mais claro, com um bocadinho mais de cor.

É bom um dia em que me recordo, em que sei de cor, os passos dados noutros dias com o mesmo nome, dias de descoberta, de encontros com sentido, com sentidos, com sentires, mais que arco-íris dentro de vidas, mais que verões por chegar, adiados, conhecidos de cor antes de acontecerem, esperados, sofridos, esperançados, caminhos de cor, caminhos de cor, quantas vezes passamos por aqui sem nos vermos?

Sabermo-nos de cor é deixarmo-nos colorir com o coração que bate em nós e nos outros, que descompassa ritmos de crianças que se não envergonham de o ser, é deixarmo-nos amar, é sabermos o não e o sim que combinam com os sonhos que temos desde que respiramos e é encontrar sempre algo perdido, sabido e esquecido e voltado a saber, a sabor, de cor, com o coração.

Dar cada passo como o primeiro e o último, como o início e o desespero de cada tentativa, caminhar de cor, caminhar de cor, saberemos orientar-nos, de verdade, noutra direcção?

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Paratodos


"Não há ventos que não prestem

nem marés que não convenham

nem forças que me molestem

correntes que me detenham."

António Gedeão


Para todos os que puseram a bandeira à janela para os jogos da selecção e escreveram lençóis de tinta ou terabites de comentários a respeito, para todos os que ajudaram a parar o país para reunir força moral para os nossos jogadores, para todos os que ontem se entristeceram, para todos os que assistirão aos jogos olímpicos, para todos os que batalham e desistem, para todos os que não aprendem a lutar com as características que realmente têm e não com as que gostavam de ter, para todos os que alguma vez desanimaram, para todos os que já desistiram um dia, para todos os que não chegaram a tentar, para todos os que não os conhecem, para todos os que não acreditam:


deixem-se guiar.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Ups




"After Jacob had worked for Laban for seven years,
do you know what happened?
Laban fooled him and gave him his ugly daughter Leah.
So to marry Rachel, Jacob was forced to work another seven years.
So, you see, children, the Bible clearly teaches us
you can never trust an employer."

Perchik's lesson in Fiddler on the Roof

Claro





ainda não é por isso que choramos às vezes
e que outras somos heróis a valer


Planeta Tangerina a rimar com António José Forte

Há dias.

domingo, 15 de junho de 2008

Bio-afectos


Ando farta de gente fria a debitar jornalismo escrito e falado. Que é isto de pais biológicos, famílias biológicas? O termo entrou na moda e entrou mal. Os meus pais não se limitaram a conceber-me, acompanharam o meu crescimento, amaram-me (amam-me), apoiaram-me (apoiam-me). Não sei que é isso de pais biológicos, a herança genética existe e pode gerar empatias e simpatias entre os membros de uma família, mas não existe sem afecto. O acto de conceber é - devia ser - um acto de amor. Por isso, quando vejo casais a preparar a chegada dos seus bebés, fico enternecida. Por outro lado, conheço muitos casais que não querem ou não podem ter filhos. E não se amam menos por isso. Conheço ainda casais que adoptaram o(s) seu(s) filho(s). E são família, igualzinha às anteriormente mencionadas.

Tal como não me parece justo que se diga que os pais que adoptam os seus filhos são menos pais que os que os concebem, também me parece discriminatório que se pregue o contrário. Nas revistas cor-de-rosa (e nos programas cor-de-rosa, uma manifestação de interesse sociológico-depressivo que descobri recentemente) são elogiados os VIPs que adoptam, como se parecesse mal não ser exercida uma caridade universal, um amor alargado, um endeusamento da função familiar. Penso em quantas desses crianças não crescem pela mão de baby-sitters, seguranças...

Ser pai é ser pai e ser mãe é ser mãe. Um filho gerado e um filho adoptado são filhos e ponto final. A herança genética indica os nossos progenitores. É uma leitura simples e directa. Não fala de afecto, de preparação, de desejo, de expectativa, de sacrifícios. Por isso, herança genética temos todos, nem todos temos é amor nas memórias de infância. E o amor tanto nos chega do coração dos pais que nos geraram como dos que nos assumiram como filhos.

O que me leva a outra linha de pensamento: a retórica subjacente a estes assuntos é doentia. Como se os pais ditos biológicos tivessem que gramar com as criancinhas que lhes saem na rifa e os pais ditos afectivos tivessem escolhido cuidadosamente quem vão receber em casa e na vida.

Não se escolhem filhos. Não é um namoro, boa? É um amor tão incondicional que ultrapassa critérios. Por isso também não compreendo os problemas que existem em termos de limite de idades para adoptar, problemas em adopções feitas por uma só pessoa ou por pessoas que vivam em uniões de facto que, de facto, a nossa sociedade vitoriana ainda não assuma. Se não se escolhem filhos, muito menos se escolhem pais...

Já passei por um processo de adopção. Desisti no momento em que vi circundada por questões preversas. Não estava a escolher um animal de estimação, não estava a escolher a cor de um carro, não estava a escolher a roupa social que me iria caracterizar, nas idas ao café, de mãozinha dada comigo. Estava a manifestar ao estado português a minha disponibilidade para acolher na minha vida uma criança que não tivesse pais, estava a manifestar a minha disponibilidade para aceitar uma criança com herança genética diferente da minha, como minha filha.

Respeitem-se as estruturas familiares, independentemente da sua origem e constituição. Famílias biológicas, afectivas, biológico-afectivas, biológicas-e-nem-por-isso-
afectivas... Famílias são equipas que moram e se constroem em conjunto. Sem mais definições sobre DNA, orientação sexual, credos ou berços. Com tudo o que de lato e de concreto caiba no conceito.

Família é a moldura da nossa identidade. Respeite-se.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

"Madness with method"

Hamlet, Acto 2, Cena 2.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Corridas

Pelas notícias de hoje, fosse eu criatura de senso e teria passado a manhã a encher o depósito do carro e a dispensa. É certo que tudo está inflaccionado e que a vida não está fácil para a raça dos trabalhadores. Mas será correcto este movimento preverso de desinformação e consequente pânico consumista?

Serei certamente ingénua. Mas não me parece que o reabastecimento de Chocapic e de gasóleo me dê mais conforto ou autonomia, sobretudo não resolve questões económicas nacionais que devem ser pensadas.

Correm hoje, os portugueses, entre praias, bombas de gasolina e supermercados. Nem têm tempo para pensar se são felizes ou se podem remediar problemas nacionais ou supra-nacionais votando mais vezes e sobretudo votando mais esclarecidos. Porque os quadros directivos desta empresa em que nos albergamos são eleitos por nós. E corremos para todos os lados consoante o vento e as notícias frescas, sabendo, esclarecidos, que não é a raça que se celebra hoje, sacudindo as bandeiras nacionais por causa de um campeonato em que queremos ganhar mais que competir, ficcionamos participações e liberdades, activismos e causas.

Faltas? Só se for de senso. A minha raça, se o conceito existe, é a humanidade. Não sou superior nem inferior a ninguém, os meus padrões de avaliação não são comparativos com características físicas ou nacionalismos baratos, centram-se em mim mesma e nos meus valores.

Em tempo de crise trabalha-se mais. Em tempo de prepotência prepara-se a mudança. Não me parece que correr na direcção do nosso umbigo nos salve ou redima de algo. Nao me parece sobretudo que correr nos encaminhe na direcção de soluções que residem em nós mesmos.

Vivemos entre anacronismos e ficções. Quem cuida do nosso presente?

domingo, 1 de junho de 2008

Dia dedicado


"Aos filhos dos homens que nunca foram meninos."

Soeiro Pereira Gomes, Esteiros.
Ilustração da capa de Álvaro Cunhal.