terça-feira, 15 de abril de 2008

Descansar


"Sabes? Eu sei de um modo de descansar quando quiseres... O teu planeta é tão pequeno, que podes, com três passos, dar-lhe a volta. Basta andares lentamente, bem lentamente, de modo a ficares sempre ao sol. Quando quiseres descansar, caminharás... e o dia durará quanto queiras."

Antoine de Saint-Éxupéry, O Principezinho.

Fragmento 117

"A maioria da gente enferma de não saber dizer o que vê e o que pensa. Dizem que não há nada mais difícil do que definir em palavras uma espiral: é preciso, dizem, fazer no ar, com a mão sem literatura, o gesto, ascendemente enrolado em ordem, com que aquela figura abstracta das molas ou de certas escadas se manifesta aos olhos. Mas, desde que nos lembremos que dizer é renovar, definiremos sem dificuldade uma espiral: é um círculo que sobe sem nunca conseguir acabar-se. A maioria da gente, sei bem, não ousaria definir assim, porque supõe que definir é dizer o que os outros querem que se diga, que não o que é preciso dizer para definir. Direi melhor: uma espiral é um circulo virtual que se desdobra a subir sem nunca se realizar: Mas não, a definição ainda é abstracta. Buscarei o concreto, e tudo será visto: uma espiral é uma cobra sem cobra enroscada verticalmente em coisa nenhuma.

Toda a literatura consiste num esforço para tornar a vida real. Como todos sabem, ainda quando agem sem saber, a vida é absolutamente irreal, na sua realidade directa; os campos, as cidades, as ideias, sao coisas absolutamente fictícias, filhas da nossa complexa sensação de nós mesmos. Sâo intransmissíveis todas as impressões salvo se as tornarmos literárias. As crianças são muito literárias porque dizem como sentem e não como deve sentir quem sente segundo outra pessoa. Uma criança, que uma vez ouvi, disse, querendo dizer que estava à beira de chorar, não «Tenho vontade de chorar», que é como diria um adulto, isto é, um estúpido, senão isto: «Tenho vontade de lágrimas». E esta frase, absolutamente literária, a ponto de que seria afectada num poeta célebre, se ele a pudesse dizer, refere absolutamente a presença quente das lágrimas a romper das pálpebras conscientes da amargura líquida. «Tenho vontade de lágrimas»! Aquela criança pequena definiu bem a sua espiral."

Bernardo Soares

terça-feira, 8 de abril de 2008

Onde estás?

E murmura para si:
Nada sabem das coisas do fogo.
Os dons mais profundos do
homem murcham dentro deles.
Deverei amá-Ios?


Herberto Hélder



Isto de se morrer de repente é estranho de mais, onde estás, Paulo? Fiquei um bocadinho zangada com a vida, tu não deixarias, farias o teu sorriso tímido e engasgar-te-ias entre o tratar-me por tu ou por você, eu refilaria contigo logo de seguida (então!). Julgo que me não deixarias zangar com a vida, que me dirias para continuar no caminho e fazer o meu melhor deste percurso cheio de curvas e alguns abismos. Fiquei um bocadinho zangada com a vida que te trouxe por perto e que me fazia sorrir de manhã com uma rosa no messenger ou um arco-íris e aqueles bonecos animados que tu escolhias com o tempo de quem tem tempo para pensar nos outros e no que os faz sorrir. No tempo de quem tem tempo para ter cuidado.

Procuro as tuas folhas, os quatro textos que me deste quando almoçámos, quando num dia de sol passeámos e falámos de coisas importantes e de outras sem importância nenhuma, no dia em que me perdi por Setúbal e te liguei do estádio do Vitória e me foste indicando o caminho por telemóvel com uma paciência inédita (nunca exigir o que não podemos, dar de nós o nosso melhor, encontramo-nos a meio caminho).

No dia em que te enterneceste com o JP, no dia em que bebemos coca-cola de lata com uma palhinha e eu segurava no carro o teu corpo que se desfazia com os solavancos, um corpo que era teu e que tu vias de longe, a cadeira que tinha um tabuleiro que eu não sabia arranjar e tu ensinavas, o teu corpo tão leve como uma pena, tão leve como um bebé muito leve (lembraste-me, sabes, a leveza, a cor, acho que sabias e nunca te contei, acho que leste as minhas feridas de guerra).

Os teus textos, o teu amor pela escrita, as folhas - trazes, Maria? - encaixadas num livro pelo teu companheiro de quarto sem voz, só ternura, tapando a cara, olhando com olhos de longe, com olhos de medo, depois mais perto, depois a mão e um sorriso cheio do amor que precisava, um sorriso como um abraço, uns olhos muito claros, de ver um mundo que nós não temos o privilégio de ver. O livro era Os Passos em Volta, de Helberto Hélder, capa cor-de-laranja - também gosto muito, como não? - as outras folhas eram histórias, um caso de apoio que tinhas prestado a um companheiro de casa, um texto sobre a condição de deficiente, dois textos sobre a escrita, procuro-os sem cessar entre os papéis sobre a minha mesa e teimam em não aparecer e preciso tanto deles para ouvir a tua voz.

A voz que mantiveste bonita, a voz calma - podes-me arrumar o corpo? - de sábio, de pai de uma tribo, a voz que entrava no jogo da fantasia ou no pragmatismo da acção e porque dói tanto pensar agora no telefonema que fiz para o teu nome, Paulo Rilhó - Paulo Rilhó - que a tua mãe atendeu e eu sem crer que era a tua mãe, onde estavas, e eu ontem no carro com chuva, depois de dias sem rosas no messenger e sem arco-íris, depois de preocupada com um telefonema de um amigo comum. A voz não era a tua, nunca compreendi como mantiveste a voz pura e clara como a escrita, mas ainda bem. A voz não era a tua, já não a tinhas, já não a tens.

Agora não sei onde estás e preciso tanto de te falar da entrevista de emprego do Luís, do computador da Inês, da feira deste fim-de-semana, temos os contactos com as associações e tens que me ajudar a preparar uma das aulas, lembras-te? Sem voz, Paulo, como vamos fazer, meu querido? Como vamos preparar a reunião de Maio, com todos os do grupo? E a carta para as Fundações? Como irei buscar a tua cadeira vazia para dobrar no meu carro e passear até ao Tejo, em dias de azul, sem a voz entre almofadas negras, sem a voz, sem as mãos pequeninas - pões-me a direita sobre a esquerda, por favor, Maria? - e o livro ao lado, as fotografias que tirámos, tu a indicar, eu a carregar no botão.

Como vou fazer para dizer a todos os que te amam que a tua voz foi com o teu corpo para o mundo das memórias e o livro de Herberto Hélder ficou fechado, com os teus textos a marcar as páginas? Como vou sorrir de manhã sem as rosas no messenger e os projectos na alma?

Talvez o teu corpo liberto agora, a voz sussurra-me perto que estás, as mãos mexem-se de novo e acho que me abraças porque a vontade de chorar passou e me apetece beber coca-cola numa esplanada junto ao Tejo e fazer planos de mudar o mundo.

Para mais perto das pessoas belas.

domingo, 6 de abril de 2008

Concertar


Fim-de-semana agitado, em que se concerta por Lisboa e pelo Porto. Fiquei por fora dos concertos, deambulei por aí, revi algo da cidade ao sol, que Abril vai fugindo à regra e nós à lã. O mar estava bonito, visitei-o, mas foi na cidade que vi o meu grafitti preferido mudar de desenho em palavra. Sózinho, o autor? Ou apenas, à espera (estar só não é destino, é ritmo, é, apenas, uma esperança ou um tempo)? Desenho, desejo, concertados (concertar é acertar em conjunto?).

Vai ser uma semana saudável (sem concerto, com convite).

sexta-feira, 4 de abril de 2008

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Fadas



"A CRIANÇA que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as cousas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em algum ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer."

Alberto Caeiro
Ilustração de Wayne Anderson

sexta-feira, 28 de março de 2008

A brincar, a brincar...

Tetris é um jogo electrónico clássico, criado nos anos 80 por Alexey Pajitnov. Esta adaptação foi criada por Guillaume Reymond, com a colaboração de todos os píxeis nomeados na ficha técnica. Esforcem-se por não levar a metáfora muito a sério, eu ainda estou a tentar...

(tu, tu, tu, tu, tu, ru, tu...)

quarta-feira, 26 de março de 2008

A cena do telemóvel

“As coisas da educação discutem-se, quase sempre, a partir das mesmas dicotomias, das mesmas oposições, dos mesmos argumentos. Anos e anos a fio. Banalidades. Palavras gastas. Irritantemente óbvias, mas sempre repetidas como se fossem novidade. Uns anunciam o paraíso, outros o caos – a educação das novas gerações é sempre pior do que a nossa. Será?! Muitas convicções e opiniões. Pouco estudo e quase nenhuma investigação. A certeza de conhecer e de possuir “a solução” é o caminho mais curto para a ignorância. E não se pode acabar com isto? (…) Precisa-se, neste “tempo detergente”, de um pacto de silêncio, de uma pausa que permita ver para além da poeira dos dias que correm. Pensar exige tranquilidade, persistência, seriedade, exigência, método, ciência.”


António Nóvoa, Evidentemente, Edições ASA.

É fácil comentar o que se não conhece, investir no culto dos detalhes sórdidos e não em reflexões humildes. Nos últimos dias tenho lido tantos disparates... E, no entanto, o sistema educativo do nosso país bem precisa de cuidados e não de apedrejamento público.

Gostaria de não ter lido tantos auto-elogios de demasiados professores, cheios de soluções, cheios de certezas. Gostaria de não ter lido tantos comentários de pais perfeitos, criticando a escola e os filhos dos outros. Gostaria de não ter lido tantos comentários públicos em demarcação do problema, que é um problema social grave e da responsabilidade de todos.

Talvez mais que julgar possamos actuar, porque julgo que só assim seremos cidadãos participantes (na medida em que nos assumimos como responsáveis a 100% pelos problemas que surgem e pela orientação das soluções).

O problema estará na aluna, no telemóvel, na professora ou na gabardina dela? Não sei. Sei que certamente há um problema em que ninguém fala, que consiste neste julgamento de massas, aparentemente imunes a problemas, aparentemente deuses, aparentemente na posse de todos os dados sobre este caso concreto e mesmo - quem sabe - na posse de anos de estudo e observação do nosso sistema de educação. Tantos especialistas temos e tão poucas medidas tomamos... Haja consciência e sentido cívico, a começar por baixarmos a vergonhosa taxa de abstenção das eleições desta República, começando a exercer, um pouco, os deveres mínimos de participação, em vez de produzir telenovelas marginais que distraem os mais incautos dos verdadeiros problemas.

terça-feira, 25 de março de 2008

Of mistery and imagination


Fantástica imaginação, a do papá de Horton, Dr. Seuss. E calham sempre bem umas polémicas para estudarmos um pouco melhor as mensagens que recebemos. Publicidade ou doutrina? Pacífico, se as recebermos atentos. Afinal, há publicidade e doutrina em toda a informação que nos invade diariamente. Não sei se chegámos a um estádio civilizacional demasiado perverso. Apenas temos que ter cuidado com a nossa identidade. E não ter medo de receber a ternura de um boneco com a mesma dignidade e cuidado que dedicamos a um discurso de estado. Informação molda, mesmo que desenhada e colorida...

terça-feira, 18 de março de 2008

Com um sorriso

Este senhor



brinca com papel



para alguém sentir



e acreditar...


D. Pedro...

"...só não chorou uma vez
quando beijou a chorar
a raínha Dona Inês."



António José Forte
Uma Rosa na Tromba de Um Elefante
Parceria António Maria Pereira, 2001.

sexta-feira, 14 de março de 2008

terça-feira, 11 de março de 2008

Antes de amanhã

— "Dorme: se os pesares
Repousares,
Vês? — por estes ares
Vamos rir;
Mortas, não; festivas,
E lascivas,
Somos — horas vivas
De dormir. —"

Machado de Assis


Calo o sono que me aconselham e endoideço as palavras que me cercam como folhas soltas num monte em que devia repousar. Quem pintou onde me encontro? Tinta de cansaços, sem cheiro, tarda a manhã e vigílias são glórias ocultas. Quem sabe um raio de sol para espantar o escuro e os olhos rejeitados. Quem sabe um espelho onde a luz fraca deixe de ser artificial e aconteça. Não me parece a boa disposição no dia que ainda não foi parido. Julgo que mais um cinismo de deixar fluir as horas acontecidas contra os ponteiros, afinal no hemisfério norte a água esvai-se na direcção de sempre, os nós de gente passiva dormem e eu escrevo contra mim.
-
Espero o futuro num banco de jardim sem que os pés toquem o chão, esperamos o futuro sempre em forma de crisálidas, esperaremos o acontecido virando a cabeça na estrada até doer?

quarta-feira, 5 de março de 2008

O sim, o não e o talvez

Dizemos sim quando cedemos ou quando optamos? Dizer não é geralmente assumido como uma força revelada. Não quero, não vou, não faço, não gosto. Sim não se usa na frase. "Sim, quero" tem uma horrível vírgula a separar as palavras. Como se o sim fosse um senhor pequenino e magrinho que se chama quando não há nada a fazer e lá temos que anuir a qualquer desgraça que adiámos enquanto fomos personalidade. A vírgula é uma hesitação coxa que mostra desgraçadamente que pensámos ser ou proceder de outro modo mas lá tivémos que nos deixar ir. É feia, estragada e separa o que deve fluir. Não gosto de vírgulas, que são, além de mais, adiamentos. Gosto de palavras coordenadas, que se dizem com força e que se aliam nas frases como cada um de nós gosta. O Não pinta-se em mensagens grafitadas de protesto e usa-se em marchas e greves (o operário disse não, não retorceu Vinícius o idealismo como Régio que só sabia que não ia por ali, o que será mais para o lado do "talvez já decida mas por enquanto quero guardar apenas o direito de opção").

Não (não me parece). Nada de Talvez.

Gosto de decisões positivas e assumidas, das que acordam de manhã e bebem uma chávena de café caseiro sem açúcar frente a uma janela de opções aberta sobre o sol que se levanta e escolhem no fresco e húmido da manhã que nasce qual é o seu sim. Gosto de respostas directas e francas e rápidas, não como cedências, mas como escolhas, não seremos tão influenciáveis que percamos a nossa liberdade se ouvirmos opiniões ou sugestões. O sim está na resposta e cada um só diz o que quer. Claro que há condicionantes, mas a liberdade corre mesmo por aí, por esse caminho bem escuro que se chama presente e que é uma linha tão ténue que a confundimos com o acontecido e o desejo. Possivelmente o presente devia-se chamar vontade. É o curto espaço em que nos deixam remar e depois outra corrente e outros ventos.

O Não reprova algo que já existe ou já foi verbalizado. O Sim pode ser um passo no desconhecido. É belo o direito de opinião sobre o existente mas é preciso grande coragem para propor o que poderá existir. Ser cidadão é poder criar alguma pedras da nossa cidade, ler todos os desafios e responder-lhe com alternativas, actuar em vez de observar.

Talvez o Sim seja um Não com conteúdo para além da negação.

Sim a tudo.

sábado, 1 de março de 2008

Os dias matam



Encontro esta imagem por azar - galicizemos - quando termino mais uma leitura de L'Écume des Jours. Boris Vian no seu melhor e eu continuo ratinho suicida. Apesar de tudo, gosto de nenúfares. Gostarão eles de mim?

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Calendas de Março

"- O teu relógio indica o ano em que estamos? Perguntou o Chapeleiro.
- Claro que não. Respondeu Alice muito depressa.
- Mas isso é porque um ano inteiro dura muito tempo. Justificou Alice.
- O que é exactamente o caso do meu! Disse o Chapeleiro."

Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas


"Happy he who has passed his whole life mid his own fields, he of whose birth and old age the same house is witness.... For him the recurring seasons, not the consuls, mark the year; he knows autumn by his fruits and spring by her flowers."

Cláudio



É hoje o último dia das calendas de Março, o dia antes de Março começar. O dia que pensamos ser o extra de um ano bissexto - na realidade 24 ou 25 intercalados, como substituição de um mês adicional - a favorecer a dignidade de Augusto permitindo-lhe que o mês com o seu nome fosse tão comprido como o de Júlio. Assim, todos satisfeitos, os 366 (dois seis, bissexto...) dias cumpridos, as luas certas, a Lebre de Março a caminho. Como todos os dias levemente fora da triste rotina entorpecedora, este é mais um pretexto para tradições criadas como pretexto de fuga e criatividade, as pessoas que se festejam nesta data são ainda mais especiais por terem um dia para si criado por um imperador e afinal tudo não passa de uma brincadeira nossa para lidar com o tempo, melhor optarmos por umas leituras interessantes sobre o tema e não pensarmos muito no que não sabemos bem se é uma dimensão mensurável da realidade ou apenas um desenho artificial do nosso percurso.


Sobre o tempo: *
Sobre o calendário romano: **
Sobre anos bissextos:
***, **** e *****
Sobre desafios dignos de Lebres de Março
****** e *******

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Margarida


A minha mãe tem grandes olhos castanhos e pestanas longas e doces, sendo que o cabelo foi castanho, arruivado, cor de raposa matreira de Aquilino - com profusão de caracóis como sorrisos - e hoje está da cor do chão do inverno ou da espuma das ondas. O seu coração é grande e forte, nele cabendo o meu pai, nós cinco, onze netos e um bisneto em forma de desejo que chegará ao nosso colo lá para Setembro.

A minha mãe tem um sorriso à chegada e uma meiguice contagiosa. Nasceu em 1924 mas os dias de hoje também são seus. Como já anda no caminho há muito tempo e os seus olhos viram muitas coisas e choraram bastante, talvez por isso agora tenham entendido descansar. Também porque correu muito e trabalhou sempre muito as suas pernas estão cansadas e os percursos são mais lentos e acho que dolorosos. Apenas acho porque opta por ser feliz todos os dias, relativizando estes factores para dar toda a importância às coisas boas que tem (que cultiva).

Na verdade acabo de chegar de sua casa, onde festejámos em família o seu aniversário. E o seu sorriso continua luminoso, os olhos brilhantes, a energia redobrada. Gira entre todos, a todos dá atenção - sente-se, Mãe - beija o meu Pai quando passa perto da sua cadeira, dá aos netos o melhor colo do mundo - sente-se, Mãe -, acompanha-nos à porta - descanse, Mãe - e dá-nos as boas noites como se, indo para fora de sua casa - os filhos criados, os netos crescidos, o bisneto ainda portátil - fossemos para os nossos novos quartos na casa grande que é o mundo, e ela continuasse sempre, mas sempre, a tomar conta de nós.

Por isso tenho a certeza que daqui a minutos me virá dizer para apagar a luz e descansar, distribuirá copos de leite e bolachas, lembrará a todos as prioridades do dia seguinte, ajudando a arrumar pastas de escola e de trabalho, talvez deixar uma flor dentro de um livro ou um bilhete escrito com carinho impresso na letra alegre, grande e redonda que usava.

Tenho a certeza que virá. Como dormiria eu hoje bem, Mãe, no dia do seu aniversário, sem me aconchegar a roupa e me cantar baixinho?

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Caminhos sem migalhas


Esquecemo-nos por aí. Então perdemos o rasto de nós. Pensamos em coisas grandes, marcamos fronteiras, criamos e desfazemos países, amizades, equipas, identidades, partimo-nos em vez de nos partilharmos. Não me parece que os homens sobrevivam sós - passe o tom bíblico da reflexão.

Cultivar (os nossos jardins, as nossas memórias). Valorizar (o que é tão pequeno que importa mesmo cuidar com muito carinho porque é mais sensível e mais frágil e se nos distraímos se estraga e destrói facilmente, não por ser menor, mas por ser um maior que só é forte quando o pensamos).

Transportamos em nós as coisas importantes. Como as histórias que nos contaram em pequenos, a música dos chuviscos nas janelas dos quartos, os bonecos abraçados na cumplicidade tímida do escuro, o cheiro dos livros de histórias cheios de mãos de crianças a dobrar as folhas, o frio das manhãs de escola, a paz dos sonos infantis em que se sorri.

Será suficiente? Continuamos a fazer guerras e a ser ambiciosos demais, preocupamo-nos com a Cultura como se fosse uma senhora muito importante e descuramos a cultura menos óbvia e menos auto-sustentada - como dizem as pessoas crescidas (a cultura não precisa de sustento, existe, façam as pessoas o que fizerem para a estragar). Perdemos os valores como peças de lego ou cromos, não arrepiando caminho para os recuperar, perdemos até o tempo, que obrigamos a caminhar depressa demais, o tempo, a nossa desculpa para não darmos o nosso melhor, o tempo, a nossa fuga, o nosso alibi, para, no limite, não sermos felizes.

Pequenas coisas a não perder... Estar atento. Aprender com humildade. Agir com convicção. Amar completos. Nunca perder o que (e quem) nos construíu até agora mesmo (neste minuto). Respeitar (muito, todos). Cultivar a paz. Trabalhar. Construir e construir de novo. Recomeçar as vezes que forem precisas, aprendizes impacientes em carreiras de Job, o caminho é longo. Acordar todos os dias no ponto de partida. E nunca nos sentirmos derrotados.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Hoje
























Sete em cores, de repente
O arco-íris se desata
Na água límpida e contente
Do ribeirinho da mata

O sol, ao véu transparente
Da chuva de ouro e de prata
Resplandece resplendente
No céu, no chão, na cascata

E abre-se a porta da arca
Lentamente surgem francas
A alegria e as barbas brancas
Do prudente patriarca

Vendo ao longe aquela serra
E as planícies tão verdinhas
Diz Noé: que boa terra
Pra plantar as minhas vinhas

Ora vai, na porta aberta
De repente, vacilante
Surge lenta, longa e incerta
Uma tromba de elefante

E de dentro de um buraco
De uma janela aparece
Uma cara de macaco
Que espia e desaparece

"Os bosques são todos meus!"
Ruge soberbo o leão
"Também sou filho de Deus!"
Um protesta, e o tigre - "Não"

A arca desconjuntada
Parece que vai ruir
Entre os pulos da bicharada
Toda querendo sair

Afinal com muito custo
Indo em fila, aos casais
Uns com raiva, outros com susto
Vão saindo os animais

Os maiores vêm à frente
Trazendo a cabeça erguida
E os fracos, humildemente
Vêm atrás, como na vida

Longe o arco-íris se esvai
E desde que houve essa história
Quando o véu da noite cai
Erguem-se os astros em glória

Enchem o céu de seus caprichos
Em meio à noite calada
Ouve-se a fala dos bichos
Na terra repovoada

Vinicius de Moraes, 1980.


***

Também hoje choveu durante o dia, mas à noite, a fala dos bichos foi particularmente extraordinária. Quem passou por zonas inundadas e viu o seu dia de trabalho perturbado por situações menos comuns terá estranhado o empenho discursivo de autarcas e membros do governo, a devoção de jornalistas, a empatia de mentes menos ocupadas que se entretiveram a fotografar e filmar carros alagados em vez de - eventualmente - ajudar às situações complicadas que se geraram. Tempo, pelos vistos, havia, pelo menos para acusar histericamente o vizinho. Seja cada um o seu Noé, que isto de ter cargos públicos dá muito trabalho e a imagem não permite que se molhem os pés. E quem queira mais solidariedade pode bem tirar o cavalinho da chuva...

domingo, 17 de fevereiro de 2008

1907


Geraldine Farrar, 1882-1967, no papel de "Madame Butterfly".

Library of Congress, Prints and Photographs Division, ID cph.3b10328.