quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Queria

A minha mãe a embalar-me e a contar-me a história do Touro Azul. Também que as pessoas fossem mais simples e não um bando de crescidos revoltados ou acomodados. Queria que se acreditasse de novo em magia, porque a magia é precisa. Queria que com cada Magalhães (por sinal, um bom projecto e eu não sou suspeita a dizer isto, poderei escrever sobre isto em horas mais lúcidas) as crianças recebessem uma senha com direito a um colo e uma história da noite em casa e uma professora que lhes cortasse o bifinho na escola enquanto sorri. Queria, por uma vez, um Ministro ou Ministra da Educação que sorrisse com as crianças ou quando fala ou pensa ou trabalha para elas. Queria ter a capacidade simples de chorar quando esfolo um joelho ou me partem um brinquedo ou a bola ficando a dormir num telhado alto e ninguém para a ir buscar. Queria nunca mais ver adultos que se humilhassem e em vez de aprenderem a conversar e a debater as questões que interessam a todos, desconversassem e se agredissem como vi hoje. Não é com ironias que se dá saúde ao pulsar da humanidade.

Queria um abraço quando penso, como a Mafalda, que o mundo está doente e as pessoas mais doentes ainda por dormirem a bom sono em vez de pensar como o podem melhorar. Talvez, quem sabe, com uma história do Touro Azul e um beijinho. Como a minha mãe, que sempre resolveu os problemas do mundo que se lhe foram deparando em vez de agonizar em discussões estéreis sobre os problemas etéreos.

Mas amanhã, talvez, pode ser que o mundo esteja melhorzinho. Talvez que hoje apenas uma virose no Magalhães, coitado. Falta de controle parental, dizem. Embora me soe a falta de magia, apenas. Os sentimentos e os sonhos não se controlam.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Cidade do Outono

Quando as cores têm carinho e os cheiros caem das árvores das memórias e brotam uma música de fundo, inesquecível. É o Outono urgente que nos acorre, o princípio do renascimento da cor e dos sentidos, senão como as caras sorridentes molhadas na manhã, como as mãos a alcançar as folhas que voam sem cair enquanto o coração toca no céu, como as recordações todas tão vivas e os desejos tão acordados, ah, como, esta patética e incontrolável desarrumação da natureza que somos.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Secção NEE na FNAC

Já sabia da novidade mas ainda não tinha encontrado, por acaso, a naturalidade com que a FNAC vende os produtos da sua nova secção. E adorei. Necessidades especiais merecem muita qualidade, muita estética, muita ternura. E muita divulgação, porque não há assim tanta oferta destes produtos, os interessados merecem saber... Quem não conheça, que procure informar-se. É bom conhecer o mundo em que vivemos e os nossos vizinhos que são muitos e diversos.

O denominador comum é que todos gostamos e precisamos de aprender e de brincar. Portas da FNAC aberta a ainda mais meninos, toca a procurar o que nos interessa! Respeitar a diversidade humana na sua riqueza e direitos é uma qualidade de gestão e de humanidade. A FNAC está de parabéns, pelo que tem feito pela cultura e pela aprendizagem no nosso, como em tantos outros países.

Uma palavra de apreço para Nuno Lobo Antunes, que se associa à promoção desta iniciativa, e que dinamiza em Portugal a investigação sobre Síndrome de Asperger, patologia complexa e que afecta seriamente os portadores e os seus próximos, tentando, com a sabedoria e ternura com que o ouvi falar num congresso CERCI em Leiria há um par de ano, dar o seu melhor. E o nosso melhor é sempre muito bonito de se dar quando pode fazer toda a diferença na qualidade de vida de muitos meninos...

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Venda de pessoas?


Pessoas à venda?

E eu que não acho isto nada bem!

Património.

Pessoa(s).

Parece que rima. Porquê desrespeitar as nossas heranças?

Em cascata

É preciso embalar os dias sofridos, deixa-me passar a mão nos teus cabelos enquanto não ganho a coragem de cantar. Deixa-me sonhar com os passeios no mar da madrugada, com a árvore grande do Príncipe Real, com a senhora com o papagaio no ombro na feira. Ouve, ouve comigo - fecha os olhos, amor - o chiar alegre dos baloiços com pares de pézitos medrosos do chão a pedir colo. Sentes o mar das ondas grandes? O mar que gostas mais, o teu mar do Guincho? Passarinhando pela berma da praia como se a não pudéssemos pisar. Em bicos de pés pelas rochas como se mundo pudesse acordar e todos os sonhos ruírem logo, logo.

De mansinho, de mansinho, como canta o menino da voz bela que ama estrelas como nós. Há mais pessoas assim, sabias? Que não levam o mundo demasiado a sério, só um bocadinho, só o bocadinho importante de nós. E depois, há o amor, essa palavra furiosa, fera, que rasga o acontecido e o lança na rua aos gritos como o louco, sabes, aquele que mora na esquina da rua dos meus pais.

Queria ser mais louca ainda para te seguir em cascata, queria que me entendesses os gritos e entendes, queria que me abraçasses e abraças, mas agora, anjo, agora mesmo, como se o teu peito o meu porto e todas as canções.

Agora penso-te, esse ti que eu inventei e existe, existe, os grandes não sabem, mas existes, existem os tis em que as crianças acreditam. E têm caracóis.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Para Regensburgo, com humor

Ontem procurei dar a melhor atenção possível a Maria de Lurdes Rodrigues. Não fui capaz. O cargo é ingrato, é para queimar, mas a senhora não cativa. Tem um eterno ar de infelicidade como se acabasse em cada minuto de ler estatísticas para em seguida as citar, apagar e reiniciar o ciclo. Ontem ouvi também que José Nuno Pinto da Costa vai ser indemnizado pelo Estado Português. O Estado Português? Nós fazemos parte da coisa, certo? Eu cá não indemnizo ninguém que alterna entre mafiagens futebolescas e amores pagos a crédito. Não sei porque será este nome tão conhecido na praça pública, cuidei que era por mérito que as pessoas nos lembravam.

Terrível, o telejornal de ontem, aliás o zapping entre telejornais. Até porque as coisas boas que acontecem no nosso país da educação e que não são da responsabilidade directa da supra-citada senhora não são notícia. Ora neste momento temos umas quantas crianças a caminho do seu segundo dia de escola, alguns mesmo com vontade de trabalhar, contra ventos e tempestades. Temos igualmente alunos do ensino superior a progredir com os seus estudos enquanto trabalham, nada há de mais bonito e mais esforçado que estudar e trabalhar, tenho sério apreço por essa raça autóctone dos trabalhadores-estudantes, a qual integro humildemente desde que me conheço. Trabalhar para ganhar o sustento e para ganhar recursos para se sustentar o eterno processo de aprendizagem. É bonito. Mas não se fala disto.

Li nestes dias um livro, ofereci-o também, é um livrinho-emoção portanto, um objecto que para mim já tem uma historinha, que extravasa o seu conteúdo, por sinal bastante bom. Foi uma recomendação de alguém que sabe das artes de pensar, de uma amiga que muito prezo, que passei a duas pessoas especiais demais para mim, que acabei por procurar para entrar capa e ideias a dentro e que tem feito as delícias das minhas tardes numa leitura de conjunto com o meu filho. Platão e um Ornitorrinco entram num bar...

Penso nas questões de forma e de conteúdo, penso nos preconceitos pseudo-intelectuais sobre livros de grande divulgação e auto-ajuda, penso neste livro se tivesse uma outra capa, com esta sempre escapou, tem ar de livro de pensar, tem ar de livro sério, se tivesse uns bonecos e a capa branca podia ser como aqueles Manuais para Compreender os Homens ou Porque é que as Mulheres não sabem ler mapas ou talvez o Monte Cinco, um livro prodigioso de que só li uma página. Este li-o todinho e estou a reler com atenção. Seguiu um exemplar para Regensburgo, numa mala de estudante, será processado em laboratório e manterá a dignidade da língua portuguesa que, à falta de melhor serve de Pátria, em paisagens danubianas e três meses de muito trabalho.

Esforçados, somos um povo esforçado. Sabemos o que queremos, nunca se deve tomar a nuvem por Juno. A passividade pode ser uma espera. O que sempre é, convenhamos, inteligente.

sábado, 6 de setembro de 2008

O meu nó direito



"É muito difícil abarcar um universo onde as nossas rotinas andam misturadas com os nossos sonhos
e com a tal harmonia do mundo onde espero esteja prevista a nossa alegria." António Alçada Baptista



Serve para ligar duas estruturas de forma suave mas firme. Nó direito ou square knot é uma espécie de salva-vidas prático e acessível. Tem toda uma lógica, ou as lógicas todas que lhe quisermos encontrar, tem, também, que ser compreendido. Compreende uma ou duas cordas, fitas, tiras, estruturas, e une-as sem prender, o nó preferido de quem gosta de harmonia e pretere vínculos. Quase mais laço que nó, na verdade. Mas palavras são palavras, ou haverá grande diferença entre encantar e espantar, a não ser na alma de quem admira ou surpreende? As artes de ser e de estar no mundo são complexas, nós cegos que doem e cortam o ar.

O meu nó direito é verde e foi dado e ensinado num dia de esperança. Só se ensinam artes de sobrevivência (só se aprendem artes de sobrevivência) com a quantidade exacta de luz no verde, a proximidade de paragens afectivas, os fios que nos teceram e os que nos tecerão, na medida exacta de alquimista sábio.

Gosto dos dias em que me aprendo. Hoje aprendi o meu nó direito.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Ruído visual

Tenho estado desde o fim-de-semana a imprimir Braille. Para chegar aos dedos, a informação passa por estádios diversos, como uma esperança de sucesso...

Primeiro tem que ser tratada e adequada aos seus destinatários. Há descrições que podem e devem ser alargadas e específicas, sobretudo as que falarem das impressões visuais ou descreverem imagens anexas ao texto que acompanham. Há palavras a limar, há descrições visuais explicadas por metáforas também visuais que são redundantes e não têm qualquer significado. É apenas um saudável exercício de nos colocarmos no lugar do outro, aquele exercício de sair do nosso espacinho protegido e aprender a comunicar sem ser para nos vermos ou ouvirmos. É um reaprender a ser e a dizer mais completo, sem amarras ou subsídios à comunicação parcial ou em voga.

De resto, nada mais de complicado, excepto estar em linha de produção com três impressoras - uma produz o harmonioso ruído de 80 decibéis (nos dias de boa disposição). E unir texto em braille, imagens relevadas e cor, para que o conjunto - neste caso específico- posso ser do usufruto de grupos de pessoas com várias capacidades e incapacidades ligadas ao sentido da visão.

As palavras são manhosas: uma capacidade é uma potência, uma eficiência é um exercício. Usualmente não me perco pelo dicionário politicamente correcto, gosto de gastar o meu tempo por caminhos mais capazes, uso termos directos e relativamente consensuais quando falo de pessoas, mas sobretudo tento falar de pessoas e não dos seus olhos, pernas, braços. Porque a nossa identidade é composta mas ultrapassada pelas suas características.

Penso no barulho que uma das impressoras faz neste momento em que escrevo, a chamar-me para ir ordenar e encadernar os exemplares, revê-los (deve-se rever o Braille, de repente salta uma gralha, de repente salta uma misturada de códigos).

Ficam bonitos os livros de sentir...

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Quando as palavra são demais


Falam os olhos e as mãos também, e assim os caracóis soltos do cabelo, se for uma criança ou alguém muito puro que nos cai no colo e se cuida porque sim.

Quando não se fala é-se expressivo demais, pode-se chorar ou sorrir ou dar a mão. Com medo ou sem. O medo tempera a ansiedade, a calma chega depois, como um parar de respirar porque não é mais preciso.

A arte do silêncio e o romantismo que dela faz parte foram abandonados há muito. Nos primórdios do cinema, a mensagem era tão nítida que o mundo tinha contornos de tabuleiro de xadrez, exactos, os bons, os maus, o longe e o perto. Em décadas, o som invadiu as telas e as próprias imagens passaram a ser múltiplas e previsíveis.

De vez em quando temos dias surpresa que não sabemos donde chegam. A mensagem vem do espaço ou de perto, a origem não interessa, o mundo fica, de facto melhor. As princesas da cidade também passeiam livros de colorir sem legendas, a princesa Pixar anda a dar cartas.

Dias de rir e sorrir, de parar e silenciar, de recordar tradições, renovar infâncias e amar de manhã ao entardecer do dia, de beijar a lua por um quadradinho da cerca que saltamos quando queremos.

Somos do tamanho do que vemos e não da nossa altura. Em poucas palavras, explicam os poetas que queremos ser.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Hoje, o mar


Espero sempre em Agosto as grandes calmarias quentes, gosto de mar, gosto de quem gosta de mar, desejo sempre o mar verdadeiro, com ondas, com canções de longe, com rugidos que nos agarram. Esta manhã o mar estava feroz onde se esperava calma.

Têm sido uns dias agitados e noticiados, entre éticas e pragmáticas, desesperos e embates, raças e justiças, lembro uma entrevista de António Lobo Antunes à Ler+ do passado Maio, em que explicava porque se sentia incapaz de ser figura pública e falar de acontecimentos que não os seus, que a sua razão era só a do seu trabalho e o resto, opiniões pouco credíveis (citado de cor e mal, mas o sentido, para mim, foi este).

Está citado de cor e mal, mas parece-me bem, que eu não sou contra raças nem credos nem diferenças - até que trabalho diariamente com este último conceito - mas também não sou contra países nem contra desporto, apenas contra as pequenas e grandes hipocrisias do nosso mundo e da nossa sociedade globalizadora de gentes.

Olho para as células criticantes e analiso-as: famílias que gritam entre si em praias sujas, famílias que gritam entre si em centros para comerciar, crianças que se esquecem de olhar o mar e brigam por uma qualquer coisa dispensável à sobrevivência da poesia, crianças que exigem junto ao mar. Gente poderosa, os senhores do mundo, a brincar a um deus enraivecido que não existe a não ser em proveito próprio e comovemo-nos com quê (até a criança que en/cantou na abertura dos Jogos não era a pequenina que vimos, mas uma menos perfeita que ficou atrás de um microfone porque não era uma perfeita demo da sua raça).

Esta subversão do mundo é muito triste e o mar ruge proporcionalmente às nossas irracionalidades, interesses comezinhos, desumanidades. Basicamente o mar ruge ao egoísmo. Para que o ouçam e percebam que os outros se devem sempre ouvir. Sempre.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Para lá do óbvio

Os blogs portugueses são mais do que os que conhecemos. É disso que falo. Da nossa incapacidade para procurarmos mais além. Da nossa omissão em relação aos outros. E das nossas conclusões sobre um geral que não é geral, sobre uma humanidade conveniente.

Os bloggers trazem aos seus espaços as suas impressões e sentires sobre tudo ou sobre os nadas que importam. Leio com agrado muitos blogs, acompanho alguns fóruns de discussão e não gosto de sentir separações vãs. Existem blogs de texto e com um interface simples para ser ouvido por leitores de écran (o software que converte toda a informação acessível que é passível de visualizar no écran para output audio ou para linha braille). Esses blogs estão reunidos num portal que tem informações preciosas para aprendermos a lidar connosco mesmos (ou seja, também com o outro, o que é fundamental, se temos pretensão a humanidade).

Nos blogs do lerparaver fala-se tudo o que se fala nos blogs Blogger ou Wordpress. E é por isso que é importante tê-los em conta quando falamos de blogosfera portuguesa.

Quem não vê, lê com os ouvidos ou com a ponta dos dedos e, apesar dos ainda inúmeros preconceitos, está na vida de forma activa e participante. Não são os sentidos nem a sua ausência que fazem de nós pessoas estruturalmente diferentes. As pessoas são diferentes desde que existem. Felizmente e criativamente diferentes.

Ler para ver.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Cão que ladra!


... não morde, dizem, mas incomoda muito. Ladra o cão por razões várias e, também, por razão nenhuma. Porque lhe apetece, porque não tem mais que fazer. Para chamar a atenção ou o dono. Porque passou outro cão. Porque é de noite e ouviu um barulho.

Ladra-se, então, por medo e por coragem. Porque se quer dizer alguma coisa (mas o ladrar não é idioma, é mais tipo apelo). No caso do cão, apelo à comida ou às festas. No caso do cão sem tino, ladrar é mais tipo vocação, perdeu o tino porque perdeu o Norte. Mas não a voz.

Ladra-se porque se quer refilar ou com saudades que refilem connosco. Todos gostamos de ser orientados. É mais fácil que orientar. E bastante preferível a esperar. No fundo ladramos porque insatisfeitos com a ausência de adversários que nos animem ou com a falta de motivação em nós mesmos, ladramos sempre, sobretudo, porque não encontramos o que procuramos, mesmo que seja a paz que perdemos.

Todos os motivos externos são bons para ladrar. E ladra-se porque se sabe muito bem que não há razão nenhuma para morder.

O cão desta história existe no cantinho de nós, pelo menos de mim. Ouço-o ladrar quando tenho medo ou quando estou perdida, esquecendo-me que parte das vezes em que me perco é porque simplesmente não estou a olhar para onde devo. Ora se olhamos para os pés ou para o umbigo a perspectiva do caminho fica difícil...

Melhor ladrar quando o dono está que quando dorme. Porque as festas também se merecem. E a persistência e a atenção fazem parte de se ser feliz. Pelo menos, são as qualidades que nos encaminham. E para guiar, convém saber ser guia.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Horário de Verão


Hoje é dia de escrever e de me pensar. De fazer planos e de recapitular. Bom conselho encontrei nesta imagem, aproveito a folga de trânsito e o menor movimento de gentes para encontrar o tempo de ler e de estudar que me falta. Também, o de reflectir. Penso nos dias de verão já corridos e no calor vivido como se o sentisse na pele. Penso no verão que é e no curso de Braille que foi, com o som das máquinas forte, forte, ainda nos ouvidos e as mãos a doer. Nos trabalhos que preparo e nas férias que começo na sexta, sem bem as começar.

Nos fins-de-semana. Nos dias de praia com irmãos mais pequeninos que os sobrinhos, em jogos de King com areia e em serões de esplanada com conversa na mesa e algum café a arrefecer. Penso na areia que a Carlota teve medo de tocar no domingo e nas ondas fortes da maré que regressa e que querem sempre que regressemos com elas e nós a querer ficar.

Ouço os telefonemas de saudades dos que ficam, dos que vão, dos que partem, dos que ainda não foram, como se as férias uma estação de comboio de linhas mais loucas que o Chapeleiro de Carroll e nós com as malas cheias de vidas tão trocadas que nem sabemos se queremos voltar a algum lugar já vivido. Depois as máquinas de roupa como aviões a lavar esperanças e sonhos e empadas descongeladas para um jantar afinal cosy de quem não partiu porque escolheu partir-se e ficar junto.

Sempre gostei do verão. Os dias têm a mania de ser grandes e no entanto alguns bem pequeninos e anichadinhos e meigos que não assustam tanto porque até o por do sol sabe sempre a paz e a lar. É bom chegar ao fim de algo e ao início de outro tanto. Porque hão-de as fronteiras do tempo ser tão impositivas? Veremos se este será um dos melhores verões a recordar, um dos marcantes, um dos que ensinam, dos que não esvaziam. Porque tudo é irreversível, até as estações que nunca são iguais e todos sabemos, porque tal nos ensinaram, e nós o aprendemos, que já nada muda como soía.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Ou então sim...



Há blogs que são sorrisos. Uns porque nos fazem meditar, reflectir, ficar felizes porque lemos um texto bonito e sentido ou pragmático e incisivo. Outros porque sim. Há que blogs que sim. Pelas escolhas de música, pelos poemas que divulgam e que não conhecíamos, pelas ternuras que publicam. Ou só por existirem. Alguns, têm pessoas transparentes por trás. Outros, pessoas que identificamos com um rosto e uma personalidade que bate certo com tudo o que de lá nos chega. E com datas. Hoje é o dia de um dos blogs que visito com mais gosto. Porque sim.

Parabéns, Pyny. E boas férias!

quinta-feira, 17 de julho de 2008

(A)palavrar


É o que fazemos por aqui. Apalavramos. Ideias e ideais, opiniões mais ou menos fundamentadas, equilíbrios. Apalavramos projectos e conceitos. Apalavrar é bonito, soa a compromisso, mas pode tornar-se vago. Que ética existe pela blogosfera? Somos todos uma bonita transparência, mais rentável que isto é difícil. Começamos por escrever as nossas verdades, depois alimentamo-nos de palavras calibradas, orientadas, quase pedidas. Ousados, ousamos (ousemos).

Apalavrar deveria ser bonito, soa a casamento ou a acordo de cavalheiros, as palavras, afinal, valem o que valem. Quando se cruzam, está o caldo entornado. Quando se repetem, tornam-se óbvias. Perdeu-se a magia? Ou a palavra?

Não o creio. Há males que perseguem a humanidade, um deles é a arte da fuga. Mas a palavra, senhores, é sagrada, honremo-la. O que escrevemos que seja a nossa verdade. Uma verdade apalavrada, temperada, pessoal, criativa. Mas de palavra, palavra de honra, que o virtual não se destina a temporalidades nem a certezas, mas quem o emite é de carne e osso.

terça-feira, 15 de julho de 2008

?




Nunca sei como é que se pode achar um poente triste.
Só se é por um poente não ter uma madrugada.
Mas se ele é um poente, como é que ele havia de ser uma madrugada?

Alberto Caeiro

domingo, 6 de julho de 2008

Precious

Foi um livro e depois uma cor. O Hobbit tinha consigo um anel e dois nomes, Tolkien e Ralph Bakshi. E uma data: 1978.



Muitos anos depois, os homens da terra média construíram outro filme que não quis ver durante tempo a mais. Nestes dias em que pouco escrevi, em que pouco viajei, encontrei outro Gandalf e outro Frodo, outras paisagens do Shire, outras batalhas de cores menos vermelhas mas não menos belas.

A história, como uma paixão, fala dos homens e das causas, fala de nós e do que de nós lá quisermos rever. Fala de ambição e de humildade, de coragem, de lealdade, de amor. Fala de grandes e pequenos que se unem e desunem, fala de gente diferente e de gente especial e ainda de gente que se esqueceu de ser gente. É, talvez, uma história que fala muito bem da eterna história dos que ousam ser homens.

Com menos vermelho e menos sombras, sem o sobressalto do livro que é, ele mesmo, uma procura, revivi a história do anel poderoso que derrete ao calor do esforço, do idealismo e da coragem.

Precioso é o intangível, obviamente.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Caminhos de cor


Não entendo nada da vida a não ser este ridículo pesar do amor em tudo o que procuro, os caminhos de cor, procuro sempre os caminhos que sei de cor. Nos meus percursos, nas minhas empatias, nas pessoas que conheço ou reencontro, encontro sempre uma Maria longínqua que gostava de ter sido, uma espécie de Maria que foi e ainda será, um espelho fosco dos meus ideais nos outros que vou admirando ao longo da estrada.

São de cor os caminhos e as pessoas que me procuram - ou, provavelmente, as que me encontram. São de cor as músicas que ouço, os filmes que vejo, os livros que leio, como se nada de novo houvesse, realmente, debaixo do sol que me aquece de verdade.

É bom um dia em que me cruzo com seres admiráveis e sem idade, com história tão díspares como galáxias, tão harmoniosos como Stairway to Heaven que ouço enquanto os dedos escrevem por mim e me pensam um bocadinho mais claro, com um bocadinho mais de cor.

É bom um dia em que me recordo, em que sei de cor, os passos dados noutros dias com o mesmo nome, dias de descoberta, de encontros com sentido, com sentidos, com sentires, mais que arco-íris dentro de vidas, mais que verões por chegar, adiados, conhecidos de cor antes de acontecerem, esperados, sofridos, esperançados, caminhos de cor, caminhos de cor, quantas vezes passamos por aqui sem nos vermos?

Sabermo-nos de cor é deixarmo-nos colorir com o coração que bate em nós e nos outros, que descompassa ritmos de crianças que se não envergonham de o ser, é deixarmo-nos amar, é sabermos o não e o sim que combinam com os sonhos que temos desde que respiramos e é encontrar sempre algo perdido, sabido e esquecido e voltado a saber, a sabor, de cor, com o coração.

Dar cada passo como o primeiro e o último, como o início e o desespero de cada tentativa, caminhar de cor, caminhar de cor, saberemos orientar-nos, de verdade, noutra direcção?

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Paratodos


"Não há ventos que não prestem

nem marés que não convenham

nem forças que me molestem

correntes que me detenham."

António Gedeão


Para todos os que puseram a bandeira à janela para os jogos da selecção e escreveram lençóis de tinta ou terabites de comentários a respeito, para todos os que ajudaram a parar o país para reunir força moral para os nossos jogadores, para todos os que ontem se entristeceram, para todos os que assistirão aos jogos olímpicos, para todos os que batalham e desistem, para todos os que não aprendem a lutar com as características que realmente têm e não com as que gostavam de ter, para todos os que alguma vez desanimaram, para todos os que já desistiram um dia, para todos os que não chegaram a tentar, para todos os que não os conhecem, para todos os que não acreditam:


deixem-se guiar.