sexta-feira, 14 de março de 2008

terça-feira, 11 de março de 2008

Antes de amanhã

— "Dorme: se os pesares
Repousares,
Vês? — por estes ares
Vamos rir;
Mortas, não; festivas,
E lascivas,
Somos — horas vivas
De dormir. —"

Machado de Assis


Calo o sono que me aconselham e endoideço as palavras que me cercam como folhas soltas num monte em que devia repousar. Quem pintou onde me encontro? Tinta de cansaços, sem cheiro, tarda a manhã e vigílias são glórias ocultas. Quem sabe um raio de sol para espantar o escuro e os olhos rejeitados. Quem sabe um espelho onde a luz fraca deixe de ser artificial e aconteça. Não me parece a boa disposição no dia que ainda não foi parido. Julgo que mais um cinismo de deixar fluir as horas acontecidas contra os ponteiros, afinal no hemisfério norte a água esvai-se na direcção de sempre, os nós de gente passiva dormem e eu escrevo contra mim.
-
Espero o futuro num banco de jardim sem que os pés toquem o chão, esperamos o futuro sempre em forma de crisálidas, esperaremos o acontecido virando a cabeça na estrada até doer?

quarta-feira, 5 de março de 2008

O sim, o não e o talvez

Dizemos sim quando cedemos ou quando optamos? Dizer não é geralmente assumido como uma força revelada. Não quero, não vou, não faço, não gosto. Sim não se usa na frase. "Sim, quero" tem uma horrível vírgula a separar as palavras. Como se o sim fosse um senhor pequenino e magrinho que se chama quando não há nada a fazer e lá temos que anuir a qualquer desgraça que adiámos enquanto fomos personalidade. A vírgula é uma hesitação coxa que mostra desgraçadamente que pensámos ser ou proceder de outro modo mas lá tivémos que nos deixar ir. É feia, estragada e separa o que deve fluir. Não gosto de vírgulas, que são, além de mais, adiamentos. Gosto de palavras coordenadas, que se dizem com força e que se aliam nas frases como cada um de nós gosta. O Não pinta-se em mensagens grafitadas de protesto e usa-se em marchas e greves (o operário disse não, não retorceu Vinícius o idealismo como Régio que só sabia que não ia por ali, o que será mais para o lado do "talvez já decida mas por enquanto quero guardar apenas o direito de opção").

Não (não me parece). Nada de Talvez.

Gosto de decisões positivas e assumidas, das que acordam de manhã e bebem uma chávena de café caseiro sem açúcar frente a uma janela de opções aberta sobre o sol que se levanta e escolhem no fresco e húmido da manhã que nasce qual é o seu sim. Gosto de respostas directas e francas e rápidas, não como cedências, mas como escolhas, não seremos tão influenciáveis que percamos a nossa liberdade se ouvirmos opiniões ou sugestões. O sim está na resposta e cada um só diz o que quer. Claro que há condicionantes, mas a liberdade corre mesmo por aí, por esse caminho bem escuro que se chama presente e que é uma linha tão ténue que a confundimos com o acontecido e o desejo. Possivelmente o presente devia-se chamar vontade. É o curto espaço em que nos deixam remar e depois outra corrente e outros ventos.

O Não reprova algo que já existe ou já foi verbalizado. O Sim pode ser um passo no desconhecido. É belo o direito de opinião sobre o existente mas é preciso grande coragem para propor o que poderá existir. Ser cidadão é poder criar alguma pedras da nossa cidade, ler todos os desafios e responder-lhe com alternativas, actuar em vez de observar.

Talvez o Sim seja um Não com conteúdo para além da negação.

Sim a tudo.

sábado, 1 de março de 2008

Os dias matam



Encontro esta imagem por azar - galicizemos - quando termino mais uma leitura de L'Écume des Jours. Boris Vian no seu melhor e eu continuo ratinho suicida. Apesar de tudo, gosto de nenúfares. Gostarão eles de mim?

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Calendas de Março

"- O teu relógio indica o ano em que estamos? Perguntou o Chapeleiro.
- Claro que não. Respondeu Alice muito depressa.
- Mas isso é porque um ano inteiro dura muito tempo. Justificou Alice.
- O que é exactamente o caso do meu! Disse o Chapeleiro."

Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas


"Happy he who has passed his whole life mid his own fields, he of whose birth and old age the same house is witness.... For him the recurring seasons, not the consuls, mark the year; he knows autumn by his fruits and spring by her flowers."

Cláudio



É hoje o último dia das calendas de Março, o dia antes de Março começar. O dia que pensamos ser o extra de um ano bissexto - na realidade 24 ou 25 intercalados, como substituição de um mês adicional - a favorecer a dignidade de Augusto permitindo-lhe que o mês com o seu nome fosse tão comprido como o de Júlio. Assim, todos satisfeitos, os 366 (dois seis, bissexto...) dias cumpridos, as luas certas, a Lebre de Março a caminho. Como todos os dias levemente fora da triste rotina entorpecedora, este é mais um pretexto para tradições criadas como pretexto de fuga e criatividade, as pessoas que se festejam nesta data são ainda mais especiais por terem um dia para si criado por um imperador e afinal tudo não passa de uma brincadeira nossa para lidar com o tempo, melhor optarmos por umas leituras interessantes sobre o tema e não pensarmos muito no que não sabemos bem se é uma dimensão mensurável da realidade ou apenas um desenho artificial do nosso percurso.


Sobre o tempo: *
Sobre o calendário romano: **
Sobre anos bissextos:
***, **** e *****
Sobre desafios dignos de Lebres de Março
****** e *******

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Margarida


A minha mãe tem grandes olhos castanhos e pestanas longas e doces, sendo que o cabelo foi castanho, arruivado, cor de raposa matreira de Aquilino - com profusão de caracóis como sorrisos - e hoje está da cor do chão do inverno ou da espuma das ondas. O seu coração é grande e forte, nele cabendo o meu pai, nós cinco, onze netos e um bisneto em forma de desejo que chegará ao nosso colo lá para Setembro.

A minha mãe tem um sorriso à chegada e uma meiguice contagiosa. Nasceu em 1924 mas os dias de hoje também são seus. Como já anda no caminho há muito tempo e os seus olhos viram muitas coisas e choraram bastante, talvez por isso agora tenham entendido descansar. Também porque correu muito e trabalhou sempre muito as suas pernas estão cansadas e os percursos são mais lentos e acho que dolorosos. Apenas acho porque opta por ser feliz todos os dias, relativizando estes factores para dar toda a importância às coisas boas que tem (que cultiva).

Na verdade acabo de chegar de sua casa, onde festejámos em família o seu aniversário. E o seu sorriso continua luminoso, os olhos brilhantes, a energia redobrada. Gira entre todos, a todos dá atenção - sente-se, Mãe - beija o meu Pai quando passa perto da sua cadeira, dá aos netos o melhor colo do mundo - sente-se, Mãe -, acompanha-nos à porta - descanse, Mãe - e dá-nos as boas noites como se, indo para fora de sua casa - os filhos criados, os netos crescidos, o bisneto ainda portátil - fossemos para os nossos novos quartos na casa grande que é o mundo, e ela continuasse sempre, mas sempre, a tomar conta de nós.

Por isso tenho a certeza que daqui a minutos me virá dizer para apagar a luz e descansar, distribuirá copos de leite e bolachas, lembrará a todos as prioridades do dia seguinte, ajudando a arrumar pastas de escola e de trabalho, talvez deixar uma flor dentro de um livro ou um bilhete escrito com carinho impresso na letra alegre, grande e redonda que usava.

Tenho a certeza que virá. Como dormiria eu hoje bem, Mãe, no dia do seu aniversário, sem me aconchegar a roupa e me cantar baixinho?

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Caminhos sem migalhas


Esquecemo-nos por aí. Então perdemos o rasto de nós. Pensamos em coisas grandes, marcamos fronteiras, criamos e desfazemos países, amizades, equipas, identidades, partimo-nos em vez de nos partilharmos. Não me parece que os homens sobrevivam sós - passe o tom bíblico da reflexão.

Cultivar (os nossos jardins, as nossas memórias). Valorizar (o que é tão pequeno que importa mesmo cuidar com muito carinho porque é mais sensível e mais frágil e se nos distraímos se estraga e destrói facilmente, não por ser menor, mas por ser um maior que só é forte quando o pensamos).

Transportamos em nós as coisas importantes. Como as histórias que nos contaram em pequenos, a música dos chuviscos nas janelas dos quartos, os bonecos abraçados na cumplicidade tímida do escuro, o cheiro dos livros de histórias cheios de mãos de crianças a dobrar as folhas, o frio das manhãs de escola, a paz dos sonos infantis em que se sorri.

Será suficiente? Continuamos a fazer guerras e a ser ambiciosos demais, preocupamo-nos com a Cultura como se fosse uma senhora muito importante e descuramos a cultura menos óbvia e menos auto-sustentada - como dizem as pessoas crescidas (a cultura não precisa de sustento, existe, façam as pessoas o que fizerem para a estragar). Perdemos os valores como peças de lego ou cromos, não arrepiando caminho para os recuperar, perdemos até o tempo, que obrigamos a caminhar depressa demais, o tempo, a nossa desculpa para não darmos o nosso melhor, o tempo, a nossa fuga, o nosso alibi, para, no limite, não sermos felizes.

Pequenas coisas a não perder... Estar atento. Aprender com humildade. Agir com convicção. Amar completos. Nunca perder o que (e quem) nos construíu até agora mesmo (neste minuto). Respeitar (muito, todos). Cultivar a paz. Trabalhar. Construir e construir de novo. Recomeçar as vezes que forem precisas, aprendizes impacientes em carreiras de Job, o caminho é longo. Acordar todos os dias no ponto de partida. E nunca nos sentirmos derrotados.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Hoje
























Sete em cores, de repente
O arco-íris se desata
Na água límpida e contente
Do ribeirinho da mata

O sol, ao véu transparente
Da chuva de ouro e de prata
Resplandece resplendente
No céu, no chão, na cascata

E abre-se a porta da arca
Lentamente surgem francas
A alegria e as barbas brancas
Do prudente patriarca

Vendo ao longe aquela serra
E as planícies tão verdinhas
Diz Noé: que boa terra
Pra plantar as minhas vinhas

Ora vai, na porta aberta
De repente, vacilante
Surge lenta, longa e incerta
Uma tromba de elefante

E de dentro de um buraco
De uma janela aparece
Uma cara de macaco
Que espia e desaparece

"Os bosques são todos meus!"
Ruge soberbo o leão
"Também sou filho de Deus!"
Um protesta, e o tigre - "Não"

A arca desconjuntada
Parece que vai ruir
Entre os pulos da bicharada
Toda querendo sair

Afinal com muito custo
Indo em fila, aos casais
Uns com raiva, outros com susto
Vão saindo os animais

Os maiores vêm à frente
Trazendo a cabeça erguida
E os fracos, humildemente
Vêm atrás, como na vida

Longe o arco-íris se esvai
E desde que houve essa história
Quando o véu da noite cai
Erguem-se os astros em glória

Enchem o céu de seus caprichos
Em meio à noite calada
Ouve-se a fala dos bichos
Na terra repovoada

Vinicius de Moraes, 1980.


***

Também hoje choveu durante o dia, mas à noite, a fala dos bichos foi particularmente extraordinária. Quem passou por zonas inundadas e viu o seu dia de trabalho perturbado por situações menos comuns terá estranhado o empenho discursivo de autarcas e membros do governo, a devoção de jornalistas, a empatia de mentes menos ocupadas que se entretiveram a fotografar e filmar carros alagados em vez de - eventualmente - ajudar às situações complicadas que se geraram. Tempo, pelos vistos, havia, pelo menos para acusar histericamente o vizinho. Seja cada um o seu Noé, que isto de ter cargos públicos dá muito trabalho e a imagem não permite que se molhem os pés. E quem queira mais solidariedade pode bem tirar o cavalinho da chuva...

domingo, 17 de fevereiro de 2008

1907


Geraldine Farrar, 1882-1967, no papel de "Madame Butterfly".

Library of Congress, Prints and Photographs Division, ID cph.3b10328.

Chove...


Aguardemos...

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Semanas sérias

Há semanas que começam como pessoas crescidas a acordar: com horas certas, o cabelo penteado, com uma eventual gravata, sem sorrisos - mesmo sérias - e nos preocupam com tantos formalismos e imposições. Há semanas doces, há semanas cultas, há semanas mais ou menos. Há semanas em que nos sentimos fracos, outras em que mudamos o mundo de lugar.

Não sei como vai ser a minha. Penso em demasiadas coisas de uma só vez. Na semana complicada (há semanas tristemente interessadas em Pessimismo) que passou. Na semana que se aproxima em saltos de coelho branco atrasado e que travo a perguntar pelo sorriso, como se um passe para entrar na minha vida.

Tenho que me deitar às 10:30: organizo o impossível em meu redor. Pior seria se tentasse organizar o pensamento. Há 41 anos que evito semelhante actividade e não a recomendo a ninguém. Vejo materiais de apoio que devo levar amanhã para Lisboa, também ficheiros que devo gravar, olho para as janelas abertas durante o dia no meu écran, releio conversas, centro-me na agenda e a semana salta como se se materializasse por antecipação, assombra-me, porque teremos a mania de viver no futuro como se um desejo nos deslumbrasse permanentemente e impedisse de ser felizes hoje?

Possivelmente porque temos consciência que queremos sorrir mais no dia seguinte, lutar bastante mais que no dia anterior, aprender infinitos, ler tudo o que nos aparecer, viver tudo, entrar em todas as brigas, dar todos os beijos, ser íntegros. Melhor levar o mundo no peito para a terra dos sonhos porque precisamos de ser muito egoístas para ser felizes hoje com tudo o que há a fazer para sorrir.


É que, mesmo nas semanas sérias, sobretudo nas semanas sérias, não faz sentido sorrir sózinho.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

A seguir






"Ou o poço era muito fundo, ou ela caía muito devagarinho, mas o certo é que teve bastante tempo para olhar à sua volta enquanto descia e para se pôr a pensar no que iria acontecer a seguir."

Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas

Despreocupada

No limite, importarmo-nos com o que é importante. Não sei se estátuas choram apenas nos contos de Wilde. Há factores da nossa vida e do nosso mundo que não controlamos. Dias em que ocorrem coisas a mais, dias que nos deixam a pensar que a relevância do que nos cerca passa pela sensibilidade individual e também pela consciência de grupo mais ou menos apurada que cada um de nós tenha desenvolvido. Gosto desta balada dos Dire Straits, que não me parece tão óbvia como isso. Devemos envolver-nos e preocupar-nos com o que podemos mudar. Ou seja, reservar as nossas forças para as coisas realmente importantes. Na nossa atitude pessoal e social. Não perder (nem usar mal) balas. Não abusarmos de retóricas mas também não ser óbvios. Inevitável, essa distinção entre nada e coisa nenhuma de que nos fala o Poeta. E saber esperar. Precisamente por haver tempo e uma oportunidade para todas as lutas.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Evil Machines



We all have monsters
You couldn't see mine,
But it was as real as can be.

We all have monsters.
But can we face them?
Harder to do than say.



We all have monsters
And they're lurking in our heads
Round street corners, under beds.

Did we make them up or are they real?

Or is it just a case of how we feel?

sábado, 26 de janeiro de 2008

Gritar


Foi quando compreendi

Que nada me dariam do infinito que pedi,
-Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!




José Régio

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Restauro

-
Como sugestão de fim-de-semana, porque não uma visita ao MNA? Museu com preocupações de integração e bem-estar de todos os seus visitantes, preparado para acolher pessoas na sua riqueza e diversidade, com recursos bastante razoáveis de acessibilidade à estrutura e à informação. Preparado para acolher também pessoas de todas as faixas etárias. Com um delicioso jardim interior onde é agradável ler, com um simpático café que é indispensável visitar dado que era a cozinha do convento de Clarissas em que esta unidade museológica se encontra instalada. O espólio é interessante, está documentado e integrado em espaços verdes, exposições temporárias e na riqueza do próprio edifício original. Para ir com calma, em boa companhia (pode ser de um livro).

Fundamentais: a vista de Lisboa pré-terramoto, o factor humano e a felicidade de escapar ao consumismo desenfreado que força os visitantes a sair pela loja (neste caso é, agradavelmente, um espaço alternativo e não imposto). Não necessariamente por esta ordem.
Faz falta conhecer e respeitar as nossas memórias, refugiar os olhos na arte, explorar as informações sobre o saber-fazer. Viajar no tempo, trabalhar conceitos belos que podem valer individualmente ou em conjunto, ter histórias de si mesmos e histórias de todos os que as contaram. No final, a mensagem é de respeito pelo trabalho humano e pela criatividade, essa irmã da liberdade, valores a resgatar (restaurar?) e a dignificar. Sobretudo pela metáfora de que unidos (restaurados enquanto família, enquanto humanidade) somos bem mais belos, valiosos e úteis.

Restauremo-nos, pois...



quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Nada

A. Rodtchenko, A Pioneira, 1930.


"Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada.
À parte isso tenho em mim todos os sonhos do mundo."


Álvaro de Campo, Tabacaria.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

A dimensão da poesia

Era ele que erguia casas

Onde antes só havia chão.

Como um pássaro sem asas

Ele subia com as asas


Que lhe brotavam da mão.


Mas tudo desconhecia


De sua grande missão:


Nao sabia por exemplo


Que a casa de um homem é um templo


Um templo sem religião


Como tampouco sabia


Que a casa que ele fazia


Sendo a sua liberdade


Era a sua escravidão.


De fato como podia

Um operário em construção


Compreender que um tijolo


Valia mais do que um pão?


Tijolos ele empilhava


Com pá, cimento e esquadria


Quanto ao pão, ele o comia


Mas fosse comer tijolo!


E assim o operário ia


Com suor e com cimento


Erguendo uma casa aqui


Adiante um apartamento



Além uma igreja, à frente


Um quartel e uma prisão:


Prisão de que sofreria


Não fosse eventualmente


Um operário em construção.


Mas ele desconhecia


Esse facto extraordinário:


Que o operário faz a coisa


E a coisa faz o operário.


De forma que, certo dia


À mesa, ao cortar o pao


O operário foi tomado


De uma subita emoção


Ao constatar assombrado


Que tudo naquela mesa


- Garrafa, prato, facão


Era ele quem fazia


Ele, um humilde operário


Um operário em construção.


Olhou em torno: gamela


Banco, enxerga, cadeirão


Vidro, parede, janela


Casa, cidade, nação!


Tudo, tudo o que existia


Era ele quem fazia


Ele, um humilde operário


Um operário que sabia


Exercer a profissão.



Ah, homens de pensamento


Não sabereis nunca o quanto


Aquele humilde operário


Soube naquele momento


Naquela casa vazia


Que ele mesmo levantara


Um mundo novo nascia


De que sequer suspeitava.


O operário emocionado


Olhou sua própria mão


Sua rude mão de operário


De operário em construção


E olhando bem para ela


Teve um segundo a impressão


De que não havia no mundo


Coisa que fosse mais bela.



Foi dentro dessa compreensão


Desse instante solitário


Que, tal sua construção


Cresceu tambem o operário


Cresceu em alto e profundo


Em largo e no coração


E como tudo que cresce


Ele não cresceu em vão


Pois além do que sabia


- Excercer a profissão -


O operário adquiriu


Uma nova dimensão:


A dimensão da poesia.



E um fato novo se viu


Que a todos admirava:


O que o operário dizia


Outro operário escutava.


E foi assim que o operário


Do edificio em construção


Que sempre dizia "sim"


Comecou a dizer "não"


E aprendeu a notar coisas


A que não dava atencao:


Notou que sua marmita


Era o prato do patrão


Que sua cerveja preta


Era o uisque do patrão


Que seu macacão de zuarte


Era o terno do patrão


Que o casebre onde morava


Era a mansão do patrão


Que seus dois pás andarilhos


Eram as rodas do patrão


Que a dureza do seu dia


Era a noite do patrão


Que sua imensa fadiga


Era amiga do patrão.


E o operário disse: Não!


E o operário fez-se forte


Na sua resolução



Como era de se esperar

As bocas da delação


Começaram a dizer coisas


Aos ouvidos do patrão


Mas o patrão não queria


Nenhuma preocupação.


- "Convençam-no" do contrário


Disse ele sobre o operário


E ao dizer isto sorria.



Dia seguinte o operário


Ao sair da construção


Viu-se subito cercado


Dos homens da delação


E sofreu por destinado


Sua primeira agressão


Teve seu rosto cuspido


Teve seu braço quebrado


Mas quando foi perguntado


O operário disse: Não!



Em vão sofrera o operário


Sua primeira agressão


Muitas outras se seguiram


Muitas outras seguirão


Porém, por imprescindivel


Ao edificio em construção


Seu trabalho prosseguia


E todo o seu sofrimento


Misturava-se ao cimento


Da construção que crescia.



Sentindo que a violência


Nao dobraria o operário


Um dia tentou o patrão


Dobrá-lo de modo contrário


De sorte que o foi levando


Ao alto da construção


E num momento de tempo


Mostrou-lhe toda a região


E apontando-a ao operário


Fez-lhe esta declaração:


- Dar-te-ei todo esse poder


E a sua satisfação


Porque a mim me foi entregue


E dou-o a quem quiser.


Dou-te tempo de lazer


Dou-te tempo de mulher


Portanto, tudo o que vês


Será teu se me adorares


E, ainda mais, se abandonares


O que te faz dizer não.



Disse e fitou o operário


Que olhava e reflectia


Mas o que via o operário


O patrão nunca veria


O operário via casas


E dentro das estruturas


Via coisas, objectos


Produtos, manufacturas.


Via tudo o que fazia


O lucro do seu patrão


E em cada coisa que via


Misteriosamente havia


A marca de sua mão.


E o operário disse: Não!



- Loucura! - gritou o patrão


Nao vês o que te dou eu?


- Mentira! - disse o operário


Nao podes dar-me o que é meu.


E um grande silêncio fez-se

Dentro do seu coração


Um silêncio de martirios


Um silêncio de prisão.


Um silêncio povoado


De pedidos de perdão


Um silêncio apavorado


Com o medo em solidão


Um silêncio de torturas


E gritos de maldição


Um silêncio de fracturas


A se arrastarem no chão


E o operário ouviu a voz


De todos os seus irmãos


Os seus irmãos que morreram


Por outros que viverão


Uma esperança sincera


Cresceu no seu coração


E dentro da tarde mansa


Agigantou-se a razão


De um homem pobre e esquecido


Razão porem que fizera


Em operário construído


O operário em construção


Vinícius de Moraes

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Mudanças

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e, enfim, converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soía.


Luis de Camões


Certamente que não nos banhamos duas vezes na água do mesmo rio. Bom é pensar no bom que houve e não esquecer o mal pelas razões certas (não acredito nessa história de se aprender com o mal, acho sobretudo que se deve aprender a evitá-lo, não forma o carácter, por vezes destrói-o).

Teorias de Maria que não valem um chavo. Tempos de mudança, tempo que muda quando olho pela minha janela, quando inicio uma nova fase dentro de uma fase comprida demais da minha vida, que me marcou porque nada escorre por nós como água. Alterou-se a paisagem da janela do meu quarto, a mesma que fotografo sistematicamente porque gosto de rever a passagem das estações, o cultivo dos campos, medir o trabalho dos homens no mundo - quanto tempo ainda o velho moínho a ronronar com o vento, na cor de cobre que o dias lhe deram?

A chuva alterna com um sol que agora aprecio, emoldurado por nuvens coloridas e imprevisíveis. Mudar não nos acontece, como um sol que se põe ou que acorda. Mudar envolve-nos e, como diz o sábio poeta, de cada vez a mudança parte de um terreno diferente porque se baseia na pessoa que somos e que todos os dias cresce. Com esperança de manter a criança no coração e remar eternamente com desejos de descoberta. Para lá da mudança em torno, instaurar dentro de nós a mudança que queremos e ser-lhe fiel até à curva seguinte do caminho.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Nada mais

Há dias assim, em que nos deixamos ser felizes.

Nada mais importa.

Conferir no poema, ouvir a harmonia.

Sermos nós e rasgarmos no tempo que nos é dado a nossa circunstância.

Assinar a vida com amor.