Em desfado, em demanda de outras eras, de outras sortes, uma gaivota grita na minha janela recados de um além ou de um porvir porventura esquecidos ou fantasiosos. O mar, essa força, essa potencia, que nos leva o pensamento gelado para uma corrida defensiva de um quotidiano fácil. O mar, que recua se avançarmos ou que nos pode arrastar se lhe virarmos as costas em desrespeito, que o destino fada os incautos a desgraças certas e mesmo os cautelosos não estão livres dessa prisão do imprevisível. Grita a gaivota e foge ou regressa, conforme eu lhe diga adeus ou a acolha como uma dor maternal aceite pelo processo de estar que compete aos vivos. Ouço-a e estou grata pela maioridade das minhas memórias e pelo mar que me puxa e pelas gaivotas que me fazem levantar a cabeça. Mesmo, sobretudo, hoje.
"Um título é parte integral de uma história. Porque não? No fim de tudo, a vida não é uma resposta. restam ambiguidades. Resta o espaço para a dúvida." Isaac Asimov, Mensagens do Futuro.
domingo, 17 de maio de 2015
terça-feira, 12 de maio de 2015
Acaba um ano e começa outro por voltas da meia-noite de hoje. Apetece-me o campo e os seus cheiros de primavera intensa. Apetecem-me colos que já não tenho. Tenho que rever um texto e não me apetece trabalhar, nem a mim nem a certas bases de dados que estão em baixo porque talvez eu as tenha contagiado, com o calor, o sol nos olhos da manhã, o entardecer dos meus 48 anos hoje com o real entardecer que começa agora, o meu cansaço de 48 anos a procurar sempre as mesmas belezas e os mesmos sorrisos e faltarem porque a vida não é como se quer. Que fiz eu em 48 anos? Que não terei feito? Que me faltará fazer? Estou demasiado consciente a escrever, escrevo melhor cansada, do esgotamento para as palavras. O calor é assim, fora de tempo, como tantas coisas que nos cercam. Não é fácil saltar o muro, não é fácil desistir de bocados à medida que a idade que vamos fazendo dói porque nos vamos ou nos vão consciencializando disso. Talvez doa realmente fazer anos porque temos que assumir aquele ar introspectivo enquanto olhamos as velas queimadas pelo esfumado do olhar (já) longo e pensamos que na estrada ficou tanto e talvez ainda (um talvez inseguro) tanto caminho a percorrer sem saber porquê ou como. Um cansaço. Sempre na memória "o tempo em que festejavam o dia dos meus anos eu era feliz e ninguém estava morto". Pois é.
A Concha
A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.
Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.
E telhadosa de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.
A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.
Vitorino Nemésio
Segreguei-a de mim com paciência:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.
Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.
E telhadosa de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.
A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.
Vitorino Nemésio
quinta-feira, 7 de maio de 2015
Altos em baixos...
Em dias de boas notícias seriam os altos a predominar, sorrisos e tal, suspiros de alívio e festejos. Porém os pensamentos em catadupa que consciencializam o que queremos e o que se escusava : a permanência das tristezas e das melancolias. Nostalgias não porque arrependimento mata e acabámos de sobreviver a mais uma dose. Mas que dose, esta vida de três pequenos dias. Afinal devia bastar olhar o sol até encandear o pensamento e na luz encontrar o calor que falta quando faltam (a)braços.
terça-feira, 5 de maio de 2015
A escrita e a fala
Em dias normais uso as duas formas de comunicação mais óbvias, mais vulgares. Escrevo e falo demais porque sou comunicativa ou quando estou nervosa (e.g. aguardando o resultado de um exame). Não gosto quando quero comunicar uma coisa e é percebida outra. Não gosto, também, de querer comunicar de uma das formas e só me ser permitida outra.
Claro, nem sempre somos como queremos ser. Eu quero falar, quero dizer de mim, quero explicar, sempre senti essa necessidade desde criança. Quando um bloco de pedra nos impede de emitir qualquer ideia, quando qualquer som nele bate e regressa a doer, a comunicação morre porque nos dói sem sequer ter chegado ou sido apreendida pelo destinatário.
Aguardo exames e doo, não dos exames, mas da falta de coerência de um mundo em que a voz escrita ou falada de que falam os escritores da semiótica falha como uma flor que nós vemos e os outros temem como um qualquer tumor estranho que ali anda, incomodamente, toco de vela que ainda não se apagou.
Na realidade, só a limpidez do discurso cura as dúvidas e tira os medos. Mas há dias que nos sobrecarregam tanto com nuvens que nem isso nos é dado.
terça-feira, 21 de abril de 2015
Papoilas e árvores
As papoilas, claro, muito mais frágeis e no entanto o que cortamos são árvores. As papoilas, inúteis de tão belas e as árvores cheias de potência de sombra, resina, frutos, madeira e com o tempo contado para as desendeusarmos. Nas papoilas talvez bichos pequeninos, nas árvores até os homens podem morar. E no entanto, a fragilidade perene, as semelhanças da dor e da cor de sangue e de vida, as nossas histórias que podiam incluir uma de amor entre duas espécies vegetais se fossemos cientistas que não somos e por isso podemos, apenas, ficar um bocadinho tristes todos os dias em que se perdem as qualidades complementares e inúteis que constituem os sentimentos dos nossos pequenos mundos.
segunda-feira, 13 de abril de 2015
Lago
Contemplo o lago mudo
Que uma brisa estremece.
Não sei se penso em tudo
Ou se tudo me esquece.
O lago nada me diz,
Não sinto a brisa mexê-lo
Não sei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo.
Trêmulos vincos risonhos
Na água adormecida.
Por que fiz eu dos sonhos
A minha única vida?
Fernando Pessoa
Lígia
Numa semana em que me queixo interiormente do que me vão descobrir pelas entranhas dentro, estranho uma ausência de coragem e incentivo na pessoa de uma grande amiga e colega de faculdade. A Lígia era um sorriso onde todos desanimavam. Onde qualquer um teria desanimado. Depois da minha primeira operação teve uma conversa fantástica comigo, realista, animadora, cheia de sabedoria. Falou-me do mês em que tinha parado tudo só para estar com o neto e passear e nadar e aproveitar as pequenas-grandes coisas que a vida, apesar de tudo, nos dispõe. Gostava de ter a tua força, minha amiga, não só para as coisas físicas como para a palavra separação, cujo significado não me entra. Tu eras professora e continuo a mastigar as tuas lições sem ter a capacidade de as entender na totalidade. Hoje, sabes muito mais que eu. Foste muito mais que muita gente. Mas gostaria de te ter tido ao lado mais um pouquinho do caminho...
sexta-feira, 27 de março de 2015
As doenças
Além do ternurento poema de António Lobo Antunes sobre o homem constipado, temos as doenças correntes que nos vão espreitando ao longo da estrada. Umas do corpo, outras da alma, algumas cansam, outras deixam-nos cansados, derrotados. Os tumores, esses anónimos gigantes que nos espreitam das paisagens mais primaveris, depois de pensarmos que tinha acabado o combate, eis-nos a levantar e a lutar de novo ou a parar porque incrédulos. Desastres, tristezas, só a morte. Enquanto combatemos estamos - mais ou menos - de pé. Mas incrédulos porque o tempo nos leva depressa de mais e aos bocadinhos e temos que lutar muito para que não nos leve a alma. Também Lobo Antunes documenta bastante gentilmente o seu percurso como doente oncológico. Todos somos príncipes, diz. Todos eram príncipes. Talvez sejamos espelho do príncipe que vemos e respeitamos no outro que talvez sofra um bocadinho mais, que talvez esteja um bocadinho mais expectante, que talvez, só talvez, parta um dia nas asas desse moínho que é, de facto, um gigante imbatível.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
Trabalho
Há vários tipos de trabalho. Não considero trabalho o que faço. É mais uma construção, vagarosa, um processo, um caminho, um abrir de sulcos no meu próprio ventre. Tudo o que tenho construído, se algo está de pé, sai do meu próprio coração e erradica sobretudo da escrita associada à observação. Para o melhor e para o pior. Porque é a mim que me observo, não como Narciso, mas num lamento de mais não alcançar com as palavras que demoram a crescer e, muitas, morrem antes de ver a luz do dia.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
Ponto por ponto
Acabo de transcrever um pequeno texto para Braille. Assustadoramente fácil, mesmo num dia frio em que as mãos gelam sobre as pequenas teclas da máquina - sim, foi escrito em máquina.
Interrogo-me a quem terá pertencido esta máquina... Há objectos do quotidiano que transitam de geração, outros entre amigos ou entre a docilidade de relações amorosas, ofertas, doações, heranças. E depois há objectos sem história conhecida que nos caem no colo e nos preenchem projectos.
Esta máquina Braille é alemã, provavelmente dos anos 20 do século 20 (gosto de escrever números iguais, saltei o romano propositadamente). Leipzig tinha editoras e tinha um grande asilo para cegos. Logo, fabricava instrumentos de trabalho e de ensino. Faz sentido. Mas como foi feito o seu percurso para Portugal? Quem a vendeu, encomendou, usou? Quem, finalmente, a despejou na feira em que a encontrei, sózinha e escura para quem passava, pedaço descarnado de ferro com sete teclas, e brilhante e luminosa para mim, que tanto precisava dela? Foi o chamado bom encontro e quem a vendia teve a simpatia de descontar no preço o trabalho que lhe daria carregar o objecto pesado e inútil novamente para casa ou para o armazém. Quem usa máquinas Braille? Como se pode criar uma relação de empatia, de camaradagem com um adereço de trabalho sem história conhecida, cheio de história muda, que agora se dedica a fazer histórias, quem sabe, para uma criança cega vir a ler um dia?
domingo, 15 de junho de 2014
O primeiro mundial do resto da minha vida
Tenho memórias de muitos campeonatos do mundo de futebol, ou não tivesse eu já 48 anos. Provavalmente assisti a muitos jogos ainda bebé e ouvi muitos e bons comentários, bem observados e justos, porque os meus irmãos e o meu Pai sabiam ver jogos e sabiam comentar.
Tenho para mim, desde essas memórias inconscientes que o momento do grito é mesmo o do golo. No futebol não se tenta, faz-se. E é só o que se faz que se conta. É uma bela metáfora, este jogo tão britânico e tão corrompido de tudo em que os homens se empenham: também por aqui há dinheiro a mais e a menos, sobrando que da arte que devia preparar o concreto, pouco ressalta.
Gostei do empenho, até ao final, da eufórica Holanda. Gostei muito da luta e arte de futebol ao primeiro toque e poder de drible da Inglaterra que continua a ser um potentado junto dos outros meninos, por muito que sejam amiguinhos de Michel Platini. Gosto de inesperados, de valores, de surpresas que depois parecem óbias.
Gosto, e muito, da estética do futebol, gosto que seja um desporto muito fotografável, gosto que seja belo, que nele se apliquem as mais complexas leis da física aplicada, da cerveja e da pintura na cara.
Mas cuidado: o futebol não é pão e circo. É um desporto com história, que se pode jogar na praia como num estádio construído pelo luxo supostamente comunista de Dilma. A soberba do Planalto e da FIFA são apenas o que sobra de uns dias de jogos belos de ver. Quem ficar, dirá.
terça-feira, 18 de março de 2014
Crisis, what crisis?
Temperados os meus dias com algumas situações pessoais que me fizeram viver durante quatro anos numa realidade quase paralela, acordo para telejornais e twitters de arrepiar de incoerência. Consulto pessoas amigas, lúcidas, conscientes. Apercebo-me da semelhança de todos os regimes em todas as épocas. Da constância de uma maioria inqualificada para ter opinião para além do rebanho. De uma maioria que se rende a uma minoria impositiva, sem ter a preocupação de se questionar, sejam quais forem as suas ideologias políticas, religiosas, sexuais, parentais, académicas... Sim, o futebol continua a ter as costas largas para quem é acusado de se evadir dos problemas reais (o mundo pára, realmente, quando joga o Benfica... e ainda bem) mas as notícias exacerbadas e as lágrimas descomprometidas de qualquer situação que, em minha consciência, julgaria privadas, como se justificam senão como alternativa a uma vida de revistas cor-de-rosa que não parece bem neste momento de suposta crise financeira geral, como manobras de diversão de uma situação política e financeira de gravidade real? Decorre metade desta crise da falta de informação que se revela nas taxas de abstenção das eleições mais recentes? Estará o acto democrático transferido do voto para o grito de rua e do conhecimento para o encolher de ombros?
É muito aborrecido constatar que o mundo é demasiado parado e que as pessoas não evoluem assim tanto. É muito incómodo traçar prioridades e ser justo nos julgamentos das situações. É dificílimo ter bom senso. Ou seja, em quatro anos, pouco ou nada mudou. E em quarenta?
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
Ilustrar o quotidiano
Trabalhando a Ilustração Portuguesa, revejo, em cem anos, que a instabilidade e a curiosidade continuam os grandes atractivos sociais para a comunicação escrita. Ora neva, ora há greve de comboios, ora temos nevoeiro em Lisboa, ora se casam políticos, Júlio Dantas editoriala e o povo - que é um pouco mais igual a si mesmo do que julga - lê.
Madame Brouillard adivinhou. O passado, o presente e o futuro confundem-se em processos sistémicos que nos afundam na certeza da prescrição que nos empurra marcialmente entre os arquivos de nós e a história que pensamos ser dos outros.
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
Dançar na linha fina do tempo que corre.
Dançam o vento e o sol, está frio, que inverno longo, que pouca vontade de sair, que vontade de voltar a mim, tanto que escrever e os dedos presos, a chávena quente parada a olhar-me, incrédula, a janela abafando os sons do mundo, eu, aqui, sem me querer ser.
Ligo o aquecedor e penso no verde que me cercava em pequena e que agora longe. Ao fundo da minha janela a luz aumenta e um pouco de mar, um pouco de serra, alguém que passa, o velho moínho que geme por mim.
As nuvens correm menos, agora e espero que o tempo modere nos relógios porque não consigo acertar o velho despertador do Pai e faz-me falta o tic tac certeiro que alinha pensamentos e objectivos, um tic tac quase cardíaco, seguro, sereno, suave.
Mudo dos óculos-de-ver-ao-perto para os óculos-de-ver-ao-longe. Passaram alguns anos desde as cabanas de juncos e Maître Corbeau e as rosas em braçadas e ser tudo natural como sorrir, escrever, pintar, tocar, ler, cozinhar, passear, conversar. A sequência que me trouxe hoje aqui, genética e mimética, acelerada e, porém, no compasso certo, e hoje, hoje, hoje mesmo, o dia em que não me aceito porque me faltam os produtos puros do resultado que sou.
Mais vento que sol outra vez. Revoltos como os meus sonhos, os juncos da casa de hoje sobre as memórias de ontem. E eu procuro dentro de quarenta anos os abraços que aqueceram e fizeram sorrir os dias de inverno de cada inverno que passei até este.
Ligo o aquecedor e penso no verde que me cercava em pequena e que agora longe. Ao fundo da minha janela a luz aumenta e um pouco de mar, um pouco de serra, alguém que passa, o velho moínho que geme por mim.
As nuvens correm menos, agora e espero que o tempo modere nos relógios porque não consigo acertar o velho despertador do Pai e faz-me falta o tic tac certeiro que alinha pensamentos e objectivos, um tic tac quase cardíaco, seguro, sereno, suave.
Mudo dos óculos-de-ver-ao-perto para os óculos-de-ver-ao-longe. Passaram alguns anos desde as cabanas de juncos e Maître Corbeau e as rosas em braçadas e ser tudo natural como sorrir, escrever, pintar, tocar, ler, cozinhar, passear, conversar. A sequência que me trouxe hoje aqui, genética e mimética, acelerada e, porém, no compasso certo, e hoje, hoje, hoje mesmo, o dia em que não me aceito porque me faltam os produtos puros do resultado que sou.
Mais vento que sol outra vez. Revoltos como os meus sonhos, os juncos da casa de hoje sobre as memórias de ontem. E eu procuro dentro de quarenta anos os abraços que aqueceram e fizeram sorrir os dias de inverno de cada inverno que passei até este.
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
Regresso
Passaram três anos e está mais frio, faltam braços e berços, porém sementes espalhadas sabiamente, pensamentos ceifados ao vagar das lágrimas e das saudades, um levantar do chão lento e inseguro, passaram três anos, as mãos agarram as palavras, o corpo reergue-se sobre um passado recente agora desconhecido, olhado de longe, estranhado, como um mergulho no mar bravo, sem ar.
O hoje provavelmente voltou. Talvez eu tenha voltado na maresia suave das palavras.
terça-feira, 17 de maio de 2011
Num dia assim.
Nem sol nem chuva, o tempo em torno apertado até doer e as árvores inclinadas. O meu gato certeiro por entre os papéis antes da chuva e eu sem distinguir ficção e real, escrita, som e nada. O dia como um filme, imagens em socalcos num percurso que não desenhei nem escolhi. Guardo as folhas para sair de casa. Confundo-as com as das árvores inclinadas pela tempestade. Talvez se as deitar pela janela o sol entre.
quarta-feira, 4 de maio de 2011
O gato que comia rosas
Na minha janela, o meu gato, meu, meu, meu, que possessivos, que imperiosos nos tornámos, tenta comer duas rosas numa jarra cheia de água e luz, onde arco-íris boiam afogados pela falta de sol dos dias agridoces.
(a que saberão as rosas?)
O trabalho noutras janelas defronte de mim, com pensamentos em prioridade hedonista sobre dever e prazos que me trariam paz.
Em Abril há flores amarelas nas traseiras da minha casa (meu, meu, meu, como se me quisessem arrancar a vida e esta defensiva fosse única). Nas traseiras, o velho moínho que já nem o vento mais forte faz girar. Suponho que há um momento em que enferrujamos de vez e nem a maior intempérie nos volta a fazer funcionar, nem os gritos do vento, nem os desejos da vizinha da janela pequena, nem as ameaças de Quixote, nada faz mover os mecanismos e vozes de nos embalar. Fora de tempo.
(caíram duas folhas da rosa pequena)
Em Maio, os espaços por preencher, os caminhos das papoilas, os vazios a encher de letras e as memórias definidas, bem demais, em xadrez, casa preta, casa branca, dia branco, dia negro, as pedras em que caminhamos e não nos cabe o presente quando somos sempre pequenos demais e as luzes dos anúncios a mandar acabar o dia já tão longe, no tempo em que os moínhos e as rosas e os gatos livres na rua de ninguém.
(de quem serão as folhas que caem)
Faz muito mais sentido sermos pétalas que folhas.
(a que saberão as rosas?)
O trabalho noutras janelas defronte de mim, com pensamentos em prioridade hedonista sobre dever e prazos que me trariam paz.
Em Abril há flores amarelas nas traseiras da minha casa (meu, meu, meu, como se me quisessem arrancar a vida e esta defensiva fosse única). Nas traseiras, o velho moínho que já nem o vento mais forte faz girar. Suponho que há um momento em que enferrujamos de vez e nem a maior intempérie nos volta a fazer funcionar, nem os gritos do vento, nem os desejos da vizinha da janela pequena, nem as ameaças de Quixote, nada faz mover os mecanismos e vozes de nos embalar. Fora de tempo.
(caíram duas folhas da rosa pequena)
Em Maio, os espaços por preencher, os caminhos das papoilas, os vazios a encher de letras e as memórias definidas, bem demais, em xadrez, casa preta, casa branca, dia branco, dia negro, as pedras em que caminhamos e não nos cabe o presente quando somos sempre pequenos demais e as luzes dos anúncios a mandar acabar o dia já tão longe, no tempo em que os moínhos e as rosas e os gatos livres na rua de ninguém.
(de quem serão as folhas que caem)
Faz muito mais sentido sermos pétalas que folhas.
sábado, 18 de setembro de 2010
Outono
Prematuro, inesperado, com nuvens discretas e sistemáticas, polidas, rosas e brancas, acinzentando-se para o final em grandes gotas de chuva, lágrimas despejadas na terra seca do Verão de outras paragens. Molhou-me as memórias fotográficas de um ano corrido em aeroportos e lutas com folhas e ideias e ideias de folhas outras, ainda no porvir da escrita. Um vestido de flores pequeninas e um cego com dois dentes na Piazza Duomo. Uma Alice por idioma. Um nonsense sistemático em perseguição de qualquer coisa que se possa chamar uma vida. Pensar em coisas boas, pensar em coisas boas. O sorriso de gato na cara do meu filho sob a chuva de Edinburgo, uma noite a cair teimosamente na praia que não queríamos deixar às gaivotas, mais longe ainda, as bolas de berlim vendidas em folha de lata pela Lurdes e a mãe sempre a pentear-nos as ideias mais remotas e a sorrir com o sorriso que o pai adora. Outros finais de dia, outros Outonos. Vou visitar o seu sorriso persistente e encontrar nele o sol que hoje falta, o calor que começa a fugir pelas pastas da escola, a força de ter força mesmo quando as nuvens mais pequenas trazem tempestades ciclópicas.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Ensaio sobre a Cegueira
São só meninos como os outros e estão sentados em torno a uma tavola rectangular mas em que se não identificam cabeceiras, pois a luz está dentro e não fora dos seus olhos, e o essencial é omnipresente. "Ciao, Maria", enquanto o trabalho já começou, uma semana de formação para voltarem para casa com mais umas dicas tiflológicas para o seu ambiente, para a coordenação com os outros, com os pais, com os colegas, com o mundo. Consigo mesmos.
As abelhas feitas na véspera estavam colocadas minuciosamente nos hexágonos, cada um reconhecia o seu trabalho devagarinho, pelo tacto, pelo cheiro, pelo mapa de si mesmos, dos seus pensamentos, aprendendo a reconhecer a memória da coreogrfia dos gestos ou o que os crescidos chamam agora de neuroestetica.
Os gémeos tinham ido a uma consulta, estavam Stefi, France, Alle, Simo e Alfie, nomes de guerra, as tiflólogas de que não sei o nome e Paola, a mulher que dirige serviços trabalhando mais que todos os que orienta, a alma do Istituto dei Ciechi de Milão.
"Paola, Paola". O pão partido como na Última Ceia pintada numa parede algumas ruas ao lado. Os legumes identificados: tomate, basílico, orégãos, alho. Depois azeite e sal. Bruschetta. Fred acendeu o forno. Manejar facas sem ver quando se tem 6 anos pode ser complicado, mas mais belo ainda que o cozinhado final foi o convite feito à sala do lado, em que a compreensão do mundo era toda outra - não só pela visão, mas pela interiorização do conhecimento, diferente, própria, única, emocional, diversa, rica - para partilhar o resultado.
Hoje não fiquei para almoçar com os bambini de Paola, tive que sair mais cedo do Istituto porque o sal me cozinhava o pensamento de partir, de não os ver mais, só por dentro, só por dentro. Aprender a lidar com as distâncias. Uma senhora lia O Livro do Desassossego quando saí, com prefácio de Tabucchi. Cheguei a casa e liguei-me ao mundo da claridade, saí do buio doce e aconchegante. Fui aos correios para acordar. Voltei. Saramago morreu. Memorial do Convento, Ensaio sobre a Cegueira e, talvez, uma história de amor.
Hoje está sol depois da tempestade. É um dia igual aos outros. Pessoas que partem, pessoas que ficam. Dentro de nós. Luce su luce. Sempre.
As abelhas feitas na véspera estavam colocadas minuciosamente nos hexágonos, cada um reconhecia o seu trabalho devagarinho, pelo tacto, pelo cheiro, pelo mapa de si mesmos, dos seus pensamentos, aprendendo a reconhecer a memória da coreogrfia dos gestos ou o que os crescidos chamam agora de neuroestetica.
Os gémeos tinham ido a uma consulta, estavam Stefi, France, Alle, Simo e Alfie, nomes de guerra, as tiflólogas de que não sei o nome e Paola, a mulher que dirige serviços trabalhando mais que todos os que orienta, a alma do Istituto dei Ciechi de Milão.
"Paola, Paola". O pão partido como na Última Ceia pintada numa parede algumas ruas ao lado. Os legumes identificados: tomate, basílico, orégãos, alho. Depois azeite e sal. Bruschetta. Fred acendeu o forno. Manejar facas sem ver quando se tem 6 anos pode ser complicado, mas mais belo ainda que o cozinhado final foi o convite feito à sala do lado, em que a compreensão do mundo era toda outra - não só pela visão, mas pela interiorização do conhecimento, diferente, própria, única, emocional, diversa, rica - para partilhar o resultado.
Hoje não fiquei para almoçar com os bambini de Paola, tive que sair mais cedo do Istituto porque o sal me cozinhava o pensamento de partir, de não os ver mais, só por dentro, só por dentro. Aprender a lidar com as distâncias. Uma senhora lia O Livro do Desassossego quando saí, com prefácio de Tabucchi. Cheguei a casa e liguei-me ao mundo da claridade, saí do buio doce e aconchegante. Fui aos correios para acordar. Voltei. Saramago morreu. Memorial do Convento, Ensaio sobre a Cegueira e, talvez, uma história de amor.
Hoje está sol depois da tempestade. É um dia igual aos outros. Pessoas que partem, pessoas que ficam. Dentro de nós. Luce su luce. Sempre.
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