quarta-feira, 8 de novembro de 2006

Hespérion XXI

Ruben A. dizia "Não façam a cultura chata". Já não viveu para ver nem ouvir o maravilhoso trabalho de Jordy Savall, dos Hespérion XX - agora XXI, mudam-se os tempos, da Capella Real de Catalunya.



Tous les Matins du Monde (sont sans retour...)









Cancioneiro de Afonso X, Cantigas de Santa Maria










Esteve em Outubro na Casa da Música. Esperemos por mais uma visita a Portugal, entretanto, vamos sentindo, que o seu trabalho é para sentir. E menos divulgado que o merecido, historiador da música e cultura vividas.

Atrasada!

Desastrada, distraída, incompetente, este post devia ter entrado uma hora antes, fazemos de conta, sim?, que é dia 7 de Novembro ainda e festejamos o aniversário da minha amiga Susana, das pessoas mais bonitas que conheço. É difícil falar de amigos - dá sempre muito mais jeito falar de inimigos, podemos usar lugares comuns, expressões tradicionais, vernáculo. Falar de amigos é muito complicado, mas como a Susana é psicóloga, vai-me perceber bem. Ela sabe que eu sou um bocadinho criança. Por isso gosto do seu colo de amiga, do seu amparo. Claro, sabe também que a acho uma mulher muito inteligente (é psicóloga, convém falar de inteligência emocional por aqui...). Sabe que lhe agradeço tudo o que me ensina em cada dia. Que lembro, hoje (dia 7, dia 7) as aulas, os projectos, a orientação, os risos, as brincadeiras, os desabafos. Porque, realmente, adoro falar nos meus amigos, a minha família, a minha alegria. Com a Susana nunca temos que estar bem ou mal, podemos estar. Se precisarmos de um ombro contamos com ela, se precisarmos de uma companhia, de uma voz, de um sorriso, é a ela também que nos devemos dirigir. Quando estou triste ou sobrecarregada entra um mail giro para descomprimir, um telefonema, uma chamada de ordem: "quando tomamos café?", para a semana, sim?, ou a versão mais tradicional do "já almoçaste?" "tens dormido?" (variações dum mesmo tema, tens cuidado com os teus pintaínhos). Na altura certa, sempre - nunca sei como sabes, miúda. Tanto que corremos sem chegar a lado nenhum, és sempre calma. Tanto que nos queixamos e lamuriamos, estás sempre disposta a ouvir, paciência infinita, minha querida amiga. Sabes viver, és feliz, és lutadora. Quem diria, surpreendente Susana, que a menina tímida que me apresentaram um dia (o folheto da EPAL, lembras-te?) e com quem trabalhei e aprendi tantas coisas, tinha uns alicerces que suportam o mundo e mais meia dúzia de amigos. Que tenhas um ano muito feliz, a vida é para celebrar. E tu, minha amiga, irmãzinha, mereces tudo!

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

Pode alguém ser quem não é?

Último ano de faculdade, acidente de viação. Fractura das vértebras c3/c4. Cegueira total. Quando coloquei o post ontem, hoje - perdem-se os dias e as horas quando se trabalha, com pessoas, quando comunicar é uma necessidade - não sabia que viria ter comigo um caso que julgava perdido por falta de apoio. Equipa maravilha, a minha, costumamos brincar com isso, post de desabafo hoje, ternura por irmãos (tens razão, Preca, a família não está no mesmo tecto), difíceis os dias quando se não é nada, quando temos que inventar tudo, reinventar pessoas, buscar no mais fundo de nós a coragem que não temos para dar a quem a tem em muito maior escala, tamanho do mundo mesmo. Da Dinamarca, de Lisboa, de Carcavelos, do Algarve, de Espanha, de Inglaterra, dos Estados Unidos, de Alfragide, respostas múltiplas, talvez mais que as lesões do acidente, estradas perigosas, já todos perdemos alguém pelo caminho das duas ou quatro rodas. Este amigo novo ganhou duas para sempre. Reconstruir o quê, como, com quê? Não é pergunta de desespero, penso enquanto escrevo, partilho, pode ser que alguém leia, pode alguém ser quem não é?
Balanço, existe voz, existe audição, existe, muita, vontade. Existe a tecnologia, terá que ser testada, não existem - obrigado público aos pais da pátria da parte dos filhos da nação - subsídios para ajudas técnicas a partir de agora. Dinheiro porquê, se as trocas são afectivas e as procuras conjuntas? Um caso, uma pessoa, que terá que reaprender ritmos de movimento, de comunicação, de contacto. Perdas irreversíveis de formas de amar - não são sempre iguais, felizmente.
Que ética, nada... É um caso, este, que podia ser eu ou quem me lê. No ano passado fiz cerca de 700 km por semana. Porque não terei sido eu? Trabalho com gente. Orgulho-me de ser gente. Opções como viver ou morrer, lutar ou partir são pessoais e não as julgo, não me julguem a mim também, se faz favor, as pedras são arriscadas de atirar, não haja ventos contrários.
Vi EXIT no DocLisboa. Vi Volver há pouco tempo. Vi Mare Adentro há algum já. Viver ou morrer, ficar ou partir. Ele quer ficar. E pode ficar, há espaço para todos. Nem sempre há humanidade. Não quer ser um peso, quer trabalhar, precisa de comunicar, tecnologias, ficção científica - uma das minhas paixões - a entrar-me pelo telefone dentro, hoje, às 16:58. Voz afectada, compromisso oral leve, será difícil? Ligeira mobilidade no mão esquerda, será suficiente? Há quem trabalhe remotamente usando varrimento de écran comandado por voz. Há quem utilize sopro para controlar o computador e, quem sabe, esteja a esta hora a escrever um post como eu, dedos parados para sempre, partilha activa na mesma medida.
São gigantes. Hoje tive a certeza que são gigantes contra quem lutamos. Não importa. Quem quer viver que tenha vida longa. O que faz uma pessoa? O movimento? A cor dos olhos? As capacidades física ou intelectuais? Quebras... Isso é o difícil. Todos estamos preparados para perder faculdades com o passar dos anos, brincamos com isso, nunca para deixarmos um corpo preso a uma alma cheia de juventude e de vontade, nunca para deixarmos de ser quem queremos ser, quem nos orgulhamos de ser. Ou estaremos? Tanto para aprender, sempre. "Eu quero." Sim. Pode alguém ser quem não é? Vamos à guerra, Miguel.

Impressão Digital (a preto e branco)

"Os meus olhos são uns olhos,
e é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos,
onde outros, com outros olhos,
nao vêem escolhos nenhuns.
Quem diz escolhos, diz flores!
De tudo o mesmo se diz!
Onde uns vêem luto e dores,
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.
Pelas ruas e estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandecente!!
Inutil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos!
Onde Sancho vê moinhos,
D.Quixote vê gigantes.
Vê moinhos? São moinhos!
Vê gigantes? São gigantes!"


António Gedeão e Pablo Picasso. Causas.

domingo, 5 de novembro de 2006

Freelancer

From a cultural standpoint, freelancing is viewed as either above or below the social system. In keeping with Scott's original coinage, some Americans and most Europeans view freelancing as a socially elevated occupation. However, many Asian countries appear to follow Hormung by holding low regard for freelancers, often associating the practice with personal failure (an inability to find work with a major employer) and even criminality (ninja = one who uses the art of remaining unperceived)
(retirado em estilhaços da wikipedia)

Idealistas ou pontos de fuga? Deixar o sistema ou juntar-se a outro? Facilitismo? É bom não ter quem mande em nós. Ilusão, e das grandes, claro, que os contratos não são de entidades empregadoras, sociedades ou casamentos. Sózinhos assumidos, freelancers no trabalho e/ou na vida, entregam-se e dependem, os contratos têm sempre duas faces como as moedas, as entregas apenas uma mão que se estende.

De cansaços ninguém quer saber, com os nossos sentimentos lidamos nós mesmos, com a vontade combatemos todos os dias, que tabuletas diversas se nos apresentam e, ninguém, mesmo ninguém, ajuda a escolher, ou pode escolher, por nós. Pela esquerda ou pela direita, quem sabe se por cima dos telhados ou cavando um túnel no chão, voar se imposssível não nos fora - Ícaro deu-se mal, deve ter morrido feliz. Eu que acredito no Pai Natal, na Fada dos Dentes e no Noddy, acho que compensa lutar pelo que se acredita e fugir de facilitismos, com todas as dores que possam vir por arrasto. Viriam de qualquer forma, assim que venham por um motivo escolhido.

Faz de conta


Joan Miró
(1893 - 1983)
Bird Rising, Bird Descending in a Starry Night

"Faz de conta que és abelha
Eu serei a flor mais bela
Faz de conta que sou cardo
Eu serei somente orvalho
Faz de conta que sou potro
Eu serei sombra em Agosto
Faz de conta que sou choupo
Eu serei pássaro louco,
pássaro voando e voando
sobre ti vezes sem conta
Faz de conta, faz de conta."

Eugénio de Andrade

sexta-feira, 3 de novembro de 2006

Ternas alquimias




Não interessa como se faz o caminho, importante é ir e estar. Dia feliz passado na Fil, em encontro de tecnologias, das que servem para integrar e aproximar os homens, nas suas diferenças e potencialidades. Lembro-me agora de palavras de ternura escritas por quem sabe que os corpos têm valor na sua individualidade, que as vozes são todas as mesmas, os olhares todos completos, os sentidos e sentires sempre os suficientes.

Jorge Casimiro, grande poeta...

"Nas rotas do teu corpo
cumprem- se traços de gazela
escultura irreal
como irreal
é a cidade que te habita
talhada a golpes de maço
com a delicadeza de quem esculpe libélulas transparências
arranha- céus frágeis que baloiçam firmes ao vento
soltos à nortada de um suspiro
um respirar nocturno
e nas montras iluminadas viajam formas fugidias
fadas e monstros
duendes em transe
poção de druida
velho mago inspirado
que lança palavras secretas
ao poço de um último poema
em gestos voláteis de ternas alquimias"

As que unem os homens... (com)passos diversos, rumo, sempre, a um mundo mais verdadeiro.

Post para Galileo e para todos os que acreditam na verdade

Julgamento de Galileo, Douglas Linder

My dear Kepler, what would you say of the learned here, who, replete with the pertinacity of the asp, have steadfastly refused to cast a glance through the telescope? What shall we make of this? Shall we laugh, or shall we cry? - Carta de Galileo Galilei a Johannes Kepler
Poema para Galileo

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.

Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…
Eu sei… eu sei…
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!

Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar- que disparate, Galileo!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação-
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se tivesse tornado num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.

Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas- parece-me que estou a vê-las -,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e descrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai Galileo!
Mal sabem os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo Galilei.

Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto incessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa do quadrado dos tempos.

António Gedeão
(porque há manhãs em que se sorri para a chávena de café e se acredita que os Galileos existem e até sorriem; os outros... caem ininterruptamente do alto inacessível das suas alturas)

Méliès tinha razão em sonhar.

Vale a pena sonhar. Vale a pena a beleza. Trabalhar, sempre, que os sonhos constroem-se. Pessoais, uma questão de perspectiva ou de ritmo [a vida em fotogramas devia ser engraçada]. Sonhos despojados de medos, cheios de encantos e de surpresas. Só há uma vida que se saiba. E é para sorrir. Talvez a Lua seja mesmo assim. E quem sabe se a Terra será redonda? Também, que importa? Tudo não passa de um castelo de cartas. Pelo menos, no meu País das Maravilhas.

quinta-feira, 2 de novembro de 2006

Nós que aqui estamos (longe do Líbano)

"Em uma guerra não se matam milhares de pessoas.
Mata-se alguém que adora esparguete,
outro que é gay,
outro que tem uma namorada.
Uma acumulação de pequenas memórias..."

Cristian Boltanski, citado por Marcelo Mazagão no filme Nós que Aqui Estamos.
--


[Nunca se beija em vão, mas não se devia beijar em dor.]




[Nunca se deviam tomar caminhos não escolhidos. ]


[Nunca se devia reflectir com ampulheta na alma e arma ao ombro.]

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

Vinicius de Moraes

Fantástico homem, operário em construção, diplomata em fuga de formalismos, o brasileiro branco mais negro que já viveu. Homenagem merecida por outros tantos senhores da cultura brasileira.

Documentário urgente a amantes de poesia, música, história, cultura, intervenção, amantes em geral...

Afinal, "Quem pagará o enterro e as flores, se eu me morrer de amores?"

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

(quase) azul

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...

Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

Um pouco mais de sol - e fora brasa, -- -------______-- --- Blue Rose, c. 1922
Um pouco mais de azul - e fora além. ------ ------------------------ ---- -- Piet Mondrian
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

-- Mário de Sá-Carneiro

Crianças 2


Criança, eu, riscos assumidos, amizades eternas, palavras doces e memórias, vinda de colo de mãe e pai, conservados agora em amor e cuidados (quem cresce ou vive sem amor?). Saltar a cerca, passar o rio, correr para me apanharem, vivemos todos em jogos de gato e rato. E gostamos. Tinha um triciclo - possivelmente no sotão de casa dos meus pais - com uma campaínha, que tocava desalmadamente como se ao fugir de casa para longíssimo - tanto quanto pudesse pedalar até me apanharem - estivesse no Marquês de Pombal em hora de ponta...
--
Caía, claro, na velocidade da fuga, por caminhos irregulares, por caminhos marginais, não perdi essa vertente, não que os caminhos laterais sejam necessariamente os verdadeiros, mas são, sempre, uma tentação. E uma criança nunca resiste a uma tentação.
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Caía também ao trepar a árvores que então me pareciam altíssimas, perto do céu, onde gostava de ler os meus livros, pensar nos meus sonhos, ver o mundo ao contrário, e obviamente, esfolar os joelhos, como todas as crianças que se prezam. Entre a repreensão da roupa rasgada e o beijo no dói-dói da filha minorca, havia sempre um colo aguardado com ânsia.
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Não caibo já no meu triciclo, mesmo que passasse a comer menos ainda, seria difícil. Trepar às árvores, como saltar as cercas, ainda são aventuras que agora partilho com filhos e sobrinhos. Aventuras de pequeninos que acreditam que valem bem umas esfoladelas e um puxão de orelhas pela adrenalina de viver.
--
Afinal, fugimos para nos encontrarmos connosco e com os nossos sorrisos. Talvez, se tentar, ainda consiga encaixar no triciclo, desenferrujar a campaínha e passar mesmo no Marquês de Pombal, manifestação pela infância, viva e não melancólica. Os historiadores têm destas coisas, gostam de viver a vida plena enquanto estudam os mortos. E têm, geralmente, bom sentido de humor...

domingo, 29 de outubro de 2006

Bom dia

Vincent Van Gogh, Weatfield with Rising Sun

sábado, 28 de outubro de 2006

Crianças 1

"Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido
Chegava o mês de Maio e era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido
E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer
Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer"

Ruy Belo

sexta-feira, 27 de outubro de 2006

O romance da raposa

"Havia três dias e três noites que a Salta-Pocinhas - raposeta matreira, fagueira, lambisqueira - corria os bosques, farejando, batendo mato, sem conseguir deitar a unha a outra caça além duns míseros gafanhotos, nem atinar com abrigo em que pudesse dormir um soninho descansado"


Uma das histórias da minha infância. Uma das minhas procuras de sempre (ficou-me até hoje, as nossas identidades são, muito mais que pensamos, construídas).

Faz falta imaginar? Continuo a correr, nestes dias por quem me levou pela mão até à toca de um sonho de uma raposa bem ruiva, de espírito mordaz e actuação eficiente. Sonhamos com o que nos falta? Com o imaginário que nos deram ou com o que nos fez falta? Terei lido histórias suficientes ao João, que as lê já sózinho? Nunca é demais ler aos nossos filhos. Nunca me leram de mais. Leitora compulsiva desde cedo, letras como asas, estrelinhas que saltam do pijama e dançam na luz cada vez mais fraca do candeeiro que apaga o dia por mãos que amamos e que são sempre protectoras. Estou-me a lembrar de todos os recentes amiguinhos que conheci na blogosfera, a Matilde, o JP, a Lobita, o Pedro, estou-me a lembrar (tantas vezes me lembro) de Soeiro Pereira Gomes e dos seus "homens que nunca foram meninos", na belíssima dedicatória de Esteiros. Estou-me a lembrar - tantas memórias hoje, outras tantas homenagens, do trabalho de António José Forte com as Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian.

(ontem ao passar na Avenida de Berna reparei, "eu que não me comovo por tudo e por nada" que o edifício do serviço de bibliotecas tinha sido demolido e estava lá um vago de páginas e de trabalhos de décadas da nossa cultura, com uma parede [muro] de riscas de cores, como a pedir perdão)

É sempre de recordar que a raposa Salta-Pocinhas recorria a diversos recursos para conseguir sobreviver num mundo que não lhe era meigo, o que nos devia alertar o suficiente para que as leituras para as raposinhas não sejam feitas sempre da mesma forma, os nossos sentidos e os nossos corpos não funcionam todos igualmente, a natureza não tira fotocópias, há que levar o sonho para perto dos corações. Ler com os olhos, com as mãos, com os ouvidos.

***

Voltando ao Romance da Raposa...

Faltam-me, pois, os míseros gafanhotos (bom, talvez não gafanhotos, necessariamente), mas um pequeno-almoço de jeito, um abrigo para onde possa fugir do mundo, e o soninho que seria bem-vindo, em tempo de guerra.

No entanto - segredo-vos - parece-me que encontrei a raposa ruiva, e isso basta-me, neste momento, para ser feliz...

terça-feira, 24 de outubro de 2006

Maiores que o pensamento, sempre!


É bom ter amigos. É bom orgulharmo-nos deles, talvez seja muito feminino, muito maternal. Mas a verdade é que tenho mesmo muito orgulho nos meus amigos, que são, realmente, a minha família. O Filipe é um deles. E a sua equipa familiar, casa (lar) onde é impossível não estarmos bem pelo ambiente de carinho e de acolhimento, em fases de lágrimas ou de sorrisos. Ombros, os nossos amigos. Lutas, solidariedades, entre pares vivemos (não entre primos...). Família.

Além de ser um amigo notável é um excelente professor. Falo com propriedade, tive aulas com ele, raros têm sido os professores que me têm aparecido com sabedoria e humildade destas, com as aulas preparadas deste modo, com o espírito aberto para partir à descoberta, incorporando o conceito de aprendizagem naturalmente e como um caminho a partilhar entre todos).

Também um excelente fotógrafo, vejam a exposição anunciada acima. E leiam, quando passarem pela BN (no nosso país continuam a ser ignoradas para edição as teses de qualidade): Nacionalismo e pictorialismo na fotografia portuguesa na 1a metade do século XX: o caso exemplar de Domingos Alvão / Filipe André Cordeiro de Figueiredo, Lisboa: 2000.

domingo, 22 de outubro de 2006

Estrela do mar


"Numa noite em que o céu tinha um brilho mais forte
e em que o sono parecia disposto a não vir
fui estender-me na praia sozinho ao relento
e ali longe do tempo acabei por dormir
Acordei com o toque suave de um beijo
e uma cara sardenta encheu-me o olhar
ainda meio a sonhar perguntei-lhe quem era
ela riu-se e disse baixinho: estrela do mar
Sou a estrela do mar
só a ele obedeço, só ele me conhece
só ele sabe quem sou no princípio e no fim
só a ele sou fiel e é ele quem me protege
quando alguém quer à força
ser dono de mim
Não sei se era maior o desejo ou o espanto
mas sei que por instantes deixei de pensar
uma chama invisível incendiou-me o peito
qualquer coisa impossível fez-me acreditar
Em silêncio trocámos segredos e abraços
inscrevemos no espeço um novo alfabeto
já passaram mil anos sobre o nosso encontro
mas mil anos são pouco ou nada para a estrela do mar"

Jorge Palma

sábado, 21 de outubro de 2006

Segunda fase

Há sempre uma fase de início e uma fase que se segue. Ontem começou uma segunda fase do meu trabalho de mestrado. Palavra de ordem: trabalho. Mas também outras, preciosas como pérolas, arremessadas em generosidade e ímpeto devido por quem anda, há mais tempo, em caminhos de escrita e de procura. Varandas sobre o mundo. Fases de incredulidade em que achamos que nunca vamos comseguir abrir a janela, numa infância em que há sempre uma mão maior que a nossa que chega ao fecha mais alto e nos permite, mais que ver, respirar o saber do mundo, superar o sonho e cheirar a manhã. (Re)nascer todos os dias, em perspectivas diferentes, todos os dias a janela é a nossa, mas a paisagem difere e enriquece, os nossos olhos também mudam, os sentidos iludem e acompanham-nos na viagem do conhecimento. Todos os dias da nossa vida, entramos numa segunda fase, porque temos todos um passado. Talvez não tão diferente como pensamos, que o indivíduo e a identidade são conceitos com as costas largas. Talvez não com tanta criatividade ou genialidade como, no fundo, gostaríamos (egoístas disfarçados, desesperados à procura de um sorriso ou de uma aprovação). Estamos sempre a escrever a mesma história, o mundo será assim tão diferente? A preto e branco, que as cores, essas, são nossas. Como num livro de colorir.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006

Boris Vian

Reencontrado pela manhã, o que é certamente uma boa forma de começar o dia. Obrigado.

Procurado depois em saudade, saboreado ao café, aquele em que os princípes procuram açúcar no fundo. Eu não tenho sangue azul e não ponho açúcar no café, divergência de somenos importância, se o procuro na vida, não me levará certamente o autor a mal que não siga o conselho, ele, que não seguia conselhos de ninguém... "Le plus clair de mon temps, je le passe à l'obscurcir."

Que escrevia livros de grande beleza como:





E escrevia com sentido e com os sentidos:

"Mieux vaudrait apprendre à faire l'amour correctement que de s'abrutir sur un livre d'histoire."
Herbe rouge

"Sexuellement, c'est-à-dire avec mon âme."
L'écume des jours