sábado, 21 de março de 2020

Primavera

"Primavera que Maio viu passar
Num bosque de bailados e segredos,
Embalando no anseio dos teus dedos
Aquela misteriosa maravilha
Que à transparência das paisagens brilha."

Sophia

Sophia tem sempre razão. Aquela misteriosa maravilha é a vida. Maio é onde queremos chegar com o seu brilho. Há sol na minha janela hoje (tantas janelas, tantas mais quanto os dias que estou encerrada). Nuvens, mas sol. Provavelmente a Primavera começou ontem, no dia oficial mas a minha Primavera começa hoje. Devo dizer que o Inverno é a minha estação favorita. Nada como um belo dia de Inverno com o céu muito azul e o frio na cara. Mas a Primavera é como uma criança que nos conquista. É o renovar, é, esperemos, a esperança de novas realidades.
Tenhamos esperança nesta Primavera que por aí chegou mascarada de nuvens, pode ser que nos traga dores de crescimento mas depois a serenidade.

sexta-feira, 20 de março de 2020

A Brave New World

Hoje de manhã tive uma entrega da Nespresso. As lojas fecharam rapidamente quando começou a contaminação e tivémos que fazer logo um pedido online para não correr o risco de ficar sem cafá, algo reconfortante e de que todos gostamos cá em casa.
É mesmo a Brave New World. Senti-me num filme de ficção científica. Um senhor de máscara no meu visor de segurança a anunciar uma entrega, eu a pedir paciência e um bocadinho de tempo para calçar os sapatos de rua, descer no elevador cheia de nojo da respiração dos outros ou de me encostar ao que quer que fosse. A senhora que limpa a escada estava justamente no rés-do-chão a desinfectar o outro elevador. "Bom dia". À porta, o rapaz das entregas, com ar de medo. Confirmou o nome e a encomenda, assinou ele por mim para eu não tocar em nada a não ser na caixa, foi embora. Entreguei o saco das cápsulas recicladas. 
Regressei ao elevador. A senhora que limpava o patamar agora, sorriu de novo. Tem, de certeza, mais de 60 anos. "Como está?" "Vamos andando o melhor que podemos!" Subi no elevador em que tinha descido. Cheguei a casa, tirei os sapatos à entrada, coloquei-os na varanda, retirei as caixas de café da caixa de cartão, dobrei-a e foi para o lixo logo. Lavei as mãos e passei-as por desinfectante. Ainda me sinto suja e como se tivesse saído de uma enorme aventura cheia de passos para completar. 
***
Fiz Qigong e estou a tomar um chá com mel. Aqui em casa há videoconferências numas divisões, pessoas na varanda a tomar café noutras. O gato, indiferente a tudo, está na minha cadeira. Teve que sair para eu escrever e agora dorme na sua cama, ao meu lado. Penso, sempre, em Itália e nos amigos que lá tenho. Dizem que começou a Primavera mas está um dia de chuva triste. Amanhã, pode ser que venha o sol.

quinta-feira, 19 de março de 2020

Cinza

Dia cinzento, o primeiro do estado de emergência, Li no Twitter que estamos dedilhando a lira enquanto Roma arde. Não sei se é assim. Nero tinha a coragem dos inconscientes. Temo pelos que amo, temo por mim. De qualquer forma corre um vento ágil e suave nas minhas janelas e o meu gato mia irritado com as indecisões humanas. Tenho que ler, tenho que escrever, trenho que transcrever.
Ontem estive em contacto com muitos mais amigos, hoje logo de manhã a mesma coisa. O mundo na palma da mão, nunca carreguei o telefone tantas vezes. As pessoas estão unidas, querem o bem dos outros. Irrita-me bastante a inconsciência dos Trumps e dos Johnson deste mundo, expondo os seus povos ao que não merecem viver. Itália continua em drama. Esperemos que por cá o estado de emergência baixe a linha de crescimento do contágio. Esperemos que as pessoas cumpram. Não custa? Custa, sim, e eu estou habituada a trabalhar em casa. Claro que custa. Mas o preço é a vida, nossa e dos outros, Não há propriamente escolha. A ética não é só para ser teorizada, é para ser vivida.
Hoje é o dia do Pai e falta-me o meu.

quarta-feira, 18 de março de 2020

Amigos

Nos últimos dias tenho falado com muitos amigos. Ter muitos amigos é uma das melhores coisas que a vida nos pode trazer. Neste momento tenho saudades de todos eles, preocupação por todos eles. Estão bem, alguns em casa, alguns a trabalhar. Alguns são pessoas de risco face ao vírus, outros são pessoas mais saudáveis e num quadro de bastante possibilidade de passar bem por esta crise sanitária.
Hoje de manhã compras de carne, legumes, fruta, pão e iogurtes. Poucas pessoas - tem que se ir cedo - tudo calmo, poucas faltas (algumas... areia para gatos, sal grosso, detalhes pequenos em prateleiras que já andaram bem mais vazias).
Há que organizar o trabalho em casa, as refeições, revezar a vez na varanda com sol e vista para o mar, revezar a vez na bicicleta de exercício.
Tenho dois livros sem ser de trabalho em leitura, daqueles que achamos que nunca vamos ter tempo para ler. Tenho um trabalho de ponto de cruz a meio.
Tenho sono porque hoje foi a primeira noite em que não dormi bem. Adormeci tarde e sobressaltada e acordei cedo.
Hoje faz anos uma amiga que não irei abraçar.
O Presidente da República, à noite, falará ao país, apostaria que para impor o estado de emergência. Suponho que inevitável, desde que salve vidas será bem vindo.
Alguma ansiedade entrecortada pelas incoerências do meu gato e alguns telefonemas e mensagens amigas com humor.
Assim estamos. Há 15 dias em casa (eu).

terça-feira, 17 de março de 2020

Morte

Ontem morreu o primeiro Português infectado pelo Coronavírus. Em situações de epidemia/pandemia a morte salta em nosso torno, todos aguardávamos ansiosos, estranhamente ansiosos, se esta notícia viria, quando, inevitavelmente, viria. Todos, como nas antigas epidemias em que as pessoas se fechavam em cidades, em castelos, em isolamento, faziam a festa, criavam, escreviam, pintavam, fugiam de todas as maneiras ao inevitável da condição humana. Todos repetindo esta desesperada perseguição da mãe História, da morte sobre os humanos, seja sob que forma seja, mas mais assustadora, sempre, quando anunciada ao nosso lado. RIP.

segunda-feira, 16 de março de 2020

Quinze dias

Com coronavírus em Portugal. Comecei a manhã por fazer exercícios de Qigong. Depois a contabilidade da casa. Preparo agora o meu trabalho da faculdade, tenho uma revisão de um trabalho para fazer e um paper. Tenho transcrições para fazer e dados para começar a tratar.
Parou de chover. O meu gato requer a minha atenção. Há uma nota de aflição no ar, os historiadores sabem da imprevisibilidade das coisas. Apetecia-me sol, apetecia-me um campo com flores, apetecia-me respirar fundo e que tudo tivesse passado. Os idos de Março foram ontem, os cuidados continuam.

domingo, 15 de março de 2020

Domingo

Se quiser ir à Missa, que a veja online. Inédito. Acabo de falar com os meus antigos colegas de faculdade, chegando à conclusão que sim, os historiadores sabem - infelizmente - destas coisas. A questão de estarmos no campo ou pela cidade também veio à mesa da família. A salubridade e liberdade do campo é incomparávelmente mais apelativa mas os meus sogros moram ao nosso lado e precisam de apoio. Por outro lado não se sabe quando e como entraremos em quarentena - que me parece inevitável. Estão a sequenciar o genoma. Não há datas para nada, as famílias em casa, os frigoríficos envaziam à velocidade da luz, É preciso pensar na ração para os animais, na areia do gato. É preciso pensar em tudo mais vezes, com mais cuidado e com atenção aos inesperados. Sou de história, sei que eles acontecem. Prevenir. Vigiar (não punir nem ser punidos). Domingo. Vou procurar um filme para ver.

sábado, 14 de março de 2020

O COVID-19 e os regressos.

Quase quatro anos depois... Releio as minhas palavras de fecho do post anterior e chego à conclusão que não sabemos de nada dos nossos dias. Como está o mundo em 2020? Uma pandemia de Coronavírus tem meio mundo em quarentena e a outra metade para lá se encaminha. Muitos mortos, muitos infectados, alguns - felizmente - recuperados. Não há vacina. 
Para epidemias e pandemias não há como médicos para saber e historiadores para analisar. Muito trabalhámos sobre dados de tifo, cólera, febre amarela, pneumónica. Mas agora somos nós que fazemos parte dos dados. São as nossas famílias, os nossos amigos, o mundo cresceu, tornou-se global, falo quase diariamente com amigos de todo o mundo. 
Somos nós, sou eu, como tantos outros, que estou em quarentena porque sou de um grupo de risco (coração + hipertensão  + autoimune). 
Falamos ao telefone, usamos as redes sociais, ouvimos palavras que nos soam estranhas. Como se tivéssemos acordado num casulo, num corpo de outrém, noutro tempo e espaço.
Revemos as dispensas, os medicamentos, revemos as notícias dos que amamos, registamos pensamentos, voltamos à escrita infantil dos blogs, diários sem chave, idealistas. Trabalhamos com uma concentração estranha, falsa.
Só quero que isto acabe - sentimento global. Voltarei. Vou aqui à divisão do lado fazer o almoço.
Tão pequeno e tão grande o nosso mundo por estes dias. Que não nos falte a esperança.

domingo, 24 de abril de 2016

A publicar desde fevereiro de 2005.

Foi quando comecei o meu blog. Acabo de o reler na íntegra e, como tal, reler dez anos da minha vida. Acompanhou-me quando trabalhava nas minhas duas teses, quando não tinha sono e me preocupava, quando o mundo funcionava mal e agora não funciona muito melhor, afinal. Foi o meu afago no ombro quando as coisas corriam menos mal, quando a vida parecia tomar rumos que me apeteciam. E afinal os rumos já estavam todos decididos e eram outros por muito que eu gritasse e gritei bastante. Quando não estava a olhar iam-me tirando pessoas, outras partiam, outras nunca chegaram, realmente, a estar. 
Com que se fica, de dez anos de escrita pública? Com um sabor a incógnito, com um dever de me reexplicar o que aconteceu em todos os dias de escrita, por que foram aquelas as palavras tomadas e não outras, porque foram aqueles os sorrisos ou as lágrimas ou o medo. Tudo o que faz uma década, soubesse eu em fevereiro de 2005 o que sei hoje e não teria escrito uma linha, teria aproveitado o tempo de outra forma, teria guardado dentro de mim, egoísta, tudo o que vivi, teria apanhado cada segundo com uma rede e escondido tudo de todos para que nada faltasse dez anos depois.
Claro que o sol é o mesmo e hoje o céu está azul. Acabarei agora a minha escrita? Faço 50 anos daqui a semanas. A frase que me ocorre é a que já não tenho idade para estas coisas. Já enfrentei a vida vezes a mais, umas vezes ganhei, outras perdi. Estou enfraquecida, frágil, quebrada. Ao mesmo tempo tenho tantas coisas pelas quais posso e devo dar graças. 
As memórias, essas, passeiam por mim de vez em quando, quase todos os dias, umas aquecem, outras nem por isso. Mas acompanham o ritmo de uns passos cada vez mais medrosos, cada vez mais curtos. Tantas palavras por dizer e escrever. Vou beber um chá e pegar no meu livro. Tenho 49 anos e chamo-me Maria. Tive um blog.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Da raça, da traça, da raiz.

Do que somos feitos. Das raízes que nos lançam para o alto e afinal não chegamos acima como devíamos. Da traça dos arquitectos que nos conceberam, o nosso desenho original, virtudes e pecados. Raça das datas que nos vincam as frontes, que nos escorrem água por dentro, raízes num deserto sem futuro porque não era sós que queríamos continuar a traçar os caminhos. De qualquer forma faz de conta que daqui a bocadinho vou ter consigo para lhe dar os parabéns, Pai.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Dos blogs às redes sociais

Houve uma era dos blogs. Como historiadora, gosto de datar os processos, embora a sincronia não me confunda. Passei serões a escrever, ler e comentar textos, num processo produtivo e quase intimista que me marcou bastante, para o melhor e para o pior (tempo perdido, noites mal dormidas, olhos cansados). Quem não passou pelo fenómeno de alimentar um ou mais blogs e sobretudo de entretecer os seus pensamentos com desconhecidos com cuja escrita se identificava que levante o braço. Os portugueses escrevem e até, na sua maior parte, não escrevem mal de todo. Também não são deprovidos de espírito crítico.
Depois vieram fases piores da minha vida, ausências, tristezas, desilusões, cansaços, e quando acordei desse longo sono estava doente e os blogs tinham murchado. 
Do outro lado da pradaria nasciam as redes sociais via, sobretudo, Facebook, primeiro versão juvenil, depois versão extensa, alargado pela ascenção e queda de Farmville, um jogo que pôs muitos avós a jogar com netos às quintinhas virtuais. E tudo isso foi bom. 
Neste momento há um equilíbrio entre as minhas pesquisas no Facebook pelo estado de espírito ou novidades dos meus amigos, alguns jogos engraçados para descomprimir, algumas leituras mais sérias de grupos de trabalho e os outros fenómenos paralelos mais especializados: o Instagram, para fotografia, e Academia,edu - entre outros - para meios académicos partilharem as suas produções.
Isto da Internet tem destas coisas. Parte-se para comunicar, regressa-se com excesso de informação. E no entanto a opção é nossa e aprendemos isso na era dos blogs. Cada espaço que consideramos pessoal,  a sala internautica de cada um de nós, cada pegada que deixamos, cada rasto, são privados pela produção e pela vontade mas são de todos porque é tudo gratuito e tem aquelas condiçõezinhas que ninguém lê quando abre as contas... 
Privacidade precisa-se sempre, respeito também. Julgo que da era dos blogs para as circunstâncias de um mundo hiper-especializado e partilhado, nós, os adultos do início do século XXI, aprendemos essa primeira lição.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Saudades do futuro...

Passam anos, alguns anos, por exemplo, nove anos. Onde estava, o que fazia, o que pensava. Como pensaria que seria daí a nove anos? Provavelmente saí de casa de ganga e t-shirt, tomei um café, vivi o meu dia. Tinha um filho pequeno, estava separada, trabalhava e estudava. Tinha saúde e conduzia. Tudo muda, tudo passa, tudo dói, tudo marca. Os dias que compoem um conjunto qualquer de anos recentes são uma violenta catapulta para a diferença. Ganham-se pessoas, perdem-se, infelizmente, pessoas a mais, nem que fosse só um amigo com que tomámos um café junto ao rio num dia de sol. Todas as pessoas são tão importantes como o carinho que por elas temos. Nós mesmos, mudamos, mais bocado menos bocado. Entristecemos, envelhecemos, o cabelo embranquece, os olhos afundam onde eram brilho. Tudo sobra porque a vida é muita e tudo escasseia porque passa rápido. O que seremos daqui a cinco anos mais? Como borboletas em histórias de ficção, esperamos sobretudo voar ainda, voar sempre.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Verão

Verão como ontem foi o primeiro de muitos dias de praia, embora não possa apanhar sol, sempre há esplanadas, verão. Verão como sem café e sem cigarros se pode estar numa esplanada a ler calmamente, de chapéu para tapar a cicatriz, com a descontração possível de um gesto velho armado em novidade, verão. Verão como o medo passa com o afagar do mar nos meus pés em quase hora de jantar, como o medo passa dos males e da solidão, como a solidão foge pelas ondas dentro, como o mar acompanha os passos retomados com tanta gente em torno e eu sem os ver, sem os ver. Verão como consigo. Verão como em cada dia uma vida, verão como em cada onda um universo, verão como consigo não sei quê que me sabe a conquista, verão como em cada Verão um eu diferente, mais anos, mais e menos sorrisos, os passos mais lentos, mais cuidados, toda a vida é um despedir do mundo, não veem?

terça-feira, 19 de maio de 2015

Quando nos falta

Quando nos falta um sorriso ou um abraço, quando nos faltam princípios, quando nos falta o esperado do outro com que nos cruzamos, na fila, no café, no trabalho, quando nos falta a humanidade que é básica para o tratamento das feridas quotidianas e que dói mais quanto mais nos falta de perto. Quando nos falta o perto pensamos no que nos falta de verdade. E temos saudades.

domingo, 17 de maio de 2015

Viver perto do mar

Em desfado, em demanda de outras eras, de outras sortes, uma gaivota grita na minha janela recados de um além ou de um porvir porventura esquecidos ou fantasiosos. O mar, essa força, essa potencia, que nos leva o pensamento gelado para uma corrida defensiva de um quotidiano fácil. O mar, que recua se avançarmos ou que nos pode arrastar se lhe virarmos as costas em desrespeito, que o destino fada os incautos a desgraças certas e mesmo os cautelosos não estão livres dessa prisão do imprevisível. Grita a gaivota e foge ou regressa, conforme eu lhe diga adeus ou a acolha como uma dor maternal aceite pelo processo de estar que compete aos vivos. Ouço-a e estou grata pela maioridade das minhas memórias e pelo mar que me puxa e pelas gaivotas que me fazem levantar a cabeça. Mesmo, sobretudo, hoje.

terça-feira, 12 de maio de 2015




Acaba um ano e começa outro por voltas da meia-noite de hoje. Apetece-me o campo e os seus cheiros de primavera intensa. Apetecem-me colos que já não tenho. Tenho que rever um texto e não me apetece trabalhar, nem a mim nem a certas bases de dados que estão em baixo porque talvez eu as tenha contagiado, com o calor, o sol nos olhos da manhã, o entardecer dos meus 48 anos hoje com o real entardecer que começa agora, o meu cansaço de 48 anos a procurar sempre as mesmas belezas e os mesmos sorrisos e faltarem porque a vida não é como se quer. Que fiz eu em 48 anos? Que não terei feito? Que me faltará fazer? Estou demasiado consciente a escrever, escrevo melhor cansada, do esgotamento para as palavras. O calor é assim, fora de tempo, como tantas coisas que nos cercam. Não é fácil saltar o muro, não é fácil desistir de bocados à medida que a idade que vamos fazendo dói porque nos vamos ou nos vão consciencializando disso. Talvez doa realmente fazer anos porque temos que assumir aquele ar introspectivo enquanto olhamos as velas queimadas pelo esfumado do olhar (já) longo e pensamos que na estrada ficou tanto e talvez ainda (um talvez inseguro) tanto caminho a percorrer sem saber porquê ou como. Um cansaço. Sempre na memória "o tempo em que festejavam o dia dos meus anos eu era feliz e ninguém estava morto". Pois é.

A Concha

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhadosa de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.

A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

                                      Vitorino Nemésio

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Altos em baixos...

Em dias de boas notícias seriam os altos a predominar, sorrisos e tal, suspiros de alívio e festejos. Porém os pensamentos em catadupa que consciencializam o que queremos e o que se escusava : a permanência das tristezas e das melancolias. Nostalgias não porque arrependimento mata e acabámos de sobreviver a mais uma dose. Mas que dose, esta vida de três pequenos dias. Afinal devia bastar olhar o sol até encandear o pensamento e na luz encontrar o calor que falta quando faltam (a)braços.

terça-feira, 5 de maio de 2015

A escrita e a fala


Em dias normais uso as duas formas de comunicação mais óbvias, mais vulgares. Escrevo e falo demais porque sou comunicativa ou quando estou nervosa (e.g. aguardando o resultado de um exame). Não gosto quando quero comunicar uma coisa e é percebida outra. Não gosto, também, de querer comunicar de uma das formas e só me ser permitida outra. 

Claro, nem sempre somos como queremos ser. Eu quero falar, quero dizer de mim, quero explicar, sempre senti essa necessidade desde criança. Quando um bloco de pedra nos impede de emitir qualquer ideia, quando qualquer som nele bate e regressa a doer, a comunicação morre porque nos dói sem sequer ter chegado ou sido apreendida pelo destinatário. 

Aguardo exames e doo, não dos exames, mas da falta de coerência de um mundo em que a voz escrita ou falada de que falam os escritores da semiótica falha como uma flor que nós vemos e os outros temem como um qualquer tumor estranho que ali anda, incomodamente, toco de vela que ainda não se apagou.

Na realidade, só a limpidez do discurso cura as dúvidas e tira os medos. Mas há dias que nos sobrecarregam tanto com nuvens que nem isso nos é dado.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Papoilas e árvores

As papoilas, claro, muito mais frágeis e no entanto o que cortamos são árvores. As papoilas, inúteis de tão belas e as árvores cheias de potência de sombra, resina, frutos, madeira e com o tempo contado para as desendeusarmos. Nas papoilas talvez bichos pequeninos, nas árvores até os homens podem morar. E no entanto, a fragilidade perene, as semelhanças da dor e da cor de sangue e de vida, as nossas histórias que podiam incluir uma de amor entre duas espécies vegetais se fossemos cientistas que não somos e por isso podemos, apenas, ficar um bocadinho tristes todos os dias em que se perdem as qualidades complementares e inúteis que constituem os sentimentos dos nossos pequenos mundos.