terça-feira, 12 de dezembro de 2006

XIX=XXI

Também eu não sabia. Mas ao estudar os arquivos dos asilos de oitocentos e conhecendo algumas tristes realidades actuais cheguei a esta brilhante conclusão. Nunca fui boa a matemática, para grande tristeza do meu pai, e pouco tenho de racional. Infelizmente, e como agravante, parece-me que também fiquei com algum romantismo na educação, forte estigma. Acredito, assim, nas pessoas e na sua capacidade de melhorarem o mundo em que vivem. Também acredito no Pai Natal, na solidariedade, na inteligência emocional, na igualdade, nos direitos humanos e na Fada dos Dentes. Tenham pena de mim, desgostos diários atingem-me como bombas.
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Ao ler documentação diversa sobre os Asilos da Infância Desvalida, sobre Asilos-Escolas para Cegos, Surdos-Mudos e Loucos [era o termo] e ao ouvir atentamente desabafos vários dos nossos dias sobre as dificuldades de educação e integração de pessoas tão iguais a pessoas como qualquer de nós não encontro quaisquer diferenças [obviamente podemos considerar que uns têm os olhos verdes e falta de sentido de orientação e outros não andam ou não vêm, e também que alguns ficaram pela infância ou, como diz o meu amigo Ricardo "crescem, mas muito devagarinho"] .
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Por isso, claro, XIX=XXI ou XXI=XIX, que a ordem dos factores, neste caso, é mesmo arbitrária. Por isso cegos são conduzidos ainda hoje para ruas para onde não querem atravessar ou recebem esmolas na mão quando regressam de metro para casa, vindos da faculdade ou dos seus empregos. Encontram a entrada barrada em restaurantes e táxis quando acompanhados de cão-guia. Ou assumem a tolerância do esforço quando alvos de perguntas patéticas de profissionais da saúde em relação aos filhos como se lhes sabem tirar a temperatura...
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No meio disto tudo avançam as assinaturas na bendita petição. Mas continuam os websites abaixo do inacessível, continuam as escadas a saltar por cima das cadeiras de rodas, continuam as escolas a rejeitar crianças porque (...) e porque (...) e porque (...) não estão preparadas (=não querem).
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A equação é simples, o resultado directo, continuam a existir habitantes das margens, numa expressão que li num livro que adoro, As Crisálidas (voltarei a falar dele por aqui, espelha o que é uma sociedade desumana e prepotente em que as diferenças são consideradas falhas de identidade, nunca mais-valias).
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De que vale lutar pelo que quer que seja antes de se lutar pela informação e pela educação? Sem conhecimento não pode haver acção racional. Talvez não seja mesmo de romantismo que andamos a precisar. Em suma, o meu pai tem razão. A Matemática talvez dê mesmo mais armas que a História.

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